Supericeberg está ficando 2,5 centímetros mais fino por dia

Iceberg A-68A, que está nas proximidades da Geórgia do Sul, diminuiu bastante de tamanho, mas ainda ameaça o ecossistema marinho da ilha

Posições do iceberg maior e de seu fragmento em 17 de dezembro: a cada dia, 2,5 centímetros mais fino. Crédito: ESA

Imagens mais recentes revelam que o iceberg A-68A se quebrou em vários pedaços, com dois grandes fragmentos de gelo se soltando da massa principal e flutuando no oceano aberto. Cientistas que usam dados de satélite não só monitoram a jornada do A-68A pelo Oceano Atlântico Sul, mas também estudam a forma em constante mudança do iceberg.

O colossal A-68A – um dos maiores icebergs de todos os tempos – deslizou lentamente para o norte desde que se libertou da plataforma de gelo Larsen C em julho de 2017. Ele esteve flutuando perigosamente perto da Geórgia do Sul no último mês.

Cientistas marinhos estão preocupados que sua presença prejudique o frágil ecossistema ao redor da ilha, seja pela quilha do iceberg raspar no fundo do mar ou pela liberação maciça de água doce fria no oceano circundante. A distância entre a ilha e o iceberg depende da profundidade da quilha deste último. Mas, apenas com medições da mudança de formato do iceberg, tem sido impossível determinar isso com segurança.

Profundidade da quilha do iceberg A-68A em relação à sua forma inicial. Crédito: Universidade de Leeds
Mais de 230 metros de espessura média

Usando dados de quatro satélites diferentes, cientistas do Centro de Observação e Modelagem Polar da Universidade de Leeds (Reino Unido) produziram a primeira avaliação da mudança de forma do iceberg.

A equipa construiu primeiramente um mapa da espessura inicial dos icebergs a partir de medições registradas pelo radioaltímetro do satélite CryoSat, da Agência Espacial Europeia (ESA) nos 12 meses anteriores à liberação do iceberg no mar. O mapa detalhado abaixo revela que o A-68 tinha originariamente, em média, 232 metros de espessura e 285 m em seu ponto mais espesso. O iceberg tem canais de 30 m de profundidade orientados paralelamente ao seu lado estreito. Eles seguem a direção em que a plataforma Larsen fluía para o mar antes da ruptura – uma característica comum relacionada ao derretimento do oceano.

Mapa que mostra as diferentes posições do iceberg ao longo de sua jornada de três anos. Ele também inclui trilhas históricas de icebergs, com base em dados de vários satélites, incluindo o ERS-1 e o ERS-2 da ESA, como parte do Antarctic Iceberg Tracking Database. Mostra ainda que o A-68A está seguindo esse caminho bem conhecido. Crédito: contém dados modificados do Copernicus Sentinel (2020), processados pela ESA; Antarctic Iceberg Tracking Database

Desde que o A-68A está à deriva no oceano, sua posição e forma foram capturadas em uma sequência de 11 imagens obtidas por dois satélites diferentes – a missão Copernicus Sentinel-1, que tem um radar de imagem para todos os climas e durante todo o ano, e o Modis da Nasa, que registra imagens visíveis a olho nu.

Metade do tamanho

As imagens mostram que o tamanho do iceberg diminuiu pela metade. Da área inicial de 5.664 km2, restam apenas 2.606 km2. Uma grande parte dessa perda está ligada à criação de icebergs menores, alguns dos quais ainda seguem à tona.

Perfis da altura do iceberg também foram registrados em oito ocasiões distintas, uma vez que ele derivou e girou no oceano, pelo CryoSat e pelo altímetro a laser ICESat-2 da Nasa, que está em órbita desde setembro de 2018. As imagens de satélite coincidentes possibilitaram orientar os perfis de altura do altímetro em relação à posição inicial do iceberg e calcular sua mudança na espessura ao longo do tempo.

Em média, o iceberg afinou 32 m (e mais de 50 m em alguns lugares) – cerca de um quarto de sua espessura inicial. Quando combinadas, a mudança na espessura e a na área equivalem a uma redução de 64% no volume do iceberg, de 1.467 para 526 quilômetros cúbicos.

A trajetória futura do iceberg depende da profundidade de sua quilha em relação ao oceano circundante. Embora esteja em um local remoto do Oceano Atlântico Sul, a Geórgia do Sul é cercada por plataformas de águas relativamente rasas. Elas se estendem por dezenas de quilômetros além de sua costa.

Gráfico mostra as mudanças em área, espessura e volume do iceberg A-68A. Crédito: Universidade de Leeds
Ameaça imediata

Em sua seção mais espessa, o A-68A tem atualmente uma quilha de 206 m de profundidade. Portanto, é improvável que a seção principal se aproxime muito mais da ilha até que se dilua ou se parta. No entanto, dois fragmentos relativamente grandes que se romperam em 21 de dezembro são consideravelmente mais finos, com quilhas que são até 50 m mais rasas. Eles, portanto, representam a maior ameaça imediata.

Desde que se libertou, a taxa média de derretimento do A-68 foi de 2,5 centímetros por dia. O iceberg agora está despejando 767 metros cúbicos de água doce por segundo no oceano circundante – ou seja, 12 vezes a vazão do rio Tâmisa.

A equipe continuará monitorando o A-68A e seus pedaços remanescentes como parte de sua avaliação contínua das regiões polares da Terra.

Incrível precisão

Anne Brackmann-Folgmann, doutoranda da Universidade de Leeds, disse: “Os icebergs podem ter grandes impactos ambientais, incluindo a perturbação da circulação oceânica e dos ecossistemas marinhos, e podem bloquear a rota entre as colônias de pinguins e seus locais de alimentação durante a temporada de reprodução. Graças ao CryoSat, podemos rastrear as mudanças em sua espessura, fornecendo um aviso prévio de quando e onde eles podem encalhar.”

Jamie Izzard, pesquisador de pós-graduação na Universidade de Leeds, afirmou: “Altímetros de satélite nos possibilitam medir o terreno do iceberg com incrível precisão. Isso nos permite detectar características sutis como a depressão superficial acima do canal basal, que era a linha vulnerável ao longo da qual os últimos icebergs foram liberados”.

O gerente da Missão CryoSat da ESA, Tommaso Parrinello, declarou: “É fantástico saber que mesmo nas partes mais remotas do nosso planeta, satélites como o CryoSat são capazes de lançar luz sobre eventos como este e ajudar-nos a monitorizar o nosso ambiente. Graças à recente mudança da órbita CryoSat para sincronizar com o ICESat-2, veremos mais resultados no futuro vindo da combinação das duas medições do satélite”.

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