Samurais – Os guerreiros da honra

Nos tempos do Japão feudal, os samurais defendiam seus territórios com a própria vida se preciso fosse.

Muito retratada em livros, pinturas e superproduções cinematográficas, a imagem do samurai chegou ao século 21 envolta em uma aura mítica e por vezes até romântica. Uma imagem, no entanto, bem distante da realidade vivida por esses guerreiros na época do Japão feudal. Filmes, como O Último Samurai (dirigido por Edward Zwick e estrelado por Tom Cruise e Ken Watanabe), e a dificuldade do mundo ocidental em compreender a complexa cultura e tradições japonesas contribuem para formar uma visão estereotipada desses bravos combatentes: enquanto uns acham que eles são personagens legendários, outros sustentam que são fanáticos sedentos de sangue. Heróis? Bandidos? Admirados? Temidos? Afinal, quem são e como viveram esses lendários combatentes do antigo Japão?

Ao contrário do que a ficção retrata, não havia nada de romântico na vida dos samurais. Eles surgiram como um produto das circunstâncias históricas do Japão, de uma longa evolução social e política que culminou nos séculos 17 e 18. Com extensão territorial limitada e dividido em feudos, o pequeno arquipélago era um campo de constantes batalhas pela posse de terras nos séculos 10 e 11. Essas disputas medievais e a necessidade de defender as propriedades do daymiô (senhor feudal) e, no século 13, as próprias fronteiras do país ameaçado pelos mongóis, favoreceram o aparecimento dos samurais. Essa classe social guerreira mudaria para sempre a trajetória do Japão, ajudando a unificar o país e a fazer dele uma nação.

A origem dos samurais, na realidade, remonta aos séculos 4 a.C. e 3 a.C., quando começaram a surgir elites armadas nos grupos tribais que formaram pequenas entidades sociais. Esses grupos foram se convertendo, um a um, em grandes clãs submetidos às autoridades provinciais do império. A relação conflituosa entre esses clãs abriu portas para a formação de milícias que deveriam proteger os interesses dos vários senhores feudais, e os do próprio império. Os membros dessas elites guerreiras eram conhecidos como bushi, termo que significa “aquele que serve” e que com o tempo acabou se tornando sinônimo de guerreiro.

 

A ascensão dos samurais como uma classe social começou no período Heian (nome da então capital do país, a atual Kyoto), com a derrota do governo aristocrático Taira, na Guerra Genpei, no fim do século 12, quando o clã de Minamoto no Yoritomo vence o conflito e recebe o título de xogum: um título de distinção militar concedido pelo imperador, equivalente a comandante do exército.

A partir daí, e ao longo de mais de 400 anos, o imperador era o legítimo governante, mas era o xogum quem governava de fato o Japão. Quem era agraciado pelo imperador com esse título tinha autoridade civil, militar, diplomática e judiciária. Vale lembrar que durante todo esse período o Japão teve três xogunatos. O primeiro foi o estabelecido em 1192 por Minamoto no Yoritomo, conhecido como xogunato Kamakura. Já o segundo é conhecido como Ashikaga e foi fundado em 1338 por Ashikaga Takauji, enquanto o terceiro foi o de Tokugawa Ieyasu.

Em 1600, Tokugawa venceu a batalha Sekigahara, na província de Mino, tida (não sem razão) como uma das maiores de todas: em apenas seis horas de confronto, morreram em torno de 35 mil homens só do lado derrotado. Mas o massacre durou três dias e foi uma verdadeira carnificina, especialmente se for considerado que naquela época as lutas aconteciam olho no olho, homem contra homem, espada contra espada. Pouco a pouco, Tokugawa ia vencendo os clãs rivais. Como recompensa, o imperador lhe concedeu o título de xogum.

As principais armas dos samurais eram a katana, uma espada curva, que somente era usada com outra espada: a wakizashi, uma arma mais curta com a lâmina mais larga. As duas espadas juntas são referidas como daí-shô, cujo uso era um privilégio exclusivo deles

Tokugawa, então, passou a ser o senhor absoluto do Japão, dando início ao período Edo (1603-1868), assim chamado numa referência ao nome da cidade de onde ele tomava as decisões políticas (a atual Tóquio). Ao assumir, tornou hereditário o xogunato, criando assim a dinastia dos Tokugawa. Por sua vez, o imperador viveu na antiga capital, Heian. Esse foi um longo período que contribuiu para configurar a imagem estereotipada do país: sedutoras gueixas, casas de chá, imponentes lutadores de sumô e arrogantes samurais.

Como consequência de o xogunato tornar-se hereditário, desde o berço a criança nascida em uma família de samurai era educada em um regime de autodisciplina e de exercícios contínuos. Em geral, o treinamento das artes marciais começava por volta dos 5 anos. Os filhos de famílias ricas (a riqueza era medida em unidades de arroz, o koku) frequentavam academias, onde aprendiam literatura, artes e habilidades militares. O tipo e a frequência dos treinamentos de um samurai dependiam da riqueza de sua família. Nas de menor poder aquisitivo, os filhos eram enviados às escolas dos vilarejos para receber instrução básica e o seu treinamento normalmente era feito pelos pais, tios ou irmãos mais velhos.

 

Cada prega do hakama (calça) simboliza uma das sete virtudes que um samurai deveria ter: a honestidade, a lealdade, a coragem, a perseverança, a benevolência, a compaixão e a sinceridade

A sociedade feudal japonesa

Na sociedade japonesa do século 16, os samurais formavam uma casta a serviço da alta nobreza, os daymiô, que exerciam o poder por meio de uma rede de ligações pessoais e familiares. Ao lado de sua família mais direta, os daymiô ocupavam o topo da hierarquia feudal. Abaixo deles, vinham os fudai (aquelas famílias que sempre estiveram a serviço daquela família principal) e, finalmente, os vassalos, que muitas vezes haviam sido antigos senhores que, derrotados, haviam jurado fidelidade, a fim de manter sua propriedade.

Por conta dessa estrutura, a rede de fidelidade dos “súditos” se ampliava e o poder do daymiô se fortalecia. Paralelamente a essa organização política, havia outra que inicialmente era estritamente militar e representava os samurais. Exímios praticantes de artes marciais e dotados de total controle sobre seu corpo e sua mente, os samurais, com o tempo, foram se tornando tão poderosos que ultrapassaram os limites dos feudos e acumularam influência política e militar.

Existiam muitas categorias de samurais. Abaixo deles, havia os sotsu (as tropas de infantaria), que, por sua vez, eram divididos em outras categorias. Exceto os de mais alto escalão, todos eles zelavam pelas propriedades do daymiô. Também de todos eles era esperado que respondessem de imediato ao chamado de guerra do seu senhor e que estivessem sempre prontos a combater, apresentando o seu equipamento em conformidade com a sua posição e a sua riqueza.

Na base da pirâmide estavam os ashigaru, que

eram a maioria dos combatentes. Eles eram os

arqueiros da infantaria, mosqueteiros e lanceiros e,

algumas vezes, mensageiros, porta-bandeiras, criados.

Por muito tempo, essa categoria representou a porta de

acesso à classe dos samurais.

Essa hierarquia social prevaleceu durante todo o

período Edo, no qual aparentemente nada mudou,

mas a prolongada paz desses anos acabou modificando

radicalmente a natureza dos samurais. Como não existiam

mais guerras, eles não tinham razão para lutar. Agora,

suas habilidades marciais só podiam ser testemunhadas

em duelos particulares.

Diante das novas condições, os samurais começaram a

ampliar sua formação intelectual e técnica e a integrar-se

na sociedade civil, na qual executavam tarefas educativas

ou administrativas. Administravam, especialmente, as

propriedades do daymiô a quem serviam, durante o longo

tempo em que ele era obrigado a permanecer na corte

do xogum, praticamente recluso.

Anos mais tarde, a burguesia em ascensão (chonin)

foi capturar o prestígio social que os samurais continuavam

a ter no país, num processo que poderia ser classificado

como uma fusão e que foi de fundamental importância para

a expansão e sobrevivência dos valores dos samurais na

sociedade japonesa até os dias atuais.

 

Independentemente de ser rica ou pobre, a criança ganhava uma katana (espada longa semelhante a um sabre) de madeira em uma cerimônia formal, rito que se repetiria na adolescência, desta vez com uma espada de verdade. A katana era uma das principais armas dos samurais – acreditavam que ela carregava a alma do guerreiro, devendo portanto ser muito bem cuidada e não ser exposta sem uma razão. Seu uso pelos civis havia sido proibido por um decreto de 1590. Portá-la era um privilégio dos guerreiros. Aprendizados à parte, o garoto, antes e acima de tudo, era educado para servir. Servir com lealdade ao seu senhor, a quem daria a vida se preciso fosse.

Desse modo, os samurais cresciam imbuídos do princípio da restituição do débito. A lealdade e a honra também eram levadas muito a sério por eles: lutavam até a morte para proteger a propriedade de seu senhor ou praticavam o harakiri (cortar o ventre com sua própria espada), caso o desonrassem. Da luta às relações sociais, todas as normas de vida e de conduta às quais o samurai tinha de se submeter estavam previstas no bushidô (o termo vem de bushi, guerreiro, e de do, caminho, e significa caminho do guerreiro), um inflexível código que colocava a honra acima de tudo.

Embora já estivesse definido no século 8, o bushidô somente foi instituído no século 17 e alcançou sua própria perfeição com a difusão dos princípios do confucionismo. O código tinha como meta aperfeiçoar o caráter por meio de rígidas regras de disciplina e comportamento e incluía a divulgação de vários princípios: gi (a atitude do justo), yu (habilidade), rei (o comportamento justo), makoto (sinceridade), meiyo (honra e glória) e chigi (lealdade).

Escrito por Taira Shigésuké, sábio confuciano e militar japonês da segunda metade do século 17, o texto de abertura do bushidô dá uma boa ideia do que era a vida de um samurai: “A primeira preocupação de quem pretende tornar-se guerreiro é ter a morte sempre presente no seu espírito, dia e noite, desde a manhã do primeiro dia do ano até à noite do Ano- Novo.” Traduzindo: viver é estar preparado para a morte, é saber morrer – um samurai não podia praticar o harakiri nem morrer de qualquer jeito.

Ao contrário, se tivesse de morrer, ele não deveria resistir. Logo cedo, o jovem aprendia a se desapegar dos bens materiais e a desprezar a dor e a morte. Por isso, tinha de morrer com honra, sem demonstrar qualquer sinal de sofrimento até cair inerte, suportando a dor sem fraquejar. Contam que a morte dele deveria ser igual a de uma da carpa que, no momento que está para ser trucidada sobre a mesa, simplesmente se rende à morte sem a menor resistência.

 

 

O harakiri, suicídio ritual

A honra era tão importante para os samurais que era bastante

comum eles se suicidarem em face de um fracasso, ou se

tivessem violado o bushidô. Esse ato vinculado à honra

acabou se tornando um ritual, tomando a forma do

seppuku (também conhecido por sua expressão

mais popular, harakiri), que nada mais era do

que o modo de o samurai restaurar a honra do

seu daymiô e de sua família e cumprir a sua

obrigação de lealdade, ainda que tivesse

falhado como guerreiro.

Antes de cometer o seppuku, o guerreiro se

vestia com roupa apropriada. Depois, se ajoelhava

enquanto lhe entregavam uma faca embrulhada em

papel (posteriormente, foi substituída por um leque).

Com ela, o samurai cortava seu ventre da esquerda

para a direita, finalizando com outro corte para cima. Este

ritual, porém, não era um ato solitário: poucos samurais

acabavam sentindo na pele a dolorosa e lenta morte por

desentranhamento, pois outro samurai ficava em pé

atrás do suicida e o decapitava logo após o harakiri,

evitando que qualquer dor fosse sentida.

 

 

 

 

 

Não era só. Havia ainda a vingança. Mais que uma obrigação, ela era um dever do guerreiro. Se a honra de seu senhor fosse manchada ou se ele fosse morto, o samurai era obrigado a encontrar e matar os responsáveis. Um dos mais famosos contos sobre a vingança dos samurais é “Os 47 Ronin” (samurais sem um senhor para servir). Sob o governo Tsunayoshi, o quinto xogum Tokugawa (1646-1709), o senhor de Asano, foi condenado a praticar o harakiri instigado por um alto funcionário do xogum, chamado Kira. O código ético dos samurais previa que ele teria de ser vingado pelos seus homens. Comandados pelo oficial Oishi, os 47 ronin juraram vingança.

Por algum tempo, parecia que nada ia acontecer. Oishi levava uma vida depravada e os ronin pareciam ter esquecido o juramento, o que lhes custou o desprezo do povo. Mas foi exatamente esse falso esquecimento que fez com que Kira baixasse a guarda. Dois anos depois, em uma noite de inverno, o grupo invadiu o seu castelo e o assassinou. Presos, os ronin foram condenados a praticar o harakiri. O motivo da pena não foi porque eles cumpriram o seu dever de vingança, pois isso era o esperado, mas porque atacaram o castelo secretamente, o que era tido como uma desonra.

A longa trajetória dos samurais se estendeu até 1876, quando o uso das espadas foi proibido e a classe samurai, extinta. Apesar disso, o espírito desses incansáveis guerreiros, cujo estilo de vida aliava conduta irrepreensível, árduo treinamento e aperfeiçoamento constante, sobreviveu. Até hoje, os valores e as virtudes dos samurais fazem parte da identidade nacional do Japão. Ou melhor, ultrapassaram as fronteiras do país e as barreiras do tempo, e ainda agora o carisma desses míticos heróis continua encantando o mundo.

 

 

informações

www.niten.org.br

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