Estudo mostra prejuízos da agricultura convencional para saúde e economia

Relatório "Cidades e Economia Circular dos Alimentos", da Ellen MacArthur Foundation, propõe um redesenho do sistema para que a agricultura regenere recursos naturais, eliminando resíduos por meio da melhor redistribuição e aproveitamento de coprodutos, sem depender de práticas nocivas

Heitor e Silvia Reali

O uso excessivo de fertilizantes, esgoto sem tratamento, e o uso excessivo de antibióticos na criação de animais poderiam levar a 5 milhões de mortes por ano globalmente até 2050, de acordo com o relatório “Cidades e Economia Circular dos Alimentos”, da Ellen MacArthur Foundation. Isso equivale ao dobro do atual número de mortes por obesidade e quatro vezes o número associado a acidentes de trânsito.

O estudo revela que eliminar resíduos e melhorar a saúde da população através da economia circular aplicada à agricultura poderia gerar benefícios anuais equivalentes a US$ 2,7 trilhões para a economia global. Custos de saúde causados pelo uso de pesticidas teriam uma redução de US$ 550 bilhões por ano, e a resistência antimicrobiana, a poluição atmosférica, a contaminação da água e as doenças de origem alimentar também apresentariam uma queda significativa.

Emissões de gases de efeito estufa teriam uma redução esperada de 4.3 gigatoneladas (Gt) de CO2 equivalentes, o que equivaleria a tirar um bilhão de carros de circulação permanentemente. A degradação de 15 milhões de hectares de terra arável seria evitada e 450 trilhões de litros de água doce economizados por ano.

O relatório, que será apresentado hoje (24/01/19) no encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, destaca o enorme dano ambiental causado pelo modo de produção atual dos alimentos. Hoje a produção de alimentos é responsável por quase um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto fertilizantes sintéticos e estrume mal administrado intensificam a poluição atmosférica. A proposta da “economia circular” é repensar a forma de desenhar, produzir e comercializar produtos para garantir o uso – e reúso – inteligente dos recursos naturais.

Embora 70% da água disponível seja usada para produzir alimentos, 870 milhões de pessoas passam fome

Mesmo quando tentam fazer escolhas saudáveis para a sua alimentação, os consumidores estão expostos a riscos associados à produção dos alimentos. Para garantir que pessoas ao redor do mundo possam se alimentar de forma saudável, é necessário considerar não somente o que comemos, mas como esses alimentos são produzidos. A Fundação estabelece uma visão de um novo sistema em que os alimentos são produzidos localmente e de maneira que regenera recursos naturais, resíduos são eliminados através da melhor redistribuição e aproveitamento de coprodutos, e alimentos saudáveis são produzidos sem depender de práticas nocivas.

Ellen MacArthur, a fundadora da fundação, disse: “A nossa atual maneira de produzir alimentos não só gera desperdícios e prejudica o meio ambiente, como está causando sérios problemas de saúde. Ela não pode continuar no longo-prazo. Nós precisamos redesenhar o sistema urgentemente. Pessoas ao redor do mundo necessitam de alimentos que sejam nutritivos, e que sejam produzidos e ofertados de uma maneira favorável à sua saúde, ao meio ambiente e à economia.”

As cidades são atores chave nessa revolução alimentar. Até 2050 elas consumirão 80% dos alimentos, e por isso têm o poder de conduzir essa transição para um sistema saudável. As próprias cidades poderiam destravar US$ 700 bilhões por ano usando materiais orgânicos para ajudar a produzir novos alimentos e produtos, e reduzindo o desperdício de alimentos próprios para consumo.

Um olhar sobre quatro cidades ao redor do mundo (Bruxelas, na Bélgica; Guelph, no Canadá; Porto, em Portugal, e São Paulo, no Brasil) oferece um entendimento de diferentes sistemas alimentares urbanos e os potenciais benefícios de uma transição para uma economia circular dos alimentos. O relatório descreve um cenário para cada cidade, destacando elementos chave de um potencial redesenho circular do seu sistema de alimentos.

Estudos de caso

Análises completas das quatro cidades serão publicadas em fevereiro de 2019, delineando os principais motores e potenciais benefícios de tal transição em cada contexto. Em São Paulo, por exemplo, um redesenho inspirado nos princípios de uma economia circular poderia construir um sistema alimentar urbano regenerativo e mais inclusivo.

O relatório descreve um cenário em que a produção local de alimentos é expandida com ampla adoção de práticas regenerativas. Nesse cenário, agricultores familiares desempenham um papel central na regeneração das áreas verdes da capital e região metropolitana através da produção de alimentos, podendo evitar 92 mil toneladas de emissões de gases de efeito estufa e reduzir o consumo de água doce em 46 milhões m3 em comparação a um cenário de práticas agrícolas convencionais, e participam das dinâmicas de mercado da capital.

Com produção mais local e distribuída, os alimentos saudáveis se tornam mais acessíveis para todos e os desertos alimentares urbanos deixam de existir. A economia da cidade também se beneficia com esse cenário, já que a oferta ampliada de ingredientes diversos e nutritivos abastece a os cardápios dos 23 mil restaurantes da cidade e reforça sua posição como uma capital gastronômica.

Luísa Santiago, Líder da Ellen MacArthur Foundation Brasil, disse: “As falhas do nosso atual sistema linear de alimentos estão evidentes em cidades ao redor do mundo e as cidades brasileiras poderiam encontrar grandes oportunidades na transição para uma economia circular dos alimentos. A nossa análise da cidade de São Paulo, por exemplo, sugere que essa capital gastronômica poderia capturar mais de R$ 500 milhões em benefícios anuais ao adotar princípios de circularidade para alimentar sua população, além de regenerar os ecossistemas locais e ampliar o acesso a alimentos saudáveis.”

O relatório foi escrito com apoio analítico da SYSTEMIQ, e sua realização possibilitada pelos parceiros filantrópicos Calouste Gulbenkian Foundation, apostadores da People’s Postcode Lottery (GB) e Porticus, em colaboração com os principais parceiros Intesa Sanpaolo e Intesa Sanpaolo Innovation Center, e parceiros chave Danone, Sitra, Suez, Tetra Pak e Veolia. “Cidades e Economia Circular dos Alimentos” é um projeto afiliado da Plataforma para Acelerar a Economia Circular (PACE), do Fórum Econômico Mundial. O relatório foi produzido como parte do Project Mainstream, uma iniciativa global liderada por CEOs, criada pela Ellen MacArthur Foundation e o Fórum Econômico Mundial, que ajuda a escalar inovações de economia circular nos negócios.

Frutas: alimentos integrantes do primeiro grupo (Foto: Filipe Frazao

●A poluição atmosférica, contaminação da água,
exposição a pesticidas e uso excessivo de antibióticos e
fertilizantes estão tornando a alimentação saudável
impossível para pessoas ao redor do mundo

●Até 2050, cinco milhões de pessoas poderiam morrer a
cada ano em decorrência de fatores da produção
industrial de alimentos – o dobro do atual número de
pessoas que morrem de obesidade e quatro vezes o
número de pessoas mortas em acidentes de trânsito
globalmente

●Novo relatório da Ellen MacArthur Foundation propõe
um redesenho da indústria de alimentos com base na
economia circular: onde alimentos são produzidos de
maneira que regenera recursos naturais e localmente
quando fizer sentido, resíduos são eliminados através de
melhor redistribuição e uso de co-produtos, e alimentos
saudáveis são produzidos sem depender de práticas nocivas

●80% dos alimentos serão consumidos nas cidades até
2050, por isso elas têm um papel chave na criação de um
sistema alimentar saudável. Um olhar sobre quatro cidades
demonstra como a transição para uma economia circular
dos alimentos poderia se materializar em contextos
distintos e os seus potenciais benefícios; em São Paulo,
grandes oportunidades se revelam em um sistema alimentar
urbano regenerativo e mais inclusivo

COMPARTILHAR
blog comments powered by Disqus