Raro fóssil de lagarto de milhões de anos atrás é achado em âmbar

Pesquisadores alemães investigam o status de conservação do réptil, que tem até 20 milhões de anos; diferentemente do que ocorre com insetos, em vertebrados o âmbar pode acelerar processos de degradação

Antepé de lagarto encontrado em âmbar: a resina afetou a preservação do material. Crédito: © Jonas Barthel

Como os fósseis permanecem preservados por milhões de anos? A incrustação rápida é um pré-requisito importante para proteger os organismos do acesso de animais necrófagos (que se alimentam de organismos mortos), por exemplo. A decomposição por microrganismos pode, por exemplo, ser evitada pela extrema aridez. Além disso, a substância original é gradualmente substituída por minerais. A pressão do sedimento no topo do fóssil garante que o fóssil seja solidificado.

“Essa é a teoria”, diz Jonas Barthel, estudante de doutorado no Instituto de Geociências da Universidade de Bonn (Alemanha). “Como exatamente a fossilização procede é, hoje, objeto de intensa investigação científica.”

O âmbar é considerado um excelente conservante. Pequenos animais podem ser colocados em uma gota de resina de árvore (como o pinheiro) que endurece com o tempo. Uma equipe de geocientistas da Universidade de Bonn examinou agora um achado incomum na República Dominicana: o minúsculo antepé de um lagarto do gênero Anolis está envolto em um pedaço de âmbar com apenas dois centímetros cúbicos de tamanho. As espécies de Anolis ainda existem hoje.

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Incrustações raras

O Museu Estadual de História Natural de Stuttgart (Alemanha) confiou o achado aos paleontologistas da Universidade de Bonn para exames. “As incrustações de vertebrados no âmbar são muito raras, a maioria são fósseis de insetos”, diz Barthel. O caso rendeu um estudo divulgado recentemente na revista “PLOS ONE”.

Os cientistas aproveitaram a oportunidade para investigar a fossilização do fragmento de vertebrado aparentemente muito bem preservado. Desde 2018, existe um projeto de pesquisa conjunto da Universidade de Bonn com a Fundação Alemã de Pesquisa, que contribui para o entendimento da fossilização usando abordagens analíticas e experimentais. O presente estudo também foi realizado no âmbito desse projeto.

Os pesquisadores tinham seções finas preparadas para microscopia no Instituto de Biologia Evolutiva da Universidade de Bonn. As garras e os dedos dos pés são muito claramente visíveis na massa âmbar marrom-mel, quase como se a resina da árvore tivesse pingado recentemente sobre elas – mas a minúscula pata tem cerca de 15 milhões a 20 milhões de anos.

As varreduras no tomógrafo do Instituto de Geociências revelaram que o antepé estava quebrado em dois lugares. Uma das fraturas é cercada por um ligeiro inchaço. “Isso é uma indicação de que o lagarto talvez tenha sido ferido por um predador”, diz Barthel. A outra fratura aconteceu depois que o fóssil foi incrustado – exatamente no local onde uma pequena fenda percorre o âmbar.

Proteção frágil

A análise de uma seção delgada do tecido ósseo usando a espectroscopia Raman revelou o estado do tecido ósseo. A hidroxiapatita mineral no osso foi transformada em fluoroapatita pela penetração do flúor. “Isso é surpreendente, porque assumimos que o âmbar circundante protege amplamente o fóssil de influências ambientais”, afirmou Barthel.

No entanto, a pequena rachadura pode ter incentivado a transformação química, permitindo que soluções ricas em minerais encontrem seu caminho. Além disso, a espectroscopia Raman mostra que o colágeno, o componente elástico do osso, se degradou amplamente. Apesar do aparentemente muito bom estado de preservação, havia de fato muito pouco da estrutura original do tecido.

“Temos de esperar que, pelo menos em âmbar da República Dominicana, as macromoléculas não sejam mais detectáveis”, diz o supervisor do estudo, Jes Rust, do Instituto de Geociências. Não foi possível detectar moléculas mais complexas, como proteínas, mas as análises finais ainda estão pendentes. Os processos de degradação nesse depósito de âmbar são, portanto, muito avançados e resta muito pouco da substância original.

O âmbar é normalmente considerado um conservante ideal: devido à resina da árvore, temos informações importantes sobre o mundo dos insetos há milhões de anos. Porém, no tecido ósseo do lagarto, a resina pode até acelerar os processos de degradação: ácidos na secreção de árvores provavelmente atacaram a apatita no osso, um processo semelhante ao da cárie dentária.