Yoshua Bengio: “Somos todos prisioneiros da publicidade”

Para um dos maiores especialistas do mundo em inteligência artificial, o negócio de anúncios direcionados de megaempresas como Google e Facebook dá a elas muito poder, em prejuízo da sociedade

Yoshua Bengio é professor titular do Departamento de Ciência da Computação e Pesquisa Operacional na Universidade de Montreal. Até setembro de 2017, os resultados de sua pesquisa haviam sido citados mais de 80 mil vezes (Foto: Divulgação)

Inteligência Artificial (IA) ainda está em sua infância. “Seu nível de raciocínio é muito superficial, e ainda não é equivalente nem ao de um sapo”, afirma o canadense de origem marroquina Yoshua Bengio, pioneiro em IA e o maior especialista do mundo em “machine learning” (aprendizado de máquina). No entanto, ele alerta que já existem problemas sérios de monopolização e distribuição desigual, os quais só podem ser solucionados em escala mundial. A coordenação internacional é indispensável no desenvolvimento da IA, ele adverte. Confira a seguir sua entrevista.

Desde 2013, a pesquisa em IA tornou-se moda em alguns dos gigantes da tecnologia, que estão investindo somas consideráveis de dinheiro nessa área. O sr. poderia explicar esse fenômeno?
BENGIO – A resposta é muito simples. A ciência da IA alcançou um grau de maturidade que a torna muito útil para as empresas. A acumulação de big data e o poder crescente da computação disponível facilitam o desenvolvimento de novos produtos em IA, que serão ainda mais rentáveis no futuro do que são hoje em dia. Atualmente, quando navegamos na internet, somos constantemente aliciados por publicidade direcionada. Esses anúncios permitem que empresas como Facebook, Amazon, YouTube, etc. tenham sucesso. Atualmente, os produtos de IA possuem apenas uma pequena parcela do mercado, mas os economistas preveem que, em uma década, eles somarão até 15% da produção total de bens e produtos. Isso é uma enormidade. A Inteligência Artificial permitirá então que essas empresas vendam mais, enriqueçam e possam pagar aos pesquisadores contratados muito mais do que pagam hoje em dia. Ao ampliarem sua base de consumidores, as empresas aumentarão a quantidade de dados às quais têm acesso – e esses dados são uma mina de ouro que torna o sistema ainda mais poderoso. Tudo isso cria um círculo virtuoso, bom para essas empresas, mas que não é saudável para a sociedade. Tal concentração de poder pode ter um impacto negativo tanto na democracia quanto na economia, pois isso favorece grandes corporações e diminui a capacidade das novas pequenas empresas de entrarem no mercado, mesmo que tenham melhores produtos para oferecer. Devemos incentivar mais diversidade no mundo dos negócios associados à IA e evitar uma situação de monopólio.

A publicidade direcionada permite que empresas como Google e Facebook tenham sucesso (Foto: iStock)

Mas o monopólio já está estabelecido. Isso pode ser remediado?
BENGIO – Por meio de leis antimonopólio. A história ensina que tais leis podem ser efetivas contra o poder excessivo de algumas empresas. Lembre-se da Standard Oil, nos Estados Unidos, que comprou as empresas de seus competidores para monopolizar o mercado de petróleo; ou de Hollywood, que, até a metade do século 20, controlava 70% dos cinemas e impunha suas regras na distribuição de filmes. As decisões judiciais contra essas e outras empresas ajudaram a equilibrar os mercados novamente. Acredito que regulamentações criteriosas de publicidade podem contribuir muito para a prevenção do estabelecimento de monopólio em pesquisa de IA. De certa maneira, somos todos prisioneiros da publicidade e, muitas vezes, nos esquecemos de que temos a opção de tomar uma decisão coletiva de regulamentá-la de forma que não seja prejudicial à sociedade. Além disso, os serviços oferecidos por grandes empresas privadas, como Google ou Facebook, poderiam se tornar públicos, da mesma maneira que ocorre com a televisão, que oferece serviços semelhantes.

O sr. decidiu não trabalhar para o setor privado, certo?
BENGIO – Sim, quero permanecer neutro. Meu projeto é desenvolver uma ciência acessível a todos, e não apenas a alguns acionistas. Quero que a pesquisa se desenvolva de maneira que atinja os serviços mais úteis para a humanidade, e não necessariamente os mais rentáveis para a economia. Dito isso, tenho tentado criar um ambiente comum que seja mutuamente benéfico tanto para a pesquisa quanto para a indústria na Universidade de Montreal, onde trabalho. Diversos laboratórios privados foram montados na capital da província onde está Montreal, Quebec, e eles colaboram conosco. Pesquisadores da indústria estão contratados como professores associados na universidade e ajudam na formação dos estudantes. As empresas fazem doações para as universidades e dão a elas liberdade completa para decidir em quais áreas de pesquisa investirão.

Qual é a proporção de pesquisadores que trabalham no setor acadêmico atualmente?
BENGIO – Se eu basear minha resposta nas pessoas que conheço de grandes conferências internacionais, eu diria que metade. Há cinco anos, praticamente todos os pesquisadores de IA trabalhavam no setor acadêmico.

Empresas privadas contratam talentos de todo o mundo. Isso contribui para o êxodo de cérebros em países menos desenvolvidos?
BENGIO – Inevitavelmente. É por essa razão que devemos pensar coletivamente sobre como os países mais pobres podem se beneficiar dos resultados de pesquisa mais recentes, e também sobre como criar centros de pesquisa em suas universidades. Na África, por exemplo, mais e mais instituições acadêmicas estão oferecendo cursos em IA e cursos de verão, que têm se mostrado bastante úteis. Além disso, existe um grande número de cursos, tutoriais e códigos disponíveis online gratuitamente. Eu conheço muitos jovens que fizeram cursos pela internet. Também devemos procurar as melhores maneiras de ajudar esses estudantes a aprender por si mesmos.

Pesquisa de IA em universidade: perdendo espaço para o setor privado (Foto: iStock)

Alguns países, incluindo o Canadá, estão investindo pesadamente em pesquisa de IA.
BENGIO – Sim, o Canadá decidiu financiar não apenas a pesquisa básica e ajudar startups, mas também investir no pensamento coletivo e em pesquisa na área de ciências sociais e humanas, de modo a avaliar o impacto social da IA. Foi aberto um debate, em 3 de novembro de 2017, em uma iniciativa da Universidade de Montreal para ajudar a desenvolver a Montreal Declaration for a Responsible Development of Artificial Intelligence (Declaração de Montreal para o Desenvolvimento Responsável da Inteligência Artificial, em tradução livre). Essa aproximação busca essencialmente estabelecer diretrizes éticas para o desenvolvimento de IA no âmbito nacional. Na primeira fase do processo participativo de longo prazo, o público em geral é convidado a debater com especialistas e tomadores de decisões políticas. Sete valores foram identificados: bem-estar, autonomia, justiça, privacidade, conhecimento, democracia e responsabilidade.

Em que estágio essa reflexão se encontra no cenário internacional?
BENGIO – Que eu saiba, não há um tratado internacional governando a pesquisa em IA. No entanto, essas são questões internacionais e, sem uma coordenação internacional, não poderemos avançar na direção correta. Em primeiro lugar, o público em geral e os tomadores de decisões políticas devem estar cientes das preocupações com relação à IA. Em algumas partes do mundo, pesquisadores já publicaram alertas sobre os maiores problemas, e a mídia e o público em geral têm retornado com respostas. Esses são os primeiros passos que nos levarão rumo a um diálogo mais amplo e mundial sobre os problemas apresentados por essa disciplina, em particular nas áreas de ética, meio ambiente e segurança.