Supertsunami atingiu noroeste de Israel há quase 10 mil anos

O tsunami na região de Tel Dor pode ser a razão pela qual pesquisas anteriores não acharam evidências de vilas costeiras na área durante um período de 4 mil anos

Sonda de perfuração extrai um núcleo de sedimento com evidência de um tsunami em Tel Dor, Israel. Crédito: T.E. Levy

Escavação subaquática, perfuração de poços e modelagem sugerem que um enorme paleotsunami atingiu uma área perto do antigo assentamento de Tel Dor (noroeste de Israel) entre 9.910 e 9.290 anos atrás, de acordo com um estudo recente. O trabalho foi conduzido por Gilad Shtienberg, Richard Norris e Thomas Levy, do Scripps Center for Marine Archaeology da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), e colegas da Universidade do Estado de Utah (EUA) e da Universidade de Haifa (Israel). Ele foi publicado na revista de acesso aberto “PLOS ONE”.

Tsunamis são eventos relativamente comuns ao longo da costa leste do Mediterrâneo. Registros históricos e dados geográficos mostram um tsunami ocorrendo por século nos últimos 6 mil anos. O registro de eventos anteriores de tsunami, no entanto, é menos definido. Nesse estudo, Shtienberg e colegas descrevem um grande depósito de tsunami do Holoceno inicial (entre 9.910 a 9.290 anos atrás) em sedimentos costeiros em Tel Dor. Essa cidade marítima povoada a partir da Idade do Bronze Média II (2000-1550 a.C.), passando pelo período das Cruzadas.

Para conduzirem sua análise, os autores usaram técnicas de sensoriamento remoto fotogramétrico a fim de criar um modelo digital do sítio de Tel Dor, combinado com escavação subaquática e perfuração terrestre de sondagem a uma profundidade de nove metros.

Onda de até 40 metros

Ao longo da costa da área de estudo, os autores encontraram uma camada abrupta de conchas marinhas e areia com idade situada entre 9.910 e 9.290 anos atrás, no meio de uma grande e antiga camada de pântano situada entre 15.000 e 7.800 anos atrás. Os autores estimam que a onda capaz de depositar conchas e areia no meio do que era na época um pântano com água doce a salobra deve ter percorrido 1,5 a 3,5 km. Sua altura na costa estaria entre 16 e 40 metros.

Para efeito de comparação, eventos de tsunami previamente documentados no Mediterrâneo oriental viajaram para o interior apenas cerca de 300 metros. Isso sugere que o tsunami em Dor foi gerado por um mecanismo muito mais forte.

Tsunamis locais tendem a surgir devido a terremotos no sistema de falha do Mar Morto e deslizamentos de terra submarinos. Os autores observam que um terremoto contemporâneo ao paleotsunami de Tel Dor (datado de cerca de 10 mil anos atrás) já havia sido identificado a partir de danos em cavernas nos Montes Carmel nas proximidades. Isso sugere que esse terremoto específico poderia ter desencadeado um deslizamento de terra subaquático que causou o enorme tsunami em Dor.

Evidências apagadas

Esse paleotsunami teria ocorrido durante o Neolítico Pré-Cerâmico B da região (10.700-9.250 anos atrás), e potencialmente apagou evidências de aldeias costeiras do período Natufiano (12.500-12.000 anos atrás) e do Neolítico Pré-Cerâmico (pesquisas e escavações anteriores mostram uma quase ausência de aldeias costeiras de baixa altitude nessa região). O reaparecimento de abundantes sítios arqueológicos do Neolítico Tardio (cerca de 6000 a.C.) ao longo da costa nos anos após o tsunami de Dor coincide com a retomada da deposição de zonas úmidas nas amostras do núcleo de Dor. Isso indica que o reassentamento seguiu seu curso, destacando a resiliência dos moradores em face de uma ruptura massiva.

De acordo com Gilad Shtienberg, pós-doutorando no Scripps Center for Marine Archaeology que está estudando os núcleos de sedimentos, “nosso projeto se concentra na reconstrução do clima antigo e nas mudanças ambientais nos últimos 12 mil anos ao longo da costa israelense. Nunca sonhamos de encontrar evidências de um tsunami pré-histórico em Israel. Os estudiosos sabem que no início do Neolítico, há cerca de 10 mil anos, a costa estava a 4 quilômetros de onde está hoje. Quando cortamos os núcleos em San Diego e começamos a ver uma camada de conchas marinhas incrustada na paisagem seca do Neolítico, sabíamos que havíamos tirado a sorte grande”.

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