“Quino registrou pensamentos atemporais sobre a América Latina”

O genial cartunista argentino criador de Mafalda deu visibilidade a questões latino-americanas, observa o professor Waldomiro Vergueiro, da USP

Mafalda e Quino: artista produziu 1.928 tiras com a personagem entre 1964 e 1973. Crédito: Reprodução via Facebook Mafalda Oficial

A importância de Quino ultrapassa os limites dos quadrinhos. Através da sua personagem Mafalda, ele registrou pensamentos atemporais sobre a realidade da América Latina, com forte teor político e consciência social. Quino colocou o quadrinho latino-americano no mundo.

É dessa forma que o professor Waldomiro Vergueiro, coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, se refere ao cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado, o Quino, criador da Mafalda – a garotinha pensadora e crítica –, que morreu, aos 88 anos, na cidade de Mendoza, na Argentina, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).
https://youtu.be/ThYgqGYd2fU

“É difícil listar quem não se inspirou no Quino”, afirma Vergueiro. “No Brasil, Laerte, Adão Iturrusgarai, na própria Argentina o Caloi, a Maitena Burundarena, todos os mais jovens claramente se inspiraram nele e em sua obra.” Para o professor, a maior importância de Quino foi dar voz aos pensamentos e questões latino-americanas. “A forma como ele pensava as questões sociais e políticas era intrinsecamente latina. Um europeu ou um norte-americano não pensariam assim. Só um latino poderia ter a visão que ele tinha.”

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Vergueiro ressalta a atemporalidade das situações que Mafalda apresentava. “Ele nunca criticava uma questão pontual, específica. Era sempre sobre questões amplas, duradouras. O que ele fez há 30 anos continua válido hoje.” O professor cita a ampla utilização das tiras e quadrinhos da Mafalda na educação, deixando claro que elas eram, principalmente, uma obra política.

“Mafalda sempre foi um quadrinho que podia ser lido tanto pelas crianças quanto pelos adultos, e os dois o entendiam. Nele você tem todos os esteriótipos da sociedade latino-americana da época, o empresário, o ingênuo, a dona de casa burguesa, e principalmente o desejo de liberdade de toda a América Latina.”

Esse teor político não vinha apenas dos personagens, mas da progressão do quadrinho de acordo com a passagem do tempo e com as mudanças na política e na sociedade latino-americanas, segundo Vergueiro. “Há uma evolução da Mafalda, que representava um espírito mais liberal. Quando ela se esgota, nasce uma personagem mais jovem, a Libertad, que claramente tem ideias mais de esquerda.”

https://youtu.be/JWhswh9LqAU
Vergueiro destaca que a importância de Quino não se restringe ao sucesso de Mafalda. O quadrinista argentino foi também um dos mais importantes cartunistas da atualidade. “O papel dos políticos, a divisão de classes, a política externa, a desigualdade social, tudo isso era objeto de crítica dele”, conta o professor. “A própria Mafalda criticava muito o papel da mulher na sociedade, principalmente por meio da mãe. Foi uma das primeiras personagens feministas do continente, e isso influenciou toda uma geração. É muito comum dizer que a Burundarena é a ‘Mafalda crescida’.”

Para Vergueiro, o estímulo a uma visão crítica e aguda da realidade, questionando constantemente as situações que permeiam o cotidiano, é o grande legado de Quino. “O seu cartum era sempre sobre o homem comum se deparando com as situações da realidade”, relembra.

“Quino foi talvez o último grande cartunista latino. Eu me recuso a terminar de ler a Mafalda, porque, quando não tiver mais ela, o que é que eu vou fazer?”

Charge de Quino – Reprodução

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