Sal salvador

Chega ao Brasil a haloterapia, o tratamento que recria o ambiente de uma mina de sal para ajudar no tratamento de doenças respiratórias crônicas.

Isabel Romanello nunca havia apresentado problemas respiratórios quando, subitamente, desenvolveu um caso agudo de bronquite alérgica. Sofreu durante três anos crises violentas que não se resolviam com os tratamentos convencionais, por meio de broncodilatadores (as bombinhas usadas por pacientes de asma) e cortisona.

Em 2012, por obra do acaso, seu marido, José Ervolino Neto, recebeu um email de um remetente desconhecido de Portugal (um spam!) propagandeando uma terapia desconhecida, a haloterapia, que prometia a solução para problemas como o de Isabel. O tratamento consistia em sessões de imersão em salas que reproduziam a atmosfera de minas de sal.

Embora soe estranha, a técnica, como descobriu o casal, já é utilizada há alguns anos na Europa, em países nórdicos e do Leste Europeu, onde chega a fazer parte dos tratamentos bancados pelo sistema nacional de saúde.

Já no século XIII, minas de sal como a de Wieliczka (a 15 quilômetros de Cracóvia, no sul da Polônia) eram exploradas comercialmente. Durante muito tempo, da Antiguidade à Idade Média, o sal foi um dos produtos de maior valor comercial no velho continente. Em virtude disso, muitos monastérios foram instalados próximos às fontes do mineral, para controlar a sua extração.

Ao longo dos séculos, os padres da região de Wieliczka começaram a perceber que os mineiros, em geral, gozavam de mais saúde respiratória do que os demais habitantes da cidade. Foram os sacerdotes os responsáveis pelo primeiro spa salino de que se tem notícia. Alguns pacientes chegavam a passar um fim de semana inteiro nas minas para tratar de moléstias das vias aéreas.

Mas toda a terapia ainda era muito empírica, desprovida de conhecimento científico sobre o funcionamento daquele ar com supostas qualidades medicinais. Em 1843, Felix Bochkowsky, chefe do departamento nacional de saúde da Polônia deu um passo à frente e lançou um livro relatando experiências bem sucedidas com a terapia. O negócio se expandiu no país e seu sucessor, Mstislav Poljakowski, abriu a primeira clínica oficial na Polônia, pioneira no mundo.

A partir da década de 1930, as imersões em minas de sal desativadas para fins terapêuticos tornaram-se prática comum. O interesse médico aumentou e pesquisadores passaram a investigar com maior profundidade o microclima salino.

Minas artificiais

Nos anos 1960, o tratamento emergiu das profundezas das minas e passou a ocupar as salas de clínicas e spas. Popularizou- se como haloterapia – halos, no grego, significa sal. Descobriu-se que o segredo das câmaras salinas é a profusão no ar de micropartículas de sal.

Descobriu-se que o segredo das câmaras salinas é a profusão no ar de micropartículas de sal seco. Essas partículas do composto são tão finas que o corpo não as percebe como agentes agressores e, sem obstáculos, elas penetram profundamente no organismo. Dessa forma, as propriedades benéficas do sal – já utilizado na composição de outros medicamentos para males respiratórios em larga escala – podem ser mais bem aproveitadas.

Isabel e Neto procuraram a clínica portuguesa e resolveram montar a própria sala de haloterapia no espaço de tratamento de saúde que eles possuem em Campinas (SP), a Clínica Sapazziom. A missão, no entanto, não foi simples. Como a tecnologia de montagem das câmaras haloterápicas ainda era desconhecida no Brasil, foi necessário importar todo o equipamento da Estônia. “Acontece que o clima da Estônia é muito diferente do nosso. Começamos a ter problemas com o halogerador e com as paredes de sal”, explica Neto.

O halogerador é a máquina que tritura o sal farmacêutico sem iodo, importado da Holanda, que é disperso no ar para ser inalado na sala da clínica do casal. Por não estar adaptado ao clima tropical, o equipamento estoniano enferrujou rapidamente. As camadas de sal que revestiam o interior da câmara de Campinas também se desprendiam com facilidade.

Foi preciso desenvolver soluções caseiras para finalmente terminar o projeto e testar na primeira cobaia: Isabel. O casal aposentou a máquina estrangeira, desenvolveu seu próprio modelo, com painel digital (a versão estoniana era manual) e contornou o problema de fixação do sal com uma cola natural desenvolvida sob encomenda. “Montamos a ala e eu fiz três ciclos de tratamento, que são dez sessões de 45 minutos cada uma. Nunca mais tive nada”, vibra Isabel.

Controvérsia médica

Até hoje existe resistência médica em aceitar o tratamento. A verdade é que há pouca literatura científica disponível sobre a haloterapia, principalmente no Ocidente. A maioria dos estudos foi realizada por universidades russas – em especial a de São Petersburgo – ou do Leste Europeu, onde estão as origens da terapia.

No Brasil, o interesse ainda é tímido, o que pode ser reflexo do ineditismo e da falta de conhecimento sobre o assunto. A sala de Campinas é apenas uma das cinco existentes em todo o território nacional. Há outras em Porto Alegre (RS), Brasília (DF), São Luís (MA) e São Paulo (SP). Mas, se por um lado, faltam estudos mais aprofundados sobre o método, por outro, relatos de pacientes, como o caso da própria Isabel, ratificam sua utilidade.

Outra beneficiada foi a menina Maria Fernanda, filha da fisioterapeuta Fernanda Buso, de Araras (SP), que nasceu prematura, com apenas seis meses, e teve de passar quatro meses na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Saiu de lá com os pulmões fracos e desde então sofre de asma e sinusite. Por conta disso, apresenta saúde frágil, acumula muita secreção nas mucosas, está frequentemente resfriada e virou refém de medicamentos pesados, como antibióticos e cortisona. Depois de ter lido sobre a haloterapia em uma revista, Fernanda resolveu consultar uma amiga pediatra a respeito. A médica lhe disse que não havia muita comprovação científica sobre a eficácia do tratamento, mas que muita gente estava experimentando e não via problema algum em tentar.

Hoje, com 3 anos e depois de sete sessões, Maria Fernanda apresenta melhoras significativas. Uma semana sim, outra não, a menina tinha crises fortes de asma e sinusite. Pela primeira vez isso não aconteceu. “Ela nunca tinha conhecido sorvete, provou e não teve nenhum problema. Está sem secreção, não teve mais crise de asma  e não precisou mais de antibiótico. Só isso já é bom demais”, comemora
a mãe.

 

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Ouro branco

As minas de sal na Europa eram fontes bem guardadas de riqueza em países como Suíça, Áustria e Polônia. Se hoje o sal é considerado um item trivial, presente na mesa de todos, por séculos foi um dos bens de maior valor comercial. Pode-se dizer que desde a Antiguidade até o fim do século XIX o composto teve lugar de destaque entre as iguarias consumidas pelas pessoas. Mas durante o Império Romano e a Idade Média o sal tinha peso de moeda. Essencial à vida (sem sódio o organismo humano é incapaz de transportar oxigênio e nutrientes) e à conservação de alimentos, o recurso foi primordial na formação de grandes civilizações. Os legionários romanos, responsáveis pela defesa e expansão do Império, eram pagos em sal – daí o termo “salário”. Cidades como Salzburgo, na Áustria (“Cidade do Sal”, em alemão), prosperaram graças à exploração do recurso. Na Polônia, a mina de sal de Wieliczka, perto de Cracóvia, era guardada e administrada por monges desde o século XIII , período em que a Igreja Católica exercia grande domínio político. O jazigo, que atinge 327 metros de profundidade e se estende por 287 quilômetros, foi explorado até 2007 e tombado como patrimônio da humanidade pela Unesco. Atualmente, recebe cerca de um milhão de visitantes por ano.

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