Rússia lança “Chernobyl flutuante” em viagem pelo Oceano Ártico

Navio Akademik Lomonosov, primeiro reator nuclear flutuante do mundo, percorrerá 5 mil quilômetros até chegar ao seu destino, no nordeste da Sibéria

O Akademik Lomonosov: viagem iniciada. Foto: Divulgação

O navio russo Akademik Lomonosov, primeiro reator nuclear flutuante do mundo, começou hoje uma jornada épica pelo Ártico. Carregada com combustível nuclear, a embarcação deixou o porto de Murmansk e percorrerá 5 mil quilômetros até o nordeste da Sibéria. A iniciativa é condenada por vários ambientalistas, que apelidaram o navio de “Chernobyl flutuante”, “Chernobyl no Gelo” e “Titanic nuclear” e falam sobre sérios riscos para as regiões próximas à sua rota.

A agência nuclear russa, Rosatom, afirma que o reator é uma alternativa mais simples se comparada à construção de uma usina convencional em solos que ficam congelados o ano todo. A agência quer usar a viagem para vender esses reatores no exterior.

Na cerimônia de lançamento do navio, Alexei Likhachev, presidente executivo da Rosatom, declarou que o Akademik Lomonosov dará “uma significativa contribuição para criar um futuro no Ártico que será tanto próspero como sustentável”.

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Mais comparável a uma gigantesca barcaça, o Akademik Lomonosov tem 144 metros de comprimento, pesa 21 mil toneladas e possui dois reatores com capacidade de 35 megawatts cada, próximos aos utilizados pelos quebra-gelos nucleares. Ele tem uma tripulação de 69 pessoas e viaja a uma velocidade de 3,5 a 4,5 nós (6,5 km/h a 8,3 km/h). Começou a ser preparado para sua missão em 2006, em São Petersburgo.

A viagem do navio deverá durar entre quatro e seis semanas, dependendo das condições climáticas e da quantidade de gelo no caminho. Quando chegar a Pevek, cidade de 5 mil habitantes na região siberiana de Chukotka, o Akademik Lomonosov substituirá uma usina nuclear local e outra a carvão.

Exploração de petróleo

O reator flutuante deverá entrar em operação até o fim de 2019, atendendo principalmente as plataformas de petróleo da região. A Rússia está desenvolvendo a exploração de hidrocarbonetos no Ártico, ajudada pelo progressivo recuo do gelo marinho naquela região.

A ideia de um reator nuclear navegando pelo norte do planeta assusta muita gente. A explosão ocorrida este mês em um local de testes militares no extremo norte da Rússia, que causou um surto radiativo, ajudou a aumentar a preocupação.

Rashid Alimov, chefe do setor de energia do Greenpeace Rússia, afirmou à agência noticiosa AFP que grupos ambientalistas vêm criticando a proposta de um reator flutuante desde os anos 1990. “Qualquer usina nuclear produz resíduos radioativos e pode sofrer um acidente, mas a Akademik Lomonosov é adicionalmente vulnerável a tempestades”, disse ele.

Além do risco do reator nuclear em si, Alimov apontou mais fragilidades no projeto. Uma delas é o fato de o flutuador ser rebocado por outros navios, o que aumenta a probabilidade de colisão durante uma tempestade. Outra é o plano da Rosatom de armazenar combustível nuclear a bordo. “(…) qualquer acidente envolvendo esse combustível pode ter um impacto sério no frágil ambiente do Ártico”, disse ele, acrescentou que não há na região infraestrutura para se fazer uma limpeza nuclear.

“Uma usina nuclear flutuante é uma maneira muito arriscada e muito cara de produzir eletricidade”, frisou Alimov. De acordo com ele, Chukotka “tem um enorme potencial para o desenvolvimento da energia eólica”.