Realidade ampliada

Em vez de dividir cada vez mais o mundo real para estudá-lo, estamos integrando seus pedaços em partes maiores e conhecendo suas inter-relações, o que nos mostra detalhes antes invisíveis. É o paradigma holístico, que chegou para ficar

Já não nos interessa simplesmente fatiar a realidade para estudar suas partes (Foto: iStock)

Imagine uma partida da Copa do Mundo de futebol da Rússia transmitida pela TV como nos velhos tempos, com uma ou duas câmeras no meio de campo. Chatice total, pensaria o espectador de hoje, habituado a assistir aos lances por vários ângulos, com super slow motion, linha de impedimento traçada por computador e outros recursos. Estamos mais exigentes, queremos ver as jogadas de diversas perspectivas, e a moderna tecnologia nos dá condições para isso.

A cobrança por uma visão mais abrangente nas transmissões esportivas está em sintonia com um movimento que avança de forma lenta, mas irreversível, em relação ao conhecimento humano. Antes, o ideal era estudar as partes em detalhes e dali deduzir o todo. Agora, queremos apreender tudo sobre essas partes e as relações existentes entre elas. É uma mudança de paradigma, de padrão pelo qual encaramos a realidade.

O paradigma newtoniano-cartesiano, que via o universo como uma máquina e o fatiava para analisá-lo, vai dando lugar ao holístico (do grego “holos”, ou “totalidade”), que o vê como um todo em constante interação. Isso resulta numa perspectiva mais rica e adequada ao que acontece, pois, como dizia o estadista sul-africano Jan Smuts (que lançou o termo holismo em seu livro “Holismo e Evolução”, de 1926), o todo é maior que a soma das suas partes.

Sonda Voyager: um exemplo de como a ciência tradicional nos levou longe (Foto: iStock)

O novo paradigma traz transformações substanciais em pensamentos, percepções e valores, mas não rompe com o anterior. Este, afinal, nos levou longe: conhecemos as partículas que constituem a matéria e lançamos sondas aos confins do Sistema Solar, por exemplo. O pensar holístico, assim como os que o antecederam, usa o conhecimento prévio para fazer mapas da realidade mais precisos, num constante processo de resposta a novos desafios.

A visão holística já era perceptível quase 500 anos antes de Cristo, quando o filósofo pré-socrático Heráclito falava em “as partes no todo, o todo nas partes”. O escritor e cientista alemão Goethe propôs algo nesse sentido no ensaio “A experiência como mediadora entre o sujeito e o objeto”, de 1772. Mas o holismo começou a emergir de fato neste hemisfério no século 20, em reação a lacunas que o paradigma newtoniano-cartesiano vinha acumulando.

Brechas a descoberto

Essas lacunas incluíam, por exemplo, as discrepâncias entre a teoria da relatividade de Albert Einstein, baseada na ciência “tradicional”, e o comportamento aparentemente aleatório das partículas subatômicas estudadas pela física quântica. A medicina alopática, por seu lado, ainda não explica por que terapias como a acupuntura curam. Outro flanco de avanço foi a emergência da ecologia, o estudo da interação entre os organismos e o ambiente.

Ao mesmo tempo que esse “incômodo” científico se avolumava, movimentos culturais abriam espaço para formas mais contestadoras e abrangentes de pensar e viver. Nos anos 1950, por exemplo, surgiu a beat generation, grupo formado sobretudo por artistas e escritores americanos que reagia ao triunfalismo, ao consumismo e ao pensamento acrítico dominantes no país após a Segunda Guerra Mundial. Dela derivou o movimento hippie na década seguinte – a mesma que viu, em 1968, os protestos civis de maio na França e a Primavera de Praga, contra o domínio comunista na Tchecoslováquia. Ainda nos anos 1960, os franceses Louis Pauwels e Jacques Bergier (criadores de PLANETA) lançaram um best-seller internacional, “O Despertar dos Mágicos”, em que propunham um novo olhar sobre áreas pouco exploradas, como as tradições antigas e a parapsicologia.

O mundo da física quântica entra em choque com as teorias newtonianas-cartesianas (Foto: iStock)

Muitos acadêmicos ainda não aceitam o paradigma holístico. Parte deles vive a típica inércia humana em relação ao novo: é mais fácil e menos trabalhoso pensar como de hábito e deixar mudanças para amanhã. Outra parte prefere o status quo de olho em vantagens pessoais. É o caso de cientistas que, apesar das evidências de que a Terra vive uma fase de aquecimento na qual o ser humano tem culpa, lançam estudos bancados por instituições ligadas aos combustíveis fósseis nos quais dizem que o planeta está normalíssimo, ou até esfriando (um rigoroso inverno no hemisfério norte “comprovaria” isso).

Desconsiderar a visão holística, porém, é cada vez mais complicado. As celebridades associadas ao novo paradigma incluem o americano Murray Gell-Mann, prêmio Nobel de Física em 1969; os físicos David Bohm (britânico), Fritjof Capra (austríaco) e Amit Goswami (indiano); o belga Ilya Prigogine, prêmio Nobel de Química em 1977; os filósofos Teilhard de Chardin (francês) e Ervin László (húngaro); o matemático e filósofo inglês Alfred North Whitehead; o filósofo e pedagogo americano John Dewey; os biólogos Gregory Bateson (britânico), Francisco Varela e Humberto Maturana (chilenos); o psicólogo Karl Pribram (austríaco); o economista Jeremy Rifkin (americano); o pensador Ken Wilber (americano). Isso sem falar do químico inglês James Lovelock, criador da Hipótese Gaia, segundo a qual a Terra se comporta como um organismo vivo.

Áreas em destaque

A lista não para de crescer. Em certas áreas, o pensamento holístico avança a passos largos; em outras, a resistência sofrida retarda o processo. Conheça algumas delas a seguir. Ecologia – Transdisciplinar por excelência, a ecologia penetra no cotidiano ao expor, por exemplo, que o fabuloso crescimento econômico recente obtido pela China foi conquistado à custa de um pre­juízo ambiental difícil de sanar, o qual repercute na saúde da população, na economia e no turismo. Ou que o acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera provocado pela atividade humana está desarranjando o clima, multiplicando e/ou intensificando eventos extremos com dramáticas consequências.

O relatório “Nosso Futuro Comum”, divulgado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, lançou uma expressão que marca nosso tempo: o desenvolvimento sustentável, ou sustentabilidade. Em sua origem, o termo significa a forma como os sistemas biológicos perduram e permanecem diversificados e produtivos. A ecologia nos faz perceber que exploramos nosso planeta de forma insustentável. Fica cada vez mais nítido que a Terra não tem condições de suprir seus cerca de 7,6 bilhões de seres humanos nos padrões dos países desenvolvidos.

Poluição na China: progresso econômico à custa de prejuízo ambiental (Foto: iStock)

Cálculos da organização não governamental Global Footprint Net­work (baseados em informações da ONU, da Agência Internacional de Energia, da Organização Mundial do Comércio e dos governos nacionais) indicam que, em 2017, a humanidade esgotou em 2 de agosto todos os recursos que o planeta podia produzir naquele ano. Se a Terra fosse uma empresa, teria de fechar as portas naquele dia por falta de matéria-prima. A cada ano essa data-limite recua – em 2016, ela ocorreu em 8 de agosto. Como a conta não fecha, o apego ao consumo de bens materiais precisa ser revisto o quanto antes.

Deus joga dados?

Física – A física newtoniana e a quântica ainda não resolveram ­suas pendências. Albert Einstein, cuja teoria da relatividade foi comprovada em 1919, sentia-se incomodado com a falta de determinismo proposta pela mecânica quântica, que afirma ser impossível dizer onde uma partícula vai estar e calcula as probabilidades relacionadas a esse fenômeno. Em 1926, Einstein escreveu ao colega Max Born uma carta a esse respeito na qual dizia que “Deus não jogava dados”. Mas os incontáveis experimentos da física quântica têm mostrado sua validade.

Os físicos vivem, portanto, num arranjo provisório: usam a mecânica quântica para tratar do reino do infinitamente pequeno e a física newtoniana quando se fala de estrelas, galáxias, buracos negros e outros corpos cósmicos. Mas sabem que há uma teoria capaz de reunir isso harmonicamente num só conjunto de ideias – a chamada “teoria de tudo”. Cada nova descoberta, do bóson de Higgs à expansão ultrarrápida no início do universo, nos coloca mais perto dessa teoria unificadora.

Florestas integradas à lavoura: novo caminho que equilibra ambiente e economia (Foto: iStock)

Economia – Como reflete de perto o status quo, a economia tende a fazer abordagens fragmentárias. Mas já desponta uma nova visão dessa ciência, associada às formas como empresas e governos podem garantir seu crescimento e prosperidade respeitando três aspectos fundamentais: demandas econômicas, resiliência ambiental e cuidado com todos os segmentos da sociedade afetados por suas atividades.

Muitas empresas já procuram atuar segundo princípios sustentáveis e há índices em bolsas de valores dedicados a elas – os quais, em geral, mostram resultados melhores do que os das companhias que fazem o tradicional “business as usual”. A economia circular, que encaminha desperdícios de uma cadeia produtiva a outra, para servir como insumos de qualidade, e estende ao máximo a vida útil dos recursos naturais ao recuperar, reutilizar e reciclar materiais, é uma nova tendência nesse sentido que vem conquistando adeptos como a rede de moda C&A.

Cura misteriosa

Saúde – A medicina ocidental concentrou-se em estudar o homem como máquina e fez do médico o mecânico que repara as peças defeituosas. A especialização chegou a tal ponto que praticamente fez desaparecer o clínico geral. Enquanto isso, remédios e procedimentos onerosos tornaram o setor uma indústria bem rentável. Outros sistemas de cura, porém, mostram que é possível restabelecer a saúde a partir de meios diferentes, mais baratos e com menor chance de causar efeitos colaterais.

A reabertura do contato entre a China e os EUA, em 1972, ajudou a divulgar práticas milenares como a acupuntura, e o desafio de explicar como ela funciona está expandindo o conhecimento científico a seu respeito. A influência da mente do paciente no processo de doença e de cura também virou objeto de estudo, assim como os estados mentais positivos, que trazem resiliência e reduzem o risco de desequilíbrios orgânicos. Pesquisas sobre a influência da prece e da meditação na saúde também estão ­disseminadas nos dias atuais.

Educação – O sistema educacional tradicional divide a realidade em vários pedaços para estudá-los, a tal ponto que, nas universidades, o psicólogo francês Pierre Weil dizia que se estabelecem “verdadeiras torres de Babel”. Princípios de uma educação holística já existem pelo menos desde os anos 1970, quando um congresso sobre o tema foi realizado na Universidade da Califórnia em San Diego. As escolas que os praticam aliam ao saber convencional o desenvolvimento do aluno em áreas como espiritualidade, autoaprimoramento psicológico e emocional, responsabilidade e lapidação do caráter. Entre as experiências nessa área estão escolas baseadas nos trabalhos do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, como a Brockwood Park School (na Grã-Bretanha), e do filósofo austríaco Rudolf Steiner, conhecidas como Waldorf.

Religiosidade – A insatisfação com as correntes doutrinárias predominantes no Ocidente tem levado a buscas espirituais pessoais e abriu espaço para o avanço de religiões orientais, sobretudo o budismo. Também surgiu um novo olhar sobre conceitos de doutrinas esquecidas, como o xamanismo, a importância do princípio feminino e o panteísmo (a crença de que Deus está em tudo e tudo está em Deus). Em vários outros terrenos o pensamento holístico avança. Ele vem em sintonia com o maior dos desafios que a humanidade enfrenta: como garantir a continuidade da raça num planeta em transformação, cujas mudanças colocam em risco nossa sobrevivência. Para chegar lá, certamente aprenderemos muito com o holismo.


Mudança de paradigma

O conceito de mudança de paradigma foi popularizado em 1962, com o livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”, do filósofo e físico americano Thomas Kuhn. Na obra, o autor afirma que o avanço científico não é evolucionário, mas sim “uma série de interlúdios pacíficos pontuados por revoluções intelectualmente violentas”, nas quais “uma visão de mundo conceitual é substituída por outra”.

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