Sete pecados capitais: como surgiu a lista da essência dos vícios

A relação codificada pelo papa Gregório I tem um pecado a menos em relação às listas que lhe serviram de inspiração

Os sete pecados capitais, na visão de Hieronymus Bosch (tela do acervo do Museu do Prado)

Podemos sentir culpa pelas mais variadas razões, mas elas podem ser resumidas numa lista de fácil memorização? Ainda no primeiro milênio, a Igreja cristã decidiu encarar esse desafio, e o resultado – embora seus detalhes possam escapar à maioria – dificilmente não foi mencionado pelo menos uma vez aos ocidentais ligados ao cristianismo.

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Quem codificou a relação foi o papa Gregório I, o Grande, que comandou a Igreja cristã entre 590 e 604. Em sua obra “Moralia in Job”, ele listou na seguinte ordem os sete pecados principais (ou capitais, ou mortais): orgulho, inveja, raiva, avareza, tristeza, gula e luxúria. Mais tarde, a relação teve uma troca: saiu a tristeza e entrou a preguiça.

O número sete não está à toa nessa história, mesmo porque as listas de vícios de onde Gregório I parece ter extraído sua relação – entre as quais as de dois autores do século 4 d.C., Evaagrius e Cassiano – continham oito itens. De acordo com a doutrina tradicional simbolista, os sete pecados capitais estão relacionados diretamente à influência dos sete planetas dos antigos, divindades mitológicas que ao cristianismo interessava descartar.

Outro escritor do século 4, o poeta Prudêncio, inspirou boa parte das obras de arte produzidas a respeito dos sete pecados capitais com a sua descrição das batalhas entre os Vícios e as Virtudes no texto “Psychomachia”. No mesmo trabalho, ele indicou uma lista de virtudes opostas, cuja prática ofereceria alguma proteção contra os pecados. Segundo ele, o orgulho seria superado pela humildade; a avareza, pela generosidade; a inveja, pela bondade; a gula, pela temperança; a luxúria, pela castidade; a raiva, pela paciência; e a preguiça, pela diligência.

 

Fonte de outros pecados

A Igreja dividiu todos os pecados em duas categorias. Os mais simples, ou veniais, podem ser perdoados sem a necessidade de confissão. Já os mais graves merecem a danação. Os sete pecados capitais receberam essa denominação porque produzem outros pecados, outros vícios, tendo um efeito potencialmente letal no que se refere à saúde espiritual da pessoa.

Se essas transgressões representavam tamanho risco para o fiel, seria até desejável, segundo o ponto de vista de alguns religiosos, que o assunto fosse tratado como tabu. Mas ele ganhou certa publicidade dos próprios meios eclesiásticos, pois a opinião que prevaleceu defendia que nenhum indivíduo cometeria esses pecados sem perceber sua gravidade, e que, portanto, eles estariam capacitados a confessar tais atos e receber a absolvição.

Essa preocupação com a educação dos fiéis apareceu sobretudo no quarto Concílio de Latrão, em 1214. Ao estabelecer a prática da confissão anual para todos os cristãos, o texto definido pela assembleia declarava que “todos os fiéis de ambos os sexos, depois de ter chegado à idade da discrição, confessarão todos os seus pecados pelo menos uma vez por ano ao seu próprio padre e cumprirão com o melhor de sua capacidade a penitência imposta”, acrescentando que esse “saudável decreto” fosse divulgado frequentemente nas igrejas, de modo que “ninguém possa achar na alegação de ignorância uma sombra de desculpa”. Com isso, os sete pecados capitais tornaram-se tema rotineiro dos catecismos da época.

Mesmo com o avanço do laicismo registrado nos últimos séculos, os sete pecados capitais continuam sendo um tema constante nas igrejas, na literatura e nas artes. Um dos filmes mais bem-sucedidos (e assustadores) desse filão, por exemplo, foi “Se7en”, de David Fincher, no qual dois policiais (interpretados por Morgan Freeman e Brad Pitt) perseguem um assassino serial que pauta seus crimes segundo a lista dos principais pecados cristãos.

 

Estudos acadêmicos

Embora o assunto não atraia muita atenção no mundo acadêmico, alguns estudiosos têm buscado abordá-lo a partir da perspectiva de outros campos, como o clínico. O psiquiatra americano Karl Menninger propôs em 1973 que o conceito de pecado fosse incorporado ao trabalho de psicanalistas e de outros profissionais da saúde mental. Ele sugeriu inclusive que a lista de pecados fosse aumentada, com o acréscimo de itens como a crueldade.

Três anos depois, Hobart Mowrer lançou uma teoria dos efeitos psicológicos danosos dos pecados não confessados (especialmente entre os protestantes), contra os quais indicou “grupos de integridade” que lembram, de certo modo, os procedimentos adotados por agrupamentos do início da cristandade – identificação do pecado e correção de rumo com o apoio dos companheiros.

Em “From Sin to Wholeness” (1982), Brian Grant afirmava que os sete pecados capitais advêm da infância mal orientada (preguiça e gula), da adolescência prolongada (raiva e luxúria) e da maturidade excessiva (avareza, inveja e orgulho). No fim daquela década, o sociólogo Anthony Campolo definiu os pecados como “atitudes, emoções e estados da mente (que) condicionam nosso comportamento em formas que são destrutivas para nós mesmos e para aqueles à nossa volta”.

Em 1997, Solomon Schimmel afirmou em “The Seven Deadly Sins: Jewish, Christian, and Classical Reflections on Human Psychology” que muitos pecados tradicionais, e mais especificamente os sete pecados capitais, são psicológicos tanto quanto qualquer outra coisa, e “são primariamente relacionados com o que significa ser humano e as responsabilidades que temos de preencher se queremos ser considerados como tal”.

Os pecados capitais e seus antídotos

PECADO

VIRTUDE OPOSTA

Orgulho (Superbia)

Humildade

Inveja (Invidia)

Bondade

Raiva (Ira)

Paciência

Avareza (Avaritia)

Generosidade

Preguiça (Accidia)

Diligência

Gula (Gula)

Temperança

Luxúria (Luxuria)

Castidade