Resiliência catalã

Abrigado em uma belíssima cadeia de montanhas, o Mosteiro de Montserrat, na região de Barcelona, é um símbolo da identidade da Catalunha e ponto de parada obrigatório para peregrinos e turistas

Barcelona em si é uma atração completa, uma das metrópoles mais bonitas e movimentadas da Europa. Mas a Catalunha, comunidade autônoma da Espanha da qual a cidade é a capital, tem diversos outros pontos de interesse para os turistas, entre eles uma área de importância fundamental também para a história, a cultura e a religião daquela parte do mundo. Localizado numa grande planície a cerca de 50 quilômetros de Barcelona, o maciço montanhoso de Montserrat – nome derivado de Mons Serratus, ou “Monte Serrado” – é, além de tudo, uma bela e peculiar formação geológica, cujo fascínio se enriquece ainda mais com um mosteiro lá abrigado.

Resultado de movimentos tectônicos e da erosão do vento e da água, o maciço mede aproximadamente cerca de 10 quilômetros de comprimento por 5 quilômetros de largura. Não é muito alto: seu ponto máximo é o pico de São Jerônimo (Sant Jeroni, em catalão), a modestos 1.236 metros de altitude. Acessível a pé a partir da estação superior do funicular (trem de cremalheira) de Sant Joan, esse local é um dos principais pontos de visitação da Catalunha e permite uma vista privilegiada da região – em dias de céu claro, é possível até observar a ilha de Maiorca, do arquipélago das Baleares, em pleno Mediterrâneo. No caminho até o alto, exercícios de criatividade divertem os turistas, que podem ver um grupo de frades, uma pequena múmia, um elefante, um camelo, um cavalo e muitas outras figuras de pedra que surgem das montanhas a cada momento.

Mais abaixo, aos pés das formações rochosas, há uma floresta repleta de carvalhos, pinheiros-de-alepo, lariços, zimbros e teixos. As árvores servem de abrigo para uma fauna variada, que inclui raposas, doninhas, ouriços, musaranhos (pequenos mamíferos roedores), coelhos, esquilos, javalis, víboras-de-focinho-achatado, cobras-rateiras (a maior espécie da Europa) e lagartos conhecidos como sardões. Na relação de pássaros avistados ali estão o bufo-real, o açor, a coruja-do-mato, a andorinha-das-rochas e o andorinhão-alpino. Pressionadas pela presença constante dos humanos, as grandes aves de rapina, como a águia-real, acabaram por abandonar a região.

Identidade própria

Na vertente meridional do maciço, numa planície a cerca de 720 metros de altitude, está o local que rivaliza com as belezas naturais da região: o Mosteiro de Montserrat. Esse núcleo beneditino, no qual moram hoje mais de 80 monges, ajudou a manter, ao longo dos séculos, a identidade cultural e espiritual do povo da Catalunha, e até hoje é um importante centro de peregrinação para os católicos. Fundado supostamente por volta de 1011 pelo abade Oliba, o mosteiro passou por uma intensa fase de expansão nos séculos 12 e 13, época em que se construiu uma igreja românica que passou a abrigar a imagem da Virgem de Montserrat – uma peça de madeira criada, segundo a lenda, em 880, mas que mais provavelmente foi produzida no século 12. A imagem também é conhe­cida como “La Moreneta”, em referência à sua pele escura, possivelmente resultante de uma reação química do verniz com o qual foi pintada.

A Virgem passou a ser responsabilizada por milagres ocorridos na região, e com isso muitos fiéis fizeram doações materiais a Montserrat, que gradualmente viu seu patrimônio aumentar. As obras foram se sucedendo: em 1476, foi erguido ali o claustro gótico; em 1499, entrou em ação a tipografia do mosteiro. Nos séculos seguintes, a importância e o prestígio de Montserrat só fizeram crescer. A basílica começou a ser construída no século 16; na segunda metade do século 18, foi levantado o grande edifício que abrigaria o mosteiro. O século 19, no entanto, não trouxe boas recordações para Montserrat. Em 1811, as tropas de Napoleão invadiram, saquea­ram e incendiaram o local. No ano seguinte, em outra batalha da Guerra da Independência contra a invasão francesa, o mosteiro foi explodido. Com a ajuda dos devotos, os catalães conseguiram salvar apenas a imagem de Nossa Senhora de Montserrat.

A devastadora passagem do exército napoleônico exigiu um penoso e demorado trabalho de reconstrução. Apesar de o mosteiro ter sido reaberto em 1844, apenas 14 anos depois é que recomeçou o reerguimento definitivo de seus vários edifícios – um esforço que só terminaria em 1968, mais de um século depois, com a conclusão da nova fachada do mosteiro. Mas nem tudo foram tristezas nesse período. Em 11 de setembro de 1881 – data nacional dos catalães –, o papa Leão XIII proclamou a Virgem de Montserrat padroeira da Catalunha e fixou em 27 de abril o dia para celebrá-la.

Museu renomado

Em 1911 foi criado na área do mosteiro o Museu de Montserrat, cujo elogiado acervo de mais de 1.600 peças inclui obras de artistas regionais e de importantes pintores europeus, como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Caravaggio, El Greco, Monet, Renoir, Joan Miró e Marc Chagall. Em 1912, além de dar sequência às melhorias, o abade Marcet adotou o catalão como língua oficial de Montserrat e estimulou a produção intelectual dos monges. Nessa época já se podia contar novamente com uma farta biblioteca e uma tipografia.

As edições locais ganharam então um grande impulso – em 1926, por exemplo, foi produzido ali o primeiro volume da Bíblia de Montserrat, totalmente escrita em catalão. Em 1936, com a Guerra Civil Espanhola, abriu-se na história do mosteiro um novo parêntese, encerrado em 1939, com a volta dos monges a seus trabalhos. Nesse intervalo, 23 religiosos do local foram martirizados. A produção cultural de Montserrat nasceu, basicamente, no scriptorium do mosteiro. Ali, os copistas acabaram se transformando em estudiosos da Bíblia, escritores, professores, historiadores e eruditos, que ajudaram a enriquecer sua própria biblioteca.

Seu Collegium musicum também se tornou famoso. Dali saíram vários compositores de renome, organistas, mestres de capela e instrumentistas.­ Fundado no século 13, o renomado coro de meninos do mosteiro, L’Escolania, é um dos mais antigos da Europa ainda em atividade e se apresenta em ocasiões específicas na basílica. A destruição e a glória marcaram por séculos a história de Montserrat. Mas os muitos momentos de desventura não foram suficientes para que, unidos em torno da virgem morena, os moradores do mosteiro dessem à Catalunha e à Espanha um exemplo de fé, resistência e perseverança inquebrantáveis, que ainda hoje ecoa na alma do país.


Montserrat no Novo Mundo

A Montserrat antilhana: encontrada por Colombo em 1493 (Foto: iStockphotos)

A Virgem de Montserrat ficou conhecida nas Américas graças a um frade embarcado na frota de Cristóvão Colombo na viagem que o genovês realizou em 1493 ao nosso continente. Antes de se tornar diplomata, Bernardo Boyl havia morado em Montserrat como sacerdote eremita. Uma das ilhas das Pequenas Antilhas descobertas por Colombo nessa viagem foi batizada como Montserrat, denominação mantida pelos ingleses, que governam o território desde 1632.

Montserrat também é o nome da segunda montanha mais alta de Santos (SP). Conta a lenda que em 1614, durante um ataque de holandeses à cidade, muitas pessoas subiram ao topo desse morro – chamado de Monte de São Jerônimo ou Monte Serrat – para pedir proteção à Virgem. O pedido foi atendido: quando os atacantes se aproximaram do alto do morro, uma avalanche de pedras teria então caído sobre eles. Nossa Senhora de Monte Serrat (ou Monserrate) é a padroeira da cidade paulista e homenageada entre 5 e 8 de setembro.

COMPARTILHAR
blog comments powered by Disqus