Quem quer ser um milionário?

Mas o que você faz a esse respeito? Joga na loteria, reza muito, trabalha excessivamente? É hora de repensar sua relação com o dinheiro, aprender a usá-lo com sabedoria e fazer dele um aliado no presente e para o futuro

Símbolo de energia, poder e liberdade, o dinheiro causa fascínio no ser humano, sobretudo quando em grandes quantidades. Todos querem e sonham com ele. Mas quando se trata daqueles valores manejados todos os dias, o assunto se torna tabu. Pouco se conversa sobre as questões financeiras da vida prática – as finanças pessoais –, e muita gente prefere viver como se dinheiro não fosse um fator determinante para seu bem-estar.

Para romper com essa postura, que define como “dinheirofobia”, Nathalia Arcuri criou o Me Poupe!, a “primeira plataforma de entretenimento financeiro do mundo”. Verdade é que poucos conseguiriam colocar na mesma frase a ideia de diversão e finanças pessoais.­ Mas ela se preparou muito para isso: jornalista de formação, especializou-se em finanças pessoais, psicologia econômica e coaching financeiro, e passou a empresária, educadora e “tradutora de economês”.

O resultado da forma acessível, didática e até des­bocada de abordar o tema tem sido excelente. Seu canal do YouTube tem 1,7 milhão de inscritos, e seus vídeos superam 8 milhões de visualizações, o que faz dele o maior canal de finanças do mundo no YouTube, atualmente. E um forte indício de que muitos brasileiros estão sentindo a necessidade de enfrentar seus problemas econômicos.

Defina metas claras e autênticas. Se você não sabe o que quer, termina comprando tudo o que aparece pela frente (Foto: iStock)

Seu livro “Me Poupe! 10 Passos para Nunca Mais Faltar Dinheiro no Seu Bolso” (Editora Sextante), lançado em maio, vendeu 15 mil exemplares em duas semanas, um recorde na editora, e está nos primeiros lugares de listas de mais vendidos. “O livro é uma forma de chegar a pessoas que não são tecnológicas. Minha intenção é democratizar a educação financeira, por isso preciso estar onde as pessoas estão”, diz. Para expandir ainda mais seu alcance, o próximo passo será a TV aberta.

À legião de poupadores (ou pretendentes a) que a seguem, “Nath” não dá só o recado. Seu vídeo mais visto há quase um ano é aquele em que anuncia a conquista de R$ 1 milhão investidos licitamente. “Se quero­ ensinar as pessoas a parar com essa dinheiro­fobia, tenho de ser o exemplo. Tenho, trabalhei para isso. Por que as pessoas não podem falar quanto e como ganham?”

Mas ressalta que uma fortuna não nasce do dia para a noite. Ter dinheiro exige disciplina, criatividade e inteligência financeira para poupar e investir para o futuro, sem deixar de viver o presente. Nath lembra: “Meu milhão começou com R$ 1. Ou seja: é possível.”­
Para ela, o importante é focar mais em como se gasta e menos em quanto se ganha. “Recebo em média 500 e-mails por dia, tanto de gente que recebe salário mínimo quanto de quem recebe R$ 30 mil por mês, todos com o mesmo problema: falta de dinheiro”, diz. A primeira atitude para fugir disso é estabelecer metas claras e autênticas. “A falta de objetivo é o principal problema. Se você não sabe o que quer de fato, compra qualquer coisa que aparecer na sua frente, porque aquilo naquele momento é importante pra você”, alerta.

Desde criancinha

Álvaro Modernell, autor de 25 livros sobre educação financeira para crianças e jovens, defende a mesma ideia. “O dinheiro nunca vai ser suficiente para tudo o que você deseja. Você tem de fazer boas escolhas para não se arrepender.­ E para que o dinheiro não falte para aquilo que é importante para você.”

Para ele, o poema “Ou Isto ou Aquilo”, de Cecília Meireles, expressa a essência da educação financeira, especialmente no trecho: “Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, / ou compro o doce e gasto o dinheiro. / Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… / e vivo escolhendo o dia inteiro!” Por meio desse exemplo, ele mostra que nem só de matemática financeira se desenvolve uma relação mais saudável com o dinheiro.

Essa é a proposta nas escolas: como conteúdo transversal, o ensino de finanças pessoais deve ser apresentado em diferentes matérias sem ficar atrelado a uma delas em específico. Esse caminho agora terá de ser seguido no país inteiro. Em dezembro de 2017, ao ser promulgada a polêmica Base Nacional Comum Curricular, a educação financeira passou a ser obrigatória nas escolas públicas e particulares de nível fundamental e médio do Brasil.

“É um dos frutos da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), de 2010, que é bem mais ampla e cobre toda a população brasileira. A diferença é que a estratégia macro, de longo prazo, agora desceu ao nível tático, operacional”, afirma Modernell, que participou da formulação da Enef.

A melhor forma de controlar seu orçamento é focar mais em como se gasta e menos em quanto
se ganha (Foto: iStock)

Em suas frequentes visitas a mais de 400 escolas do Brasil, desde então, Modernell pôde acompanhar a evolução da postura dos professores em relação ao tema. “Nos primeiros anos havia um receio muito grande. Parece que isso passou. Muitos começaram a se interessar porque dominar esse conteúdo pode ajudar na vida pessoal deles.”

Ele acha prematuro tirar conclusões dos impactos sobre os alunos das escolas que já vinham adotando essa prática, porque ainda não são adultos responsáveis pelo próprio orçamento. Mas destaca que o potencial futuro é grande. “Se eliminarmos pequenos vícios e ajudarmos a aumentar o índice de acertos deles no uso dos recursos, teremos um consumo mais consciente, uso racional do dinheiro, nível de poupança melhor e mais gente pensando no futuro”, comenta, destacando que esse comportamento só tende a melhorar a vida pessoal, familiar e da comunidade como um todo.

Quem sabe dentro de 15 anos os números da inadimplência no país já não serão tão altos como atualmente. Em abril, eram 62,2 milhões de pessoas com alguma conta em atraso ou registradas em cadastros de devedores. Um recorde que representa 41% da população entre 18 e 95 anos de idade e significa a sétima alta consecutiva na série histórica dos dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

Além das oscilações econômicas e da alta no desemprego no país,­ esse índice se explica pelo fato de que a população nunca foi preparada para lidar com o acúmulo de parcelas. Depois do Plano Real, quando a inflação foi controlada e a moeda ganhou certa estabilidade, o parcelamento se tornou uma paixão nacional. Somado ao consumismo superestimulado, isso compromete o orçamento e a possibilidade de muita gente passar a outro nível de relação com o dinheiro: o planejamento de médio e longo prazo,­ que envolve fazer economias e investir.

Fé em Deus e pé no freio

Mas a questão mais profunda que afeta a postura do brasileiro frente ao dinheiro é de ordem religiosa, segundo o psicanalista e médico psiquiatra Jorge Forbes. Para ele, boa parte dessa relação distante do brasileiro com o dinheiro vem da formação católica, que associa ter dinheiro a pecado.

“Desde pequenos somos acostumados à ideia de que falar de dinheiro e se preocupar com questões financeiras é feio. Então, por não ter falado nem me preocupado, fico esperando que Deus me dê aquilo que não fiz. Esperamos muito que a providência divina e do Estado nos resolva a vida”, afirma. Conduta essa que não se vê nos países anglo-saxões, pois entre os protestantes o sucesso financeiro é “reconhecimento de um bem fazer, não de um bem roubar”.

Outra instituição que afeta essa relação de amor e desprezo com o dinheiro é a academia, adverte Forbes. Embora devesse preparar os jovens para atuar no mercado de trabalho e conseguir seu sustento e ascensão social por meio dele, as universidades no Brasil disseminam a ideia de que ganhar dinheiro não é honrado. “A academia vê com maus olhos quem ganha dinheiro. A ciência tem de ser pura, não pode ter nenhuma consequência de mercado; se não, passa a ser impura, interesseira, e vista com desconfiança”, afirma Forbes.

Álvaro Modernell: 25 livros sobre educação financeira para crianças e jovens (Fotos: iStock)

Mas isso tende a mudar. Com a redução da força da Igreja Católica no Brasil e com a expectativa de vida aumentada no país, o psicanalista diz que uma nova atitude vem surgindo. Para ele, é visível na geração que entra no mercado de trabalho agora, com 25 anos de idade, uma postura muito diferente da dos seus pais.

A influência da ideologia cristã é menor sobre eles e está claro que, por meio do Estado, não obterão uma aposentadoria decente. “Há uma nova mentalidade de fazer um pé-de-meia muito mais cedo e de aproveitar mais a vida do que os pais”, destaca. Forbes aponta como maiores exemplos disso os empreendedores, que nada esperam nem da providência divina, nem da familiar, nem do governo, e estão criando muitas coisas.

A educação financeira, que tira do dinheiro essa carga cultural negativa, deve colaborar com a mudança. Aprender a diferença entre precisar e querer são os primeiros passos para o brasileiro mudar seu comportamento imediatista e, muitas vezes, irresponsável frente a seus compromissos financeiros. Valorização do próprio esforço, foco no que de fato importa para si, consumo mais consciente e planejamento de longo prazo. Esses são só alguns ganhos inevitáveis de se estabelecer uma relação mais saudável com dinheiro. Um caminho promissor para o futuro de cada um e do planeta.


Da dinheirofobia à dinheiromagia

Nath, criadora do Me Poupe!: “Meu milhão começou com R$ 1. Ou seja: é possível” (Foto: Marcelo Spatafora)

Como anda sua relação com o dinheiro? Nathalia Arcuri, criadora do Me Poupe!, ajuda a identificar em que estágio você está e a aprender como evoluir.

Na pindaíba
Diagnóstico: medo de encarar o problema. “Quando se tem um rombo financeiro muito grande, a primeira alternativa é tapar o sol com a peneira, deixando sempre para depois”, diz Nath. Evitar esse comportamento e nunca piorar o tamanho do buraco é o primeiro passo a tomar. Ponha no papel cada uma das dívidas e olhe-as como metas a cumprir. Só vai dar para investir depois de superada essa etapa.

Vencendo o analfabetismo financeiro
Objetivo: amigar-se com o dinheiro. Falar de finanças em casa é tabu e na escola nunca aprendemos relações básicas do mercado: juros compostos, custo de parcelas e preço real de um financiamento de longo prazo. “Sempre se falou sobre dinheiro em grandes veículos, mas no sentido macro. E de uma forma tão inacessível que parece que não é com a gente”, comenta. Mas Taxa Selic, IPCA, IGPM, Tesouro Direto e outros conceitos que parecem cabeludos afetam diretamente a vida de todos, mesmo de quem prefere viver como se dinheiro não fosse problema. É fundamental aprender sobre tudo isso. Enquanto você continuar um analfabeto funcional para assuntos financeiros, não vai garantir uma vida melhor no presente e no futuro.

Rumo à salubridade
Se você já não tem dívidas e aprendeu a viver com menos do que ganha, é hora de pensar em poupar. Aplique a regra 30/70 que não tem erro. Eis a receita: 55% da sua renda deve ir para o essencial (casa, comida, saúde, deslocamentos, etc.), 10% para sua aposentadoria, 5% para educação (livros, cursos) e 20% para os objetivos de médio e longo prazo (viagens, carro, casa, novo negócio). Ficam liberados 10% para você gastar como quiser. Fundamental: defina metas claras e autênticas, senão será difícil se manter firme nos 30.

Rei/rainha da cocada preta
Com planejamento e esforço dirigido, qualquer um pode viver de renda. A independência financeira só é atingida quando o dinheiro trabalha a seu favor e é capaz de gerar renda suficiente para você não ter mais de trabalhar. Como chegar lá? Você precisa acumular patrimônio por meio de investimentos, imóveis, patrimônio investido… Tudo depende do estilo de vida que pretende manter. De início, precisa definir com que valor quer viver por mês. “Para viver de aplicações, deve calcular um rendimento mensal de 0,3%, o que não é muito difícil de conseguir hoje no Brasil”, revela. Por exemplo: se R$ 3 mil por mês for suficiente, seu objetivo será atingir, no mínimo, R$ 1 milhão investidos. Nath chegou aí aos 32 anos, sem ajuda de ninguém. Agora, sua meta é chegar a R$ 5 milhões.


Quanto custa sua felicidade?

Dinheiro e felicidade andam juntos até certo ponto, alerta Ricardo Teixeira, neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília. A questão é estudada há décadas no mundo. Uma pesquisa publicada na revista “Nature Human Behaviour” no início do ano reafirmou essa teoria.

Baseado em dados do Instituto Gallup de 1,7 milhão de indivíduos originários de 164 países, o estudo encontrou uma faixa de renda anual de US$ 60 mil a US$ 75 mil em que o bem-estar emocional foi mais bem pontuado. Valores maiores não aumentaram os sentimentos positivos no dia a dia.

O mais curioso é que, superados os ganhos de US$ 90 mil anuais, a satisfação com a vida diminuía. “O dinheiro pode comprar muitas coisas deliciosas, mas depois de certo ponto parece alimentar uma roda-viva de consumismo totalmente desconectada do que faz sentido na vida, que é o que realmente traz felicidade”, afirma Teixeira.

Na sua amostragem em consultório, as relações interpessoais próximas impactam muito mais no bem-estar psíquico dos pacientes do que as questões financeiras. Claro que a falta de dinheiro traz muita ansiedade e até depressão. Faz toda a diferença ter dinheiro necessário para o essencial – casa, comida, saúde e alguma diversão. Perder noites de sono por causa de dívidas atrapalha a felicidade de qualquer um. “Mas a busca incansável por dinheiro e sucesso é uma armadilha. O recado principal é: menos pode ser mais.”

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