Seres bizarros achados no Canadá podem ajudar a explicar início da vida

Microrganismos que respiram enxofre e se alimentam de pirita foram encontrados em mina canadense que atinge 2.400 metros de profundidade

Pesquisadores da Universidade de Toronto trabalham na Mina Kidd: ambiente preservado por bilhões de anos. Foto: Stable Isotope Laboratory/Universidade de Toronto

Microrganismos que respiram enxofre e se alimentam de pirita (chamada de “ouro de tolo”) em cavernas foram encontradas a milhares de metros abaixo da superfície da Terra. A descoberta, publicada recentemente na revista “Geomicrobiology Journal” e noticiada no site NBC News, tem, segundo cientistas, o potencial de desvendar os segredos de como a vida começou na Terra e como ela pode existir em outros planetas.

Preservada intacta por 2 bilhões de anos, a  Mina Kidd, de zinco e cobre, está a mais de 560 km a noroeste de Toronto (Canadá) e atinge cerca de 2.400 metros de profundidade. É a área mais funda já explorada em terra por seres humanos e lar do mais antigo reservatório conhecido de água do planeta.

Embora a mina tenha ficado isolada do mundo, em permanente escuridão, a vida continuou a prosperar ali. Pesquisadores da Universidade de Toronto, liderados pela geóloga Barbara Sherwood Lollar, descobriram recentemente que organismos unicelulares conseguiram sobreviver nas águas da mina. Sua alimentação provém das substâncias químicas produzidas pela interação entre o reservatório e as rochas circundantes.

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Uma das curiosidades da descoberta é que a pirita sustenta as formas de vida, as quais evoluíram sem necessidade de oxigênio ou luz solar.

“É um sistema fascinante, onde os organismos estão literalmente comendo ouro de tolo para sobreviver”, disse Sherwood Lollar à NBC News. “O que estamos descobrindo é tão emocionante – é como ‘ser criança de novo’.”

Biosfera das profundezas

A descoberta ajuda a desvendar o quebra-cabeça de como os organismos de águas profundas podem sobreviver enquanto os cientistas analisam cavernas escondidas e outras áreas para compreender a biosfera das profundezas da Terra – apelidada de “Galápagos subterrâneas”.

Por causa dos baixos níveis de energia disponíveis para os microrganismos, seu metabolismo diminuiu drasticamente, deixando-os sobreviver potencialmente por milhares de anos sem mudar. É uma janela para o mundo biológico antigo.

A equipe de Sherwood Lollar está agora procurando sequenciar os genes dos organismos, que serão comparados com outros no subsolo para ver se compartilham uma árvore genealógica e quão diferentes são uns dos outros. O estudo poderá ajudar a ciência a decifrar o segredo de onde e como a vida começou na Terra.

Charles Darwin imaginou que o início poderia ter ocorrido em um pequeno lago quente, mas “não há absolutamente nenhuma razão para que não possa ter sido uma fratura pequena e quente”, disse Sherwood Lollar. De várias maneiras, ela observou, micróbios que respiram enxofre, vivendo sob grossas camadas protetoras de rocha, seriam bem adequados às condições brutais do nosso planeta quando jovem.

Criaturas das profundezas também poderão ajudar os cientistas a entender como a vida alienígena poderia sobreviver em outros planetas onde o oxigênio não está facilmente acessível.