Respeitável público!

Entre um circo, um bondinho e as festas juninas, o resgate da cultura popular no interior de São Paulo marcou também o resgate da fotógrafa Camilla Pastorelli pela sua própria arte

A imensa lona estendida para abrigar o show pode atrair menos interesse do público em tempos de infância hiperconectada, mas o modo de vida circense nunca vai deixar de despertar a curiosidade alheia. Embora uma aura mambembe e pesada costume acompanhar o imaginário coletivo a respeito desses artistas nômades, a fotojornalista Camila Pastorelli encontrou uma realidade bastante diferente ao conhecer os bastidores do Circo Bremer.

Ela admite que também tinha um “pré-conceito” um tanto negativo, mas, conversando com os membros da trupe, sentiu a grande e genuína paixão deles pelo que fazem. “É fora da nossa realidade, mas para eles aquilo faz muito sentido. Eles gostam de não ter rotina, de estar sempre com a família, de viajar por diferentes cidades o tempo todo”, comenta.

Fundado no Rio Grande do Sul por uma família envolvida há várias gerações com o meio circense, o Bremer percorre Brasil, Argentina e Uruguai há quase 30 anos. Precisou se reinventar após a proibição do uso de animais nos espetáculos, pois eles eram referência nesse tipo de atração. Hoje, para encher a plateia, depende da ajuda de personagens famosos entre a criançada, como Masha e o Urso, O Show da Luna!, Patrulha Canina, entre outros desenhos animados, inclusive da Disney. Assim como todos os outros circos que ainda sobrevivem no país, enfrentando a concorrência da internet e sem contar com apoio financeiro dos governos.

Hoje o Bremer tem uma equipe reduzida, de cerca de 30 pessoas pertencentes a cinco famílias, em que todos fazem de tudo. “O grande barato de ser fotógrafa e jornalista é ter um acesso que geralmente as pessoas não têm, é poder ficar fazendo perguntas e descobrir peculiaridades. Acho que fica mais interessante ter informações além das imagens”, afirma Camila.

Ela destaca que mesmo quem ainda se encanta com a milenar arte circense muitas vezes não tem a mínima ideia do esforço necessário para cada apresentação acontecer. Autorização da prefeitura para se instalar no terreno; toda a produção dos artistas e dos atos; ensaios intensos para não decepcionar o público; e as diferentes frentes que precisam ser atendidas para manter o sustento do negócio – montagem e desmontagem, venda de ingressos, limpeza, etc.

São muitas atividades envolvidas, e o público por si, atualmente, quase nunca é suficiente para sustentar grandes estruturas. A trapezista do Bremer, Helouise Portugal, também pilota uma das motos no globo da morte e escolhe as músicas do show, e a acrobata Melanie Bremer vende pipoca nos intervalos, por exemplo. Eles vivem dentro do trabalho, não estão envolvidos somente na hora do espetáculo, e precisam se organizar de forma a serem autossuficientes.

O palhaço Pepito, nascido de pais chilenos com o nome de Manuel Olivares, já fazia parte da trupe havia 15 anos quando Camila fez o ensaio fotográfico dos preparativos para o show, em 2014. Ela pôde ver como tratava com carinho a esposa e os filhos, e como valorizava o fato de não precisar se afastar deles para trabalhar. Pelo contrário, eles se apresentavam juntos no palco, tirando risos da plateia.

Até hoje Camila acompanha a trapezista no Instagram, onde Helouise sempre posta foto com uma maquiagem diferente. “Eles têm orgulho do seu trabalho, são artistas mesmo. Durante o show, dava para ver que eles gostavam realmente daquilo que estavam fazendo. E isso também saiu nas fotos”, afirma.

Caminho da roça

A passagem do circo Bremer por Pindamonhangaba, onde a trupe foi clicada por Camila, marcou uma fase de resgate do orgulho da fotógrafa por suas origens e pela sua atividade. Logo que mudou para São Paulo, em 2006, para cursar jornalismo na Faculdade Mackenzie, só tinha olhos para a megalópole, onde – supostamente – tudo acontece. “As fotos fora dali pareciam não ter tanta importância”, revela.

Com o tempo, o afeto pelo interior paulista, onde viveu sua infância – mais exatamente em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba – reconquistou suas lentes já profissionalizadas. “Passei a fotografar com seriedade as ocasiões que se apresentavam. E a fazer o meu melhor para divulgar esses projetos autorais”, diz Camila, que trabalha na ONG ImageMágica na produção de documentários fotográficos e iniciativas para promoção de saúde, cultura e educação.

É também de 2014 o ensaio feito por ela sobre o tradicional bondinho elétrico de madeira que realiza o trajeto diário entre o Centro e a zona rural de “Pinda”, e que naquele ano virou uma festa. Foi todo enfeitado e recebeu uma banda de forró durante os meses de junho e julho para levar os passageiros ao Festival Junino da região que percorre.

“Na época eu estava com uma série de questões sobre fotografar. Depois do trem, fiquei muito mais segura de continuar, porque vi que é o que me faz sentir bem: achar histórias e documentar pessoas.” Aquela foi a primeira vez que o Trem do Forró acontecia, e o sucesso de público garantiu que se repetisse desde então. O ensaio ganhou exposição no metrô de São Paulo no ano seguinte e em outros locais.

A satisfação de Camila com esse projeto é ainda maior porque as imagens falam também de um caminho viável para solucionar graves problemas nacionais:­ o uso do trem. “Isso ganhou mais apelo após a recente greve dos caminhoneiros. Ficou claro que no Brasil, hoje, dependemos totalmente do transporte rodoviário, e poderíamos ter outras opções muito eficazes.”

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