Resíduo bom é o que não é gerado

Paulo Uras
Helio Mattar é doutor em Engenharia Industrial pela Universidade Stanford (EUA) e diretor-presidente do Instituto Akatu – Consumo Consciente para um Futuro Sustentável

Reciclar é preciso, no entanto, não é suficiente. A reciclagem de resíduos não significa uma mudança na essência de nosso padrão de consumo, e essa é a questão fundamental quando falamos em sustentabilidade. A geração de resíduos é um forte indicador do nível de produção e consumo e, em muitos casos, também de desperdício de uma sociedade. É importante ter em mente que o resíduo do nosso consumo é apenas uma parte – e bem pequena – do total gerado durante o processo produtivo de cada artigo, desde a extração, processamento, armazenamento e venda. Eles precisam ser recolhidos, tratados, descartados e/ou reciclados.

E quem paga essa conta? O consumidor, sempre. Esse custo está embutido no preço do produto, na forma de impostos usados pelas prefeituras para pagar por serviços de coleta, transporte, deposição final ou reciclagem. Esse custo também pode ser visto na degradação do meio ambiente, na forma de poluição visual, olfativa, obstrução de vias e canais de escoamento de água e, muitas vezes, trazendo riscos de doenças. Especialmente quando se considera que quase 50% dos resíduos gerados vão para lixões e não para aterros sanitários.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2008, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 190 milhões de brasileiros geram quase 160 mil toneladas de resíduos urbanos por dia. Dessa forma, cada habitante gera aproximadamente 1,4 kg de resíduos por dia, dos quais 60% são orgânicos e 40% são materiais recicláveis ou rejeitos sem utilização possível.

Dada a expectativa média de vida do brasileiro de 73,8 anos, cada pessoa produz 37,7 toneladas de resíduos durante sua existência. Isso significa que uma família de quatro integrantes encheria 22 caminhões de lixo com resíduos gerados ao longo da vida. Se, em vez de descartar, essa família guardasse o resíduo, precisaria de três apartamentos de 60 m2 só para depositá-los, do chão até o teto. 

Reciclar resíduos é imperativo. Ao reutilizar ou reciclar o que seria descartado, reduz-se o volume de lixo. Ao mesmo tempo, se recoloca matéria-prima nas cadeias produtivas, diminuindo o consumo de energia e de água, quando comparado ao que seria gasto na produção feita a partir dos recursos naturais virgens. Entretanto, ainda assim demanda transporte, energia, água e recursos naturais.

Desde 2014, o Brasil conta com um importante mecanismo de estímulo à reciclagem: a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). A aprovação e implantação do PNRS têm gerado muito debate e movimentação em torno do tema, nos municípios e empresas. A Política está assentada em três princípios básicos:
1) evitar a retirada de recursos naturais do meio ambien­te;
2) reduzir a geração de resíduos sólidos;
3) reusar, reciclar, dar tratamento e dispor adequadamente os resíduos gerados.

Embora a reciclagem signifique uma mudança no processo de produção, o modelo de consumo não se altera, o que seria fundamental para uma sociedade mais sustentável. Em meio a isso, é importante destacar o papel dos consumidores que, como cidadãos e corresponsáveis nesse processo, podem (e devem) acompanhar os movimentos em curso e demandar informações e ações por parte do poder público e do setor privado. E, claro, consumir com mais consciência, para produzir menos resíduos.

COMPARTILHAR