Queimadas na Amazônia estão ligadas ao desmatamento, revela análise

Pesquisadores destacam a ação humana para a ocorrência dos incêndios e as pesadas consequências para os habitantes da região

Foto de 16 de agosto tirada pelo satélite Aqua, da Nasa, mostra a fumaça de incêndios tomando conta dos céus de estados da Região Norte (como referência, Rondônia está na parte esquerda da imagem) Foto: Lauren Dauphin/Nasa/Adam Voiland

(Ipam) – O número de focos de calor registrados na Amazônia já é 60% mais alto do que o registrado nos últimos três anos. O pico tem relação com o desmatamento, e não com uma seca mais forte, como poderia se supor, segundo nota técnica sobre a atual temporada de queimadas divulgada hoje, 20 de agosto, pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

De 1º de janeiro a 14 de agosto, 32.728 focos foram registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Uma das hipóteses para explicar a alta em 2019 seria uma estiagem intensa, como a registrada em 2016. Mas ela não se confirmou: apesar da seca, há mais umidade na Amazônia hoje do que havia nos últimos três anos.

Se a seca não explica as queimadas atuais, a retomada da derrubada da floresta faz isso. O fogo é normalmente usado para limpar o terreno depois do desmatamento, e a relação entre os dois fatores é positiva em uma análise entre os focos de calor e o registro de derrubada feito pelo Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD).

LEIA TAMBÉM: Amazonas decreta situação de emergência por conta de queimadas

“Não há fogo natural na Amazônia. O que há são pessoas que praticam queimadas, que podem piorar e virar incêndios na temporada de seca”, explica Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam e uma das autoras da nota. “Mesmo em uma estiagem menos intensa do que em 2016, quando sofremos com um El Niño muito forte, o risco de o fogo escapar é alto.”

Problemas respiratórios

A fumaça desencadeia uma série de problemas respiratórios em quem mora na região, o que gera ainda gastos com saúde pública e prejuízos econômicos pela ausência de funcionários. No Acre, que a nota destaca como exemplo, os satélites já registraram 1.790 focos de calor, número 57% mais alto do que em 2018 e 23% mais alto do que em 2016, com cidades respirando uma quantidade de material particulado muito acima do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

“As consequências para a população são imensas. A poluição do ar causa doenças e o impacto econômico pode ser alto”, diz Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam. “Combater o desmatamento, que é um vetor das queimadas, e desestimular o uso do fogo para limpar o terreno são fundamentais para garantir a saúde das pessoas e das florestas.”