Solidão multiplica o risco de morrer mais cedo

Pesquisa dinamarquesa constatou que o problema atinge tanto homens como mulheres que se sentem sós, e seu risco é similar ao da obesidade grave

Para os pesquisadores, é necessária a criação de iniciativas de saúde pública destinadas a reduzir a solidão das pessoas. Crédito: Max Pixel

Pacientes cardíacos que se sentem sozinhos correm maior risco de morrer dentro de um ano após receber alta do hospital, revela uma pesquisa dinamarquesa. Os resultados foram publicados na revista “Heart”.

Estudos anteriores já indicavam que a solidão e o baixo apoio social estão associados a um risco maior de desenvolver e morrer de doença arterial coronariana. Mas não estava claro se outros tipos de moléstias cardíacas também podem ser influenciados por sentimentos de solidão, e se viver sozinho pode ter um impacto semelhante a sentir-se sozinho.

Os pesquisadores, do Hospital da Universidade de Copenhague, decidiram investigar o tema analisando os resultados de saúde de um ano de pacientes internados em um centro cardíaco especializado com doença cardíaca isquêmica (coronária), ritmo cardíaco anormal, insuficiência cardíaca ou doença valvar, ao longo de um ano no período 2013-14. A maioria (70%) era do sexo masculino, com idade média de 66 anos.

LEIA TAMBÉM: Males da solidão

Após receberem alta, 13.443 (53% do total) participantes preencheram questionários validados sobre sua saúde física, bem-estar psicológico e qualidade de vida. Eles também responderam a perguntas sobre comportamentos de saúde, incluindo tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e com que frequência tomaram os medicamentos prescritos. Dados nacionais foram usados ​​para descobrir se moravam sozinhos ou com outras pessoas.

Ansiedade e depressão

Aqueles que disseram que se sentiam sozinhos eram quase três vezes mais propensos a ficar ansiosos e deprimidos e a reportar uma qualidade de vida significativamente menor do que aqueles que disseram que não se sentiam sozinhos.

Um ano depois, os pesquisadores verificaram os dados do registro nacional para ver o que havia acontecido com a saúde cardíaca dos pacientes, bem como quantos deles haviam morrido. Eles descobriram que, independentemente do diagnóstico, a solidão estava associada a uma saúde física significativamente pior após um ano.

Depois de levar em conta fatores potencialmente influentes, como comportamentos de saúde, os pesquisadores notaram que as mulheres solitárias tinham quase três vezes mais chances de morrer por qualquer causa após um ano do que as mulheres que não se sentiam sozinhas. Da mesma forma, homens solitários tinham duas vezes mais chances de morrer por qualquer causa.

As diferenças significativas de risco entre aqueles que se sentiam sozinhos e aqueles que não se sentiam sugerem que comportamentos relacionados à saúde e condições subjacentes não podem explicar completamente as associações encontradas, afirmam os pesquisadores.

Embora morar sozinho não estivesse associado a sentir-se sozinho, estava associado a um menor risco de ansiedade/depressão do que naqueles participantes que moravam com outras pessoas. Foi associado também a um risco maior (39%) de problemas de saúde cardíaca entre os homens.

Redes sociais

Estudos anteriores indicam que as mulheres têm redes sociais maiores que os homens. Portanto, a separação, o divórcio ou a morte de um parceiro podem prejudicar mais os homens, sugerem os pesquisadores, como uma explicação para essa descoberta em particular.

Como esse é um estudo observacional, não pode estabelecer uma causa, lembram os pesquisadores. A causalidade reversa também pode estar em jogo, pois não está claro quem veio primeiro, se a doença ou os sentimentos de solidão.

“No entanto, os resultados estão alinhados com pesquisas anteriores, sugerindo que a solidão está associada a alterações nas funções cardiovasculares, neuroendócrinas e imunológicas, bem como a escolhas de estilo de vida prejudiciais que afetam os resultados negativos à saúde”, escrevem os pesquisadores.

Segundo eles, a solidão deve ser priorizada em iniciativas de saúde pública e ser considerada um risco legítimo à saúde em pessoas que sofrem de uma doença grave. “Há indícios de que o ônus da solidão e do isolamento social está aumentando”, acrescentam. “Além disso, evidências crescentes apontam que a influência deles sobre os maus resultados de saúde é equivalente ao risco associado à obesidade grave. As iniciativas de saúde pública devem, portanto, ter como objetivo reduzir a solidão”, concluem.