Quando os remédios fazem mal

Os efeitos colaterais são a quinta causa de morte nos Estados Unidos.

O sr. Mário B. era um vovô tranqüilo, amante da família, cumpridor de seus deveres. Mas, ao completar 71 anos, de uma hora para outra virou um jogador inveterado, deixou de pagar as contas e passou a gastar toda a aposentadoria em cavalos e loterias. A família levou-o a psicólogo, analista, psiquiatra e nada funcionou. A filha de dona Alberta M. também passava maus bocados com a mãe, uma senhora viúva, religiosa e rica que de repente, aos 65 anos, tornara-se cleptomaníaca, furtando objetos de lojas, supermercados e casas de amigas de forma patológica.

O que acontecera? A mulher do aposentado descobriu sem querer, lendo a bula do remédio que o marido tomava para controlar os primeiros sinais do mal de Parkinson. Estava lá escrito, em letrinhas miúdas, que o remédio poderia provocar alterações de comportamento em pessoas sensíveis à dopamina.

A filha de dona Alberta também fez uma descoberta casual: estava arrumando o quarto da mãe quando abriu uma gaveta e deparou com uma caixa de antidepressivos. Ela tomava o remédio em segredo desde que o marido morrera, quase um ano antes.

A causa de todos os problemas eram os efeitos colaterais dos medicamentos. O médico do sr. Mário mudou a medicação e o homem voltou a ser o que era. O médico de dona Alberta manteve o remédio, mas em doses menores, e seu comportamento voltou ao normal.

Os dois casos mostram que os efeitos colaterais não são facilmente identificáveis, mas por vários motivos são muito freqüentes. Entre 5% e 7% das internações hospitalares na Itália, onde é grande a população idosa, são atribuídas aos efeitos colaterais dos medicamentos. O percentual cresce com a idade e o consumo de remédios. Nos Estados Unidos, é de 28%.

Não há estatísticas no Brasil, mas o site da Anvisa na internet informa regularmente sobre ocorrências importantes envolvendo substâncias em uso na farmacopéia brasileira. Estudo publicado em 2006 pelo British Medical Journal calcula que, nos hospitais britânicos, os efeitos colaterais causam 250 mil internações por ano, ao custo de 466 milhões de libras para a Previdência Social. Com tantos danos à saúde da população e aos cofres públicos, uma pergunta se impõe: por que o problema recebe tão pouca atenção de médicos, laboratórios e autoridades sanitárias?

AS RESPOSTAS SÃO tão variadas quanto os efeitos colaterais. Primeiro, o povo não tem o hábito de ler bulas de remédios, a maioria extensas, mal-escritas e de difícil entendimento. Segundo, os médicos não têm o hábito de orientar os pacientes para os efeitos colaterais. Terceiro, não são matéria de estudo nas faculdades de medicina. Quarto, os laboratórios não dão o devido destaque aos efeitos colaterais nas informações aos médicos. Quinto, a dificuldade do diagnóstico. Por último, as próprias autoridades não consideram os efeitos colaterais um problema de saúde pública.

De 1998 a 2005, o número de casos de efeitos colaterais nos EUA aumentou 2,6 vezes, e o de mortes triplicou. Os efeitos graves aumentaram quatro vezes mais que o de prescrições, sugerindo que a automedicação é um fator importante. Os remédios mais modernos são os mais perigosos: os casos de efeitos colaterais graves dos 13 medicamentos mais novos aumentaram 15,8 vezes em relação a seus congêneres.

Idosos e crianças são as maiores vítimas. Os primeiros têm um coquetel de remédios à disposição: anti-hipertensivos, antiarrítmicos, antidepressivos, antidiabéticos, estaminas, soníferos. Os idosos consomem 40% dos medicamentos produzidos nos EUA. Cada um ingere o dobro dos fármacos consumidos por um jovem adulto e sofre o dobro de casos decorrentes de efeitos colaterais.

As crianças apresentam reações diferentes do adulto às mesmas substâncias. Também há diferenças na absorção, no metabolismo e na excreção de substâncias químicas. Os rins de crianças – assim como os de idosos – não funcionam plenamente.

Para piorar, somente um terço dos remédios é experimentado em crianças antes de eles serem aprovados para venda. De modo em geral, as doses são calculadas com base no peso, mas isso não tem o mesmo valor que a observação e o acompanhamento clínico.

Os efeitos colaterais são a quinta causa de morte nos Estados Unidos. Por isso, é consenso entre os médicos que, nos idosos, as doses devem começar pelo mínimo possível – entre um terço e a metade do prescrito para adultos – e ser aumentadas gradualmente, se for necessário. Mas essa não pode ser a única medida defensiva. Os pacientes devem levar ao médico a cesta de remédios que utilizam desde a última consulta, incluindo o que tomaram sem receita. Assim, o médico poderá ver se há incompatibilidades ou sobreposições.

Além disso, as receitas devem ser reavaliadas a cada três ou seis meses. Todo remédio deve ser ingerido pelo menor tempo possível, na dose estritamente necessária e com as substâncias de maior eficácia para aquele paciente.

Medicamentos não curam a solidão. Muitos problemas da terceira idade decorrem de solidão, tristeza, abandono. Para isso, o único remédio eficaz é atividade. Caminhadas, ginástica em grupo, hidroginástica, uma ocupação e um hobby, que pode ser caseiro ou ao ar livre. Tudo isso funciona melhor que um antidepressivo, especialmente a combinação de exercício com ocupação fora de casa.

O SOBREPESO DEVE ser tratado com ginástica e dieta, melhor do que com inibidores de apetite. A hipertensão leve e o colesterol um pouco alto cedem rapidamente com mudança alimentar e de estilo de vida. A insônia, com atividade. Ioga para a insônia e a instabilidade emocional é melhor do que soníferos e calmantes. Terapia em grupo para a terceira idade também pode funcionar melhor do que os remédios. Mas, se eles forem inevitáveis, devem ser usados com prescrição médica e acompanhamento rigoroso.

Há uma grande diferença entre um remédio aprovado após estudos em 800 pacientes e outro que já reúne 20 mil. Os efeitos mais raros, mas nem por isso menos graves, só aparecem depois de milhares de testes. Nos EUA, de 1975 a 1999 foram aprovados 548 medicamentos e 10,2% deles foram retirados do mercado. Em 2000 e 2001, seis fármacos foram suspensos na Europa e outros dez, retirados do mercado. Cada remédio retirado ficou, em média, quatro a cinco anos sendo prescrito pelos médicos.

Entidades de consumidores norteamericanas recomendam que as pessoas só utilizem medicamentos com mais de cinco anos de comercialização. Não existe remédio que não faça mal. Mesmo a aspirina, que reduz de 15% a 20% a mortalidade nos reinfartos, pode causar hemorragias e úlceras.

O paracetamol, muito usado como antipirético e analgésico, pode provocar danos ao fígado de pessoas sensíveis. Essa substância foi a primeira causa de envenenamento intencional no Reino Unido em 1996. Quatro anos depois, com a redução das quantidades permitidas para compra nas farmácias, as internações por danos graves ao fígado causados por paracetamol caíram 65%.

Interrupções bruscas nos tratamentos com antidepressivos, soníferos e calmantes não são nada recomendáveis. O uso deve ser limitado à fase aguda e a interrupção deve ser progressiva, sob os cuidados do médico.

Ler com muita atenção as bulas dos medicamentos é altamente recomendável, e tudo o que não for entendido deve ser perguntado ao médico.

Ervas e produtos naturais podem conter princípios ativos importantes e devem ser utilizados com bastante critério. Não são inócuos.

Toda atenção deve ser dada a qualquer mudança no seu organismo, como entupimento do nariz, prisão de ventre, flatulência, coceiras ou vermelhidão na pele, visão embaçada, surdez, cansaço, garganta seca, tosse, falta de ar, palpitações, lentidão, tonturas. Em geral, esses sintomas passam logo, mas se persistirem o médico deve ser informado.

Lembre-se: você será sempre o primeiro a sentir o efeito colateral e pesquisas indicam que 37% dos pacientes não sabem identificá-lo. Confira na bula, comente com o seu médico. É a única maneira de conhecer a si mesmo e descobrir se e quando estão acontecendo efeitos colaterais.

Equipe Planeta

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