Seu cabelo revela o que você come (e seu nível socioeconômico)

A partir de amostras coletadas, estudo americano deduziu até o preço médio do corte de cabelo das pessoas; análise é uma ferramenta possível para avaliar riscos de saúde de comunidades

Amostras de cabelos contêm dados importantes sobre a alimentação, o nível socioeconômico e a saúde de seus donos. Crédito: Piqsels

Milímetro por milímetro, seu cabelo está construindo um registro de sua dieta. Como os fios de cabelo são construídos a partir de aminoácidos que vêm de sua comida, eles preservam os traços químicos da proteína presente naquele alimento. É um histórico forte o suficiente para mostrar se você prefere hambúrgueres vegetarianos ou cheeseburgers com bacon duplo.

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Utah (EUA) constatou que esse registro revela uma divergência na dieta de acordo com o status socioeconômico. No registro, áreas com menor nível socioeconômico exibem proporções mais altas de proteínas provenientes de animais alimentados com milho. Os autores escrevem que essa é uma maneira de avaliar a dieta de uma comunidade e seus riscos à saúde. O estudo foi publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)”.

“Essas informações podem ser usadas para quantificar as tendências alimentares de maneiras que as pesquisas não conseguem capturar”, diz o professor Jim Ehleringer, da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Utah. “Gostaríamos de ver a comunidade de saúde começar a avaliar padrões alimentares usando pesquisas de isótopos capilares, especialmente em diferentes grupos econômicos nos EUA.”

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Pistas nos isótopos

A partir dos anos 1990, Ehleringer, as professoras Denise Dearing e Thure Cerling e outros colegas da Universidade de Utah começaram a investigar as maneiras pelas quais os traços das dietas de mamíferos poderiam se refletir em seus pelos. Fontes alimentares diferentes têm proporções diferentes de isótopos estáveis ​​ou átomos do mesmo elemento com pesos ligeiramente diferentes. À medida que a comida se decompõe em aminoácidos, os isótopos presentes em nossa comida, incluindo os de carbono e nitrogênio, chegam a todas as partes do corpo – incluindo o cabelo.

A água, que varia nas proporções de oxigênio e isótopo de acordo com a geografia, funciona da mesma maneira. Assim, em 2008, Ehleringer, Cerling e colegas publicaram resultados mostrando que a composição isotópica do cabelo poderia rastrear as viagens de uma pessoa, em virtude dos isótopos na água que bebem.

“Começamos a considerar o que podíamos aprender com os isótopos de carbono e nitrogênio no cabelo”, diz Ehleringer.

Assinatura isotópica

No caso de animais criados em operações de alimentação animal concentrada, o milho que comem é incorporado em seus tecidos. O milho integra um grupo de plantas chamadas C4, que incluem a cana-de-açúcar. Esse grupo faz fotossíntese de forma diferente do que as plantas C3, um grupo que inclui legumes e verduras.

Portanto, se você ingerir proteínas que ingeriram milho, os aminoácidos que compõem seu cabelo terão proporções isotópicas mais semelhantes às do milho. Se sua proteína vem mais a partir de fontes vegetais ou de animais que ingeriram plantas C3, seu cabelo vai ter uma assinatura isotópica mais ligada a plantas C3.

Esses são os princípios da análise de isótopos capilares. Mas o estudo em questão trata das aplicações – e, para isso, os cientistas precisavam de algumas amostras de cabelos.

O que o cabelo sabe

Para coletar amostras, os pesquisadores foram a barbearias e salões de cabeleireiro em 65 cidades dos EUA. Eles também coletaram amostras de 29 códigos de endereçamento postal (CEPs) no Vale de Salt Lake (região onde está Salt Lake City, capital de Utah) para estudar intensivamente uma única área urbana.

Barbeiros e donos de salões de beleza apoiaram a ideia, diz Ehleringer. “Eles então nos deixavam ir para a lixeira e arrancar um punhado ou dois de cabelos, que depois separamos em grupos identificáveis ​​representando indivíduos.” Essa técnica de amostragem era cega, acrescenta ele, em relação a idade, sexo, renda, estado de saúde ou qualquer outro fator, exceto pelo registro isotópico. Juntos, eles coletaram amostras representando cerca de 700 pessoas.

Os resultados mostraram variações nas relações isotópicas capilares, local e nacionalmente, mas dentro de uma faixa relativamente estreita. Dentro dessa variação, os pesquisadores descobriram que os valores dos isótopos de carbono se correlacionavam com o custo de vida nos CEPs onde as amostras foram coletadas. Estudos anteriores forneceram os valores esperados de isótopos desde o final do espectro da dieta, de veganos a onívoros, com destaque para a carne.

As amostras coletadas no Vale de Salt Lake ofereceram a oportunidade de examinar com mais detalhes os fatores por trás da variação isotópica. Surpreendentemente, isótopos de carbono no cabelo se correlacionaram com o preço do corte de cabelo no local de amostragem. “Não imaginávamos que fosse possível estimar o custo médio que um indivíduo pagou pelo corte de cabelo sabendo os valores [dos isótopos de carbono]”, escreveram os autores.

Relação com obesidade

De olho na dieta, os autores descobriram assinaturas de isótopos semelhantes ao milho mais predominantes nas áreas mais baixas do nível socioeconômico. Já os comedores de carne presentes nas amostras obtiveram sua proteína de animais alimentados com milho, provavelmente de operações de alimentação animal concentrada.

Os pesquisadores foram um passo adiante. Usando os dados da carteira de motorista para calcular tendências no índice de massa corporal (IMC) para determinados códigos postais, eles descobriram que as razões isotópicas também se correlacionavam com as taxas de obesidade. Eles escrevem que isso cria conexões potenciais entre dieta, nível socioeconômico e saúde.

A análise de isótopos capilares, diz Ehleringer, pode ser uma ferramenta para avaliar os riscos à saúde de uma comunidade.

“Essa medida não é influenciada por lembranças pessoais, ou lembranças erradas, que seriam refletidas em pesquisas alimentares”, diz ele. “Como uma medida integrada e de longo prazo da dieta de um indivíduo, ela pode ser usada para entender as escolhas alimentares entre diferentes faixas etárias e diferentes grupos socioeconômicos.”

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