Revelados detalhes da exploração de esmeraldas por Roma no Egito

Indícios coletados pelos pesquisadores reforçam a relação entre minas como essas e crenças religiosas

O Grande Templo de Sikait: presença de artefatos religiosos. Crédito: os autores

Um artigo publicado na revista “Journal of Near Eastern Studies” apresenta os resultados e as imagens da retomada das temporadas arqueológicas na região de Mons Smaragdus, no Deserto Oriental do Egito. A região é conhecida pelas minas de esmeraldas da era romana, citadas por autores como Plínio, o Velho e Cláudio Ptolomeu. Elas foram redescobertas no século 19 pelo mineralogista francês Fréderic Cailliaud.

Durante a década de 1990, uma equipe do Berenike Project, que explorou arqueologicamente o Deserto Oriental, iniciou o levantamento da área e conduziu as primeiras escavações, com foco no principal sítio identificado, Sikait. Temporadas arqueológicas recomeçaram ali em janeiro de 2018 e janeiro de 2020.

Os autores do estudo – os espanhóis Joan Oller Guzmán (Universidade Autônoma de Barcelona), David Fernández Abella, Vanesa Trevín Pita (ambos da Universidade de Santiago de Compostela), Oriol Achon Casas (Universidade Autônoma de Barcelona) e Sergio García-Dils de la Veja (Uned – Centro Associado de Sevilha) – detalham no artigo o que foi encontrado em três edifícios. A primeira estrutura, conhecida como “Edifício Administrativo”, foi provavelmente um templo ocupado por muito tempo entre os séculos 1 e 4-5. Dezenove moedas foram recuperadas no local, juntamente com outros itens que indicam o uso ritual, como queimadores de incenso e estatuetas de bronze e esteatito (pedra-sabão).

Artefatos religiosos

O “Grande Templo”, uma das estruturas mais bem preservadas de Sikait, também continha artefatos religiosos como ossos, partes do corpo de terracota e amuletos. Ele provavelmente foi ocupado entre os séculos 4 e 5 d.C., embora os santuários internos fossem possivelmente usados anteriormente, com base em vestígios de hieróglifos egípcios e outros materiais.

Materiais recuperados do Grande Templo: a) cabeça “núbia” em pedra-sabão; b) deusa em pedra-sabão; c) estatueta de um deus montado em um animal; d) amuleto de faiança de Harpócrates; e) amuleto de bronze de Osíris; f) prato de pedra-sabão. Crédito: Delia Eguiluz Maestro e Adriana Molina Pérez

Por fim, o complexo “Prédio das Seis Janelas”, possivelmente um espaço residencial, incluía uma cavidade interna mais antiga, que pode estar relacionada à atividade de mineração. No entanto, a respeito desse tipo de estruturas, comum em Sikait, os autores escrevem: “Depois de analisarmos a maioria desses espaços, podemos concluir que quase nenhum deles pode ser identificado como minas de berilo, e estamos tratando principalmente de espaços de armazenamento ou habitação”. No entanto, o estudo das estruturas subterrâneas presentes em Sikait e arredores permitiu a documentação de vários espaços de mineração de berilo. A análise detalhada de algumas minas mostrou evidências relevantes sobre sua estrutura, tipologia e evolução, incluindo a descoberta da primeira inscrição de registro encontrada em uma mina de esmeraldas antiga.

Concentração de espaços de culto

Essas temporadas de escavação, escrevem os autores, aumentam o conhecimento sobre a produção de esmeraldas no Egito romano. “Primeiro, confirmou-se a importância do aspecto religioso em assentamentos de mineração como a antiga Senskis [Sikait].” Isso mostra a importância do assentamento dentro da rede de mineração de esmeraldas, pois não há outro local em que uma concentração semelhante de espaços de culto tenha sido registrada. “Isso liga Sikait a outras regiões produtivas no Deserto Oriental, que também oferecem evidências abundantes da importância do culto e da religião, como as pedreiras imperiais.”

Os autores propõem que esse trabalho fornecerá evidências-chave no futuro para determinar como exatamente as minas foram exploradas. As próximas temporadas se concentrarão na documentação dos complexos de mineração para obter uma visão geral completa do processo de extração e comercialização de esmeraldas, o que fornecerá um contexto histórico maior. “De acordo com fontes literárias como Olimpiodoro, no século 5 d.C., uma licença do rei dos blêmios [povo que habitava a Baixa Núbia] era necessária para entrar nas minas de esmeraldas.” Considerando que a maior parte das estruturas sobreviventes em Sikait data desse período, as informações arqueológicas desses sítios são fundamentais para entender o abandono progressivo do controle romano/bizantino nesta área e a substituição gradual pelo poder blêmio.

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