RICARDO CARNEIRO

Professor da Unicamp analisa o papel que o Brasil deve assumir depois das turbulências geradas pela crise mundial, com epicentro nos Estados Unidos

As mudanças em curso no cenário econômico internacional deverão culminar com a constituição de um mundo multipolar, que oferecerá oportunidades e riscos aos seus integrantes. No caso do Brasil, o aproveitamento das chances e a superação das adversidades dependerão da adoção de uma política econômica mais ousada, bem diferente da que vem sendo adotada nos últimos 25 anos.

“Temos de construir uma estratégia que nos permita usar parte dos recursos que podem advir da produção e exportação de alimentos, petróleo e biocombustíveis para financiar o nosso desenvolvimento. Não podemos cair na cilada de acreditar que é possível desenvolver nossa economia em cima da exploração dos recursos naturais”, alerta Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia (IE) da Universidade de Campinas (Unicamp).

Membro do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon) do IE, o docente tem feito, juntamente com seus pares, reflexões sobre a atual crise da globalização e suas eventuais conseqüências. Na entrevista que segue, Carneiro fala sobre o tema, elegendo o Brasil como objeto privilegiado de análise.

Que reflexões o senhor e o Cecon têm feito acerca da crise econômica internacional?

Nos últimos anos, fizemos várias pesquisas importantes sobre o tema. Atualmente, temos produzido relatórios de pesquisa, textos para discussão e artigos que são fruto de nossas investigações. Ultimamente, temos acompanhado com atenção as transformações que estão ocorrendo no mundo e os seus impactos no Brasil. Acompanhamos isso por meio de reuniões internas e redes internacionais. Uma delas, a rede de Think Tanks da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), tem particular importância. Ela reúne cerca de 60 instituições governamentais e não-governamentais. Uma das questões que nós temos discutido é exatamente o significado dessas mudanças. E para onde está indo a economia internacional e, nesse contexto, para onde está indo o Brasil.

O senhor poderia dizer em que ponto dessas mudanças estamos?

Nós estamos diante de mudanças muito profundas no cenário internacional, que aparecem na forma de turbulências nos mercados financeiros e de commodities. Um exemplo é a flutuação aguda dos preços de alimentos e energia. O que está por trás disso são mudanças mais profundas do ponto de vista da economia norteamericana e das relações dessa economia com o resto do mundo. De certa forma, nós estamos assistindo à crise da globalização. Trata-se da primeira grande crise da globalização, visto que ela tem caráter sistêmico. Uma crise de muita gravidade, cujos reflexos ainda não podem ser previstos com absoluta segurança.

Como o senhor define essa crise da globalização?

De um lado, ela significa a crise de um tipo de capitalismo, que é aquele comandado pelas finanças. As finanças tiveram um peso muito grande no que se convencionou chamar de ciclo de preços de ativos, que inclui bolsas de valores, mercado imobiliário, etc. Os Estados Unidos foram muito longe nisso. E é justamente lá que as coisas acontecem com maior gravidade. Trata-se de uma crise que levará tempo para ser digerida, dado que ela atingiu o coração do sistema financeiro e monetário, que é o sistema bancário. Hoje existe um problema grande de insolvência no mercado de hipotecas, um setor muito importante para os EUA. Essa crise começou num dos segmentos desse mercado, mas depois se espalhou. Os bancos apresentaram e ainda estão apresentando perdas muito pesadas. Isso significa que será preciso uma intervenção do governo para salvar essas instituições. Se forem salvas, elas provavelmente terão uma postura de maior aversão ao risco, ao contrário do que tiveram no passado. Como a economia norte-americana funciona muito na base do crédito e do consumo, possivelmente ela crescerá bem menos do que cresceu num passado recente. Como essa economia é central (o mundo todo depende do crescimento dela), isso certamente terá um impacto significativo no conjunto dos demais países.

Esta crise afetará todos os países?

Para entender o desdobramento da crise, é preciso compreender também como as regiões reagirão a ela. A Europa, por exemplo, é a segunda região mais importante do mundo, depois dos EUA. Ela já vinha crescendo pouco e possivelmente sofrerá um impacto significativo por conta da desaceleração da economia norteamericana. A principal economia européia é a da Alemanha, que depende dos EUA para as suas exportações. Assim, por meio da Alemanha, haverá um impacto no restante da Europa. Haverá impacto também no Japão, que depende igualmente dos EUA. Mas provavelmente o mesmo não acontecerá com a China e em sua área de influência. Nos últimos 20 anos, foi constituído um terceiro pólo da economia mundial, que está localizado na Ásia, aí incluído China e, quem sabe no futuro, o Japão. Essa região deverá ter mais capacidade de resistência, por várias razões. Entre elas, o nível de integração.

Em termos econômicos, deverá haver maior correlação de forças entre os países?

Sim, a crise pode produzir uma conformação diferente das relações internacionais. Dado o surgimento desse terceiro pólo e o enfraquecimento do dólar, o que deverá surgir a partir do aprofundamento dessa crise é uma economia internacional multipolar. Isso não significa que os EUA vão perder totalmente a sua importância, mas haverá uma divisão de forças. Tanto o PIB da Ásia em desenvolvimento mais Japão quanto o da Europa já estão praticamente iguais ao dos EUA. Assim, com a provável adoção de uma posição mais defensiva por parte da economia norte-americana, visto que o centro da crise está lá, ficará facilitada a conformação desse mundo multipolar do ponto de vista econômico. Essa questão é importante para entender o desdobramento da crise. O dólar vai deixar de ser importante? Não. Mas possivelmente dividirá importância com o euro e com alguma moeda da Ásia, já existente ou a ser criada.

E qual deve ser a principal característica desse mundo multipolar?

A experiência histórica mostra que o mundo multipolar é mais instável do que o unipolar. O mundo unipolar é muito organizado pela potência-chave e pela moeda-chave. No mundo multipolar há mais instabilidade. Isso é ruim ou é bom? Eu diria que há oportunidade e há riscos.

No caso do Brasil, haverá mais oportunidades ou riscos?

No caso do Brasil, nós teremos de definir como vamos nos inserir nesse processo. Nossa posição inicial não é estrategicamente boa, por vários motivos. Primeiro, porque o peso da economia da América do Sul é muito pequeno, pois responde por apenas 4% do PIB mundial – o Brasil, por 2%. A Ásia em desenvolvimento mais Japão, Europa e EUA respondem por 25% cada um. Além disso, nosso fluxo de comércio não tem uma importância significativa. Então, nossa importância estratégica é muito menor. Qual é o primeiro eixo de expansão dinâmico do mundo contemporâneo? É o eixo que ligou os EUA à China e à Ásia. Os EUA deslocaram parte da sua indústria para lá, e ocorreu uma ligação importante. Penso que a Ásia tem capacidade de reagir, ao contrário da Europa, que não desabará, mas crescerá bem menos. Assim, nós estamos dependendo do crescimento da Ásia e de sua demanda por commodities. Além de não sermos tão importantes assim, vamos enfrentar uma desaceleração significativa do comércio internacional. Dito de outro modo, vamos enfrentar daqui para a frente um cenário bem mais desfavorável do que aquele que prevaleceu nos últimos cinco ou seis anos.

Portanto, teremos mais riscos que oportunidades.

Teremos oportunidades também. No mundo multipolar, as hegemonias são quebradas e aí fica mais fácil negociar. Mas é preciso ter estratégias, pois o cenário econômico será desfavorável. De 2004 para cá, boa parte do nosso crescimento veio quase que por gravidade. Nós crescemos, apesar de termos feito políticas equivocadas, como adoção de taxas elevadas de juros e moeda valorizada. Agora isso não mais será possível. Precisaremos de estratégias de inserção mais ousadas.

“Estamos diante de mudanças profundas no cenário internacional, que aparecem na forma de turbulências nos mercados financeiros e de commodities”

Quais são as vantagens e desvantagens do Brasil? Em relação às vantagens, nós teremos, no período de aproximadamente dez anos, uma permanência em níveis altos, embora não nos patamares atuais, dos preços das commodities. O Brasil é um grande produtor de alimentos e pode ser um grande produtor de biocombustíveis. Também temos uma reserva estimada de 80 bilhões de barris de petróleo. Isso é, sem dúvida, uma oportunidade. Ao mesmo tempo, também é um grande desafio. Um país com 200 milhões de habitantes não pode fazer como os Emirados Árabes, que vivem da renda do petróleo. Nós teremos de usar os recursos vindos da produção de alimentos, biocombustíveis e petróleo para manter a economia crescendo e diversificando. Vamos ter de fazer uso racional e planejado desse dinheiro. Isso pode parecer algo trivial, mas é uma questão decisiva. Se não tivermos uma estratégia para usar os recursos, eles poderão se dissipar. Também poderemos ter a chamada doença holandesa, caracterizada pela valorização da moeda e uso das divisas para importar, o que leva ao enfraquecimento da indústria. Penso que o desafio central é a resolução dessas questões.

“No caso do Brasil, teremos de definir como vamos nos inserir nesse processo. A nossa posição inicial não é estrategicamente boa”

Nesse aspecto, quais seriam as medidas de curto, médio e longo prazos?

Para chegar ao médio e longo prazo, vamos ter de administrar uma situação desfavorável, em boa medida criada pela atuação do Banco Central nos últimos anos. Temos uma situação na qual a nossa moeda está muito valorizada e nossa taxa de juros, muito alta. Teremos de adequar isso ao novo cenário, que é de desaceleração e que vai criar oportunidades e riscos, além de escolher entre inflação maior ou crise externa. Temos feito uma política convencional, que se resume em subir a taxa de juros para deter a inflação. É possível, com essa estratégia, que consigamos ter uma taxa de inflação menor. Mas o custo disso é a desaceleração do nosso crescimento e algo pior ainda: tornar a moeda ainda mais apreciada num momento em que o mundo está desacelerando. Ou seja, vamos abrir nossas portas para uma avalanche de importações e a atração de capitais de curto prazo. Essa seria a pior solução. Ao mesmo tempo, se nada fizermos, correremos o risco de ter uma inflação muito elevada. Precisamos lidar com esse dilema tendo em vista o cenário conjuntural macroeconômico. Não vai dar para fazer política convencional.

O governo já está refletindo sobre essas questões?

Algumas áreas do governo, sim. Há debates sobre o que fazer com a questão do petróleo, por exemplo. De como serão utilizados os recursos gerados por ele. Quando os poços de petróleo estiverem produzindo, a estimativa é que representem um acréscimo anual de 10% do PIB, do qual 5% ficariam com o Estado, por meio de tributação. Esses recursos seriam extremamente importantes para constituir um fundo destinado a financiar o desenvolvimento brasileiro. Há discussões a respeito de como gerir os recursos do petróleo, para não deixar que isso vire aumento de importações. Há exemplos de como isso foi feito de maneira conseqüente no mundo.

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