Sono REM regula comportamento alimentar das pessoas

Descoberta ressalta a importância da qualidade do sono na obtenção e manutenção de um comportamento alimentar adequado

Qualidade do sono também interfere na nossa alimentação. Crédito: rachel CALAMUSA/Wikimedia

Apesar de nossa ampla compreensão das diferentes regiões do cérebro ativadas durante o sono de movimento rápido dos olhos (REM), pouco se sabe sobre para que essa atividade serve. Pesquisadores da Universidade de Berna e do Inselspital, também da capital suíça, descobriram que a ativação de neurônios no hipotálamo durante o sono REM regula o comportamento alimentar. Ao suprimirem essa atividade em ratos, o apetite dos animais diminuiu. Os resultados de seu estudo foram publicados na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)”.

Enquanto dormimos, fazemos a transição entre diferentes fases do sono, cada uma das quais pode contribuir de maneira diferente para nos sentirmos descansados. O sono REM é um estágio peculiar do sono, também chamado sono paradoxal, no qual ocorre a maioria dos sonhos. Durante esse período, circuitos cerebrais específicos mostram atividade elétrica muito alta, mas a função dessa atividade específica do sono permanece incerta.

Entre as regiões cerebrais que mostram forte ativação durante o sono REM estão áreas que regulam funções de memória ou emoções, por exemplo. O hipotálamo lateral, uma pequena estrutura cerebral evolutivamente bem conservada em todos os mamíferos, também mostra alta atividade durante o sono REM. Nos animais despertos, os neurônios dessa região do cérebro orquestram o apetite e o consumo de alimentos. Estão envolvidos ainda na regulação de comportamentos motivados e dependência.

LEIA TAMBÉM: Sono ruim em meio ao isolamento social: confira dicas da Fiocruz

Efeito duradouro

No novo estudo, pesquisadores liderados pelo professor doutor Antoine Adamantidis, da Universidade de Berna, começaram a investigar a função da atividade dos neurônios hipotalâmicos em camundongos durante o sono REM. Eles queriam entender melhor como a ativação neural durante o sono REM influencia nosso comportamento diário. Descobriram que suprimir a atividade desses neurônios diminui a quantidade de comida que os ratos consomem. “Isso sugere que o sono REM é necessário para estabilizar a ingestão de alimentos”, disse Adamantidis.

Os pesquisadores descobriram que padrões de atividade específicos de neurônios no hipotálamo lateral, que geralmente sinalizam para o rato acordado comer, também estão presentes quando os animais se encontram no estágio do sono REM. Para avaliar a importância de tais padrões de atividade durante essa fase do sono, o grupo usou uma técnica chamada optogenética. Ela envolve o emprego de pulsos de luz para desligar com precisão a atividade dos neurônios hipotalâmicos durante o sono REM. Como resultado, os pesquisadores descobriram que os padrões de atividade para comer foram modificados e que os animais consumiram menos comida.

“Ficamos surpresos com a força e a persistência com que nossa intervenção afetou a atividade neural no hipotálamo lateral e o comportamento dos ratos”, disse Lukas Oesch, primeiro autor do estudo. Ele acrescentou: “A modificação nos padrões de atividade ainda era mensurável após quatro dias de sono regular”.

Questão de qualidade

Esses achados sugerem que a atividade elétrica em circuitos hipotalâmicos durante o sono REM é altamente plástica e essencial para manter um comportamento alimentar estável em mamíferos.

Essas descobertas apontam que apenas a quantidade de sono não basta para o nosso bem-estar. A qualidade do sono também desempenha um papel importante, em particular, para manter um comportamento alimentar adequado. “Isso é de particular relevância em nossa sociedade, onde não apenas a quantidade de sono diminui, mas também a qualidade do sono é afetada drasticamente pelo trabalho em turnos, exposição noturna a telas ou jet-lag social em adolescentes”, explicou Adamantidis.

O vínculo entre a atividade dos neurônios durante o sono REM e o comportamento alimentar pode ajudar a desenvolver novas abordagens terapêuticas para distúrbios alimentares. Também pode ser relevante para motivação e dependência. “No entanto, essa relação pode depender do circuito preciso, do estágio do sono e de outros fatores ainda a serem descobertos”, acrescentou Adamantidis.

Veja também

+ Invasão de vespas assassinas aumenta tensão com 2020 nos EUA
+ Anticoagulante reduz em 70% infecção de células pelo coronavírus
+ Assintomáticos: 5 dúvidas sobre quem pega o vírus e não tem sintomas
+ 12 dicas de como fazer jejum intermitente com segurança