Sonhar faz muito bem

Um livro lançado recentemente nos EUA apresenta pesquisas que apontam para um importante papel dos sonhos na saúde e no bem-estar das pessoas

No sonho, as memórias podem ser combinadas em formas novas e criativas (Foto: iStockphotos)

Aos poucos, a ciência deixa de ver os sonhos como um simples subproduto do sono. No livro Why We Sleep: Unlocking the Power of Sleep and Dreams (“Por que sonhamos: liberando o poder do sono e dos sonhos”), lançado este ano nos EUA pela Scribner, o americano Matthew Walker, professor de neurociência e psicologia da Universidade da Califórnia em Berkeley, mostra pesquisas recentes que revelam como essa etapa do sono ajuda em nosso bem-estar.

Os estudos indicam, por exemplo, que o tempo despendido no sonho é curativo. Para Walker, os sonhos mais vívidos, que ocorrem na fase REM (de “rapid eye movement”, ou movimento rápido dos olhos) do sono, parecem dissolver o impacto doloroso de episódios emocionais difíceis experimentados no dia e oferecem uma resolução emocional quando a pessoa acorda na manhã seguinte.

“O sono REM é o único momento em que nosso cérebro está totalmente desprovido da molécula noradrenalina, que deflagra a ansiedade”, diz Walker. “Ao mesmo tempo, estruturas do cérebro essenciais ligadas às emoções e à memória são reativadas enquanto sonhamos. Isso significa que a reativação da memória emocional está ocorrendo em um cérebro livre de uma substância essencial para o estresse, o que nos permite reprocessar memórias perturbadoras em um ambiente mais seguro e tranquilo.”

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Walker chegou a essa conclusão após submeter dois grupos de jovens saudáveis a duas sessões de imagens indutoras de emoções (enquanto seus cérebros passavam por ressonância magnética), separadas por um intervalo de 12 horas. Um dos grupos teve as sessões no mesmo dia; o outro começou a expe­riência numa noite, dormiu e viu a nova sessão pela manhã. O último grupo relatou uma queda substancial em suas­ respostas emocionais às imagens vistas antes, e os exames revelaram uma redução significativa na reatividade­ da amígdala, o centro emocional do cérebro que cria sentimentos dolorosos. Já no outro grupo, a reatividade emocional foi semelhante nas duas sessões.

Caminhos originais

Segundo pesquisas recentes, o sono profundo não REM fortalece as memórias pessoais, diz Walker. Mas é no sono REM, ele frisa, que as memórias podem ser fundidas e combinadas de modos novos e originais. “Durante o estado onírico, seu cérebro estimulará vastas áreas do conhecimento adquirido e, a seguir, extrairá regras gerais e comuns, criando uma mentalidade que pode ajudá-lo a encontrar soluções divinas para problemas previamente impenetráveis”, afirma.

Experiências emocionais negativas podem ser dissolvidas com os sonhos (Foto: iStockphotos)

A equipe de Walker testou essa ideia acordando participantes de um estudo em diversos momentos da noite para resolver problemas simples, como formar palavras a partir de algumas letras dadas. Dependendo da hora escolhida, o sono dos voluntários era normal ou REM. No segundo caso, a resolução dos problemas foi de 15% a 35% maior que no primeiro. Além disso, os participantes despertados durante o sonho diziam que a solução como que “havia brotado” na cabeça, em um processo aparentemente sem esforço.

Em outro estudo, a equipe de Walker realizou um teste de correlação de fatos simples que os participantes faziam em duas situações: antes e depois de um sono de 60 a 90 minutos, que podia incluir momentos REM, e antes e depois de uma noite de sono. Quem teve uma boa noite de sono ou momentos REM durante o sono mais curto exibiu um desempenho bem melhor do que quando avaliado antes do descanso. Os resultados sugerem ainda que o sonho estimula mais a sabedoria (a compreensão do significado dos fatos sonhados quando são reunidos) do que o conhecimento (a retenção dos fatos individuais).

A ideia de que sonhar desenvolve a criatividade para resolver problemas foi reforçada por outra pesquisa. Os participantes recebiam dicas para percorrer um labirinto virtual e depois eram divididos em dois grupos: enquanto um dormia, o segundo assistia a um vídeo de 90 minutos. Os primeiros se saíram bem melhor do que os demais, e os que diziam ter sonhado com a conclusão do percurso obtiveram índices até 10 vezes superiores aos dos que não haviam dormido nem sonhado com o labirinto. É importante dormir bem para aproveitar os benefícios do sonho, ressalta Walker. “As pesquisas mostram claramente que as pessoas que superestimam sua capacidade de se acalmar com menos sono estão tristemente erradas”, afirma.



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