Reencarnação no mundo: uma ideia disseminada

Povos dos mais variados cantos do planeta têm a reencarnação em seu sistema de crenças

Os inuits são um dos povos do mundo que aceitam a reencarnação. Foto: Ansgar Walk/Wikimedia

Onde estão as pessoas que acreditam em reencarnação hoje em dia? O quadro a seguir, baseado em texto de Jim Tucker (o pesquisador que tem dado sequência ao trabalho de Ian Stevenson na Universidade de Virgínia), fornece uma panorâmica a respeito dessas comunidades e das principais semelhanças e diferenças que seus conceitos de reencarnação apresentam.

HINDUÍSMO – Para os hinduístas, a alma é imortal; após a morte, passa um tempo variável em outro plano de existência e depois retorna, associada a outro corpo. As condições nas quais o ser nasce são derivadas de seu carma, ou o resultado de sua conduta nas suas vidas anteriores. Por isso, é possível reencarnar como vegetal ou animal, ou com sexo diferente do experimentado na encarnação anterior. A vida na Terra é considerada indesejável, e para não voltar a este plano o ser deve seguir determinados preceitos religiosos. Quando atinge o grau evolutivo em que suas ações só resultam em conseqüências positivas, o indivíduo interrompe o ciclo de renascimentos e se une em definitivo ao mundo espiritual (nirvana).

BUDISMO – O conceito de reencarnação budista é derivado do hinduísmo, com algumas diferenças. O budismo theravada (mais comum no sul da Ásia) propõe a doutrina de anatta, pela qual a morte encerra a existência de um ser, mas serve de base para o nascimento de um outro, primeiramente em um plano não-material e depois no reino terrestre. A lei de ação e reação, ou carma, também interfere nesse ciclo, motivo pelo qual os budistas preferem falar em renascimento, em vez de reencarnação. As vidas podem se suceder por vastos períodos de tempo, e nelas também pode haver nascimento com troca de sexo ou em forma não humana (inclusive como deuses, que para Buda têm existência transitória). A ruptura desse ciclo e a conseqüente chegada ao nirvana só vêm quando todos os vícios são dominados.

XIISMO MUÇULMANO – Alguns grupos de muçulmanos da Ásia ocidental, como os drusos (Líbano) e os alevitas (Turquia), adotam um conceito de reencarnação que não envolve carma nem a possibilidade de renascimento como um ser do outro sexo. Para essas correntes, Deus estabelece que as almas viverão uma série de existências em circunstâncias diversas, as quais não têm relação de causa e efeito entre si; no dia do Julgamento Final, Deus analisa as ações realizadas nessas diferentes encarnações e destina então o indivíduo para o céu ou o inferno. Para os drusos, não há estado intermediário entre uma vida e outra; a reencarnação ocorre logo depois da morte do corpo anterior, e sempre no seio da comunidade drusa. Os alevitas aceitam a possibilidade de o indivíduo reencarnar em forma não humana.

 

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JUDAÍSMO E CRISTIANISMO – A reencarnação não é aceita nas correntes majoritárias judaicas e cristãs. Mas a cabala (conjunto de ensinamentos baseados na interpretação esotérica dos textos sagrados hebraicos) abrange esse conceito, partilhado pelos judeus hassídicos. Seitas cristãs primitivas, como os gnósticos, também adotavam a ideia de reencarnação, baseadas em passagens dos Evangelhos de Mateus e de Marcos nos quais Jesus diria que João Batista era a reencarnação do profeta Elias e no trecho do Evangelho de João em que Jesus conversa com Nicodemos sobre a necessidade de “nascer de novo”. Banida do cristianismo no Concílio de Constantinopla, em 553 d.C., a reencarnação só voltaria aos domínios cristãos pelo espiritismo, no século 19.

ESPIRITISMO – Essa corrente nascida no século 19 do trabalho de codificação do educador e escritor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) mostra forte influência oriental e da filosofia grega em seu conceito de reencarnação. Também aqui a alma é imortal e faz sua jornada da ignorância à perfeição espiritual por meio de inúmeras vidas no plano material. A reencarnação não é necessariamente imediata; há um período entre vidas, denominado intermissão, com duração variável. As condições da existência atual são explicadas pelo carma produzido em vidas anteriores. Uma vez atingido o estágio humano, não se volta mais à matéria como animal ou vegetal; a troca de sexos, porém, é possível.

ÁFRICA OCIDENTAL – Diversos povos do oeste da África acreditam em reencarnação e, ao contrário dos hindus e budistas, consideram que a vida na matéria é preferível àquela em outro plano de existência. Para esses grupos, os indivíduos geralmente renascem na mesma família e suas almas podem se dividir simultaneamente em vários seres que renascem. Muitos desses povos adotam a ideia de “crianças repetidoras”, pela qual uma alma perturbaria uma família reencarnando e morrendo sempre como um bebê ou uma criança pequena. Alguns desses grupos aceitam a noção de reencarnações não humanas.

ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS E INUITS – Os inuits (antes chamados de esquimós) e outras tribos norte-americanas situadas no norte e no noroeste do continente também adotam a reencarnação, embora haja numerosas diferenças de crença entre esses povos. Alguns, por exemplo, aceitam a mudança de sexo; outros, as reencarnações em forma não humana; um terceiro grupo, tal como os africanos ocidentais, acredita que a mesma alma pode reencarnar simultaneamente em diversos corpos. Muitos não consideram que todos os indivíduos têm de renascer; nesse sentido, sua atenção está mais voltada para pessoas que têm morte prematura, como crianças que renascem na mesma família ou guerreiros que reencarnam com marcas de nascença associadas a seus ferimentos.