Sistema de sinal de trânsito antecipa se novo terremoto vai ser mais forte

Método criado por pesquisadores suíços foi preciso em 95% dos casos examinados

Estrada fraturada vista do ar na área de Ridgecrest, em 2019: terremoto inicial forte foi seguido por outro mais intenso. Crédito: Ken Hudnut/Wikimedia

Até agora, não era possível prever se um terremoto forte será seguido por outro maior ou não. Um estudo de pesquisadores do Serviço Sismológico Suíço (SED), do Instituto de Tecnologia de Zurique (ETH-Zurich), abre a possibilidade de se fazer previsões desses terremotos fortes em tempo quase real. O trabalho foi publicado na revista “Nature”.

Essa descoberta poderá ter consequências de longo alcance para a proteção civil. Ela possibilitaria, por exemplo, decisões mais confiáveis sobre a evacuação de pessoas, permitindo que as equipes de resgate direcionem seus esforços de acordo com a previsão, e facilitaria a implementação de medidas para garantir a infraestrutura crítica, como usinas de energia.

A maioria dos grandes terremotos não é precedida por abalos, mas eles são sempre seguidos por milhares de tremores secundários, cuja frequência e magnitude diminuem com o tempo. No entanto, em alguns casos, um grande terremoto é seguido por um ainda mais poderoso. Foi o que aconteceu nas sequências de terremotos que atingiram a Itália central em 2016 ou Ridgecrest, na Califórnia (EUA), em julho de 2019.

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Valor b

Até agora, não havia como prever se um terremoto poderoso seria seguido por um de magnitude ainda maior. Mas os resultados do estudo de Laura Gulia e Stefan Wiemer, do SED, dão esperanças de que em breve será possível fazer isso, e muito rapidamente.

Com base em dados sísmicos recentes, os autores do estudo criaram um método para determinar se uma sequência de terremotos está terminando ou será seguida por um sismo ainda mais poderoso. O parâmetro relevante que eles examinaram foi o chamado valor b, que caracteriza a relação entre a magnitude e o número de terremotos.

As medições laboratoriais mostram que esse valor indica indiretamente o estado de estresse na crosta da Terra. Nas regiões sismicamente ativas, o valor b é geralmente próximo de 1, o que significa que há cerca de 10 vezes mais terremotos de magnitude 3 do que os terremotos de magnitude 4 ou superior.

Três cores

Os pesquisadores agora demonstraram que o valor b muda sistematicamente no decorrer de uma sequência de terremotos. Eles examinaram dados de 58 sequências e criaram um sistema de semáforo indicando o que aconteceria a seguir.

Quando o valor b cai 10% ou mais, o semáforo fica vermelho, sugerindo o perigo agudo de um terremoto ainda mais poderoso. Na maioria dos casos, porém, o valor b aumenta em 10% ou mais e o semáforo fica verde, deixando tudo claro ao prever uma sequência típica que desaparecerá gradualmente. Isso aconteceu em 80% das sequências capturadas em conjuntos de dados examinados pelos pesquisadores.

O semáforo mostra amarelo quando o valor b aumenta ou diminui em menos de 10%, o que significa que não está claro o que acontecerá a seguir.

O sistema de semáforo desenvolvido pelos pesquisadores mostrou-se preciso em 95% dos casos examinados. A mudança observada no valor b mostrou como uma sequência se desenvolveria, indicando se um terremoto ainda mais poderoso ocorreria ou não.

As descobertas deverão ser verificadas examinando outros conjuntos de dados antes que um sistema possa realmente ser usado para proteção civil. A implantação bem-sucedida do sistema também exigiria uma rede sísmica densa e capacidade de processamento de dados correspondente. Não é isso que se observa hoje em todas as regiões que poderiam se beneficiar desse sistema.