Surpresa: gambá ‘abre caminho’ para polinização de planta parasita

Parasita de raiz de outras plantas, a Scybalium fungiforme muito dificilmente seria polinizada por insetos ou aves; pesquisadores da Unesp constataram que o trabalho é feito por gambás

Beija-flor alimenta-se da planta aberta por gambá: polinização inusitada. Crédito: F. Amorim/Unesp

Na ciência, é preciso “ver para crer”? Na segunda metade do século 19, o naturalista britânico Charles Darwin ainda não tinha visto, mas já deduzia que apenas um inseto como uma mariposa teria “língua” (probóscide) adequada para alcançar o néctar de uma espécie de orquídea endêmica na ilha de Madagascar, na África.

Essa previsão, comprovada apenas 41 anos depois, daria ainda mais suporte à teoria da evolução fundamentada no célebre livro A Origem das Espécies, de Darwin. Agora, uma predição similar acaba de ser confirmada. Desta vez envolvendo gambás e uma estranha planta parasita, e que mais se parece com um fungo: a Scybalium fungiforme, espécie pertencente à família Balanophoraceae.

Cercada por uma camada de brácteas avermelhadas (folhas modificadas que protegem a inflorescência da planta), a Scybalium fungiforme é uma espécie parasita de raiz de outras plantas, encontrada principalmente nas Florestas Estacionais do Estado de São Paulo. Devido à sua estrutura reforçada e localização rente ao solo, era difícil imaginar que uma planta como essa pudesse ser polinizada por insetos ou aves.

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Porém, no início da década de 1990, a professora Patrícia Morellato, da Unesp de Rio Claro, sugeria que o principal agente polinizador talvez não tivesse asas. Mas sim, excelentes garras. Na época, Patrícia capturou um gambá com resíduos de pólen de Scybalium fungiforme no nariz. Apesar dessa evidência indireta, ainda faltava uma prova definitiva e concreta para corroborar tal hipótese científica.

Comprovação após décadas

A predição de Morellato mostrou-se verdadeira por completo quase 30 anos depois. Durante seis dias, em maio de 2019, alunos da disciplina Projetos Integrados em Ecologia, do curso de Ciências Biológicas do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, estiveram na Serra do Japi, em Jundiaí (SP). Com a ajuda de câmeras com sensor de infravermelho que permite a visão noturna, os alunos da disciplina puderam monitorar de perto o comportamento dos visitantes florais dessa espécie durante a noite.

“Todas as manhãs assistíamos aos vídeos gravados na noite anterior. A grande surpresa veio quando o gambá apareceu. Nossa hipótese estava correta: a planta realmente era visitada por mamíferos. Também observamos a visitação de muitas vespas, abelhas e, para mais uma surpresa, beija-flores. Inesperada porque a inflorescência nasce no nível do solo, o que coloca em risco ‘desnecessário’ uma ave que a visite”, comenta Gabriel Mariano, um dos alunos participantes do projeto e hoje biólogo formado.

Jennyfer Costa, aluna do quinto ano de Ciências Biológicas, também participou da expedição na Serra do Japi. Gostou tanto da experiência que decidiu continuar as pesquisas sobre a polinização da Scybalium fungiforme para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

“Foi muito enriquecedora. Nunca tinha participado de todas as etapas da elaboração de um projeto. Aprendi muito. Agora queremos saber se existe diferença no papel do gambá, beija-flores e vespas como polinizadores, qual a importância da composição do néctar na preferência dos polinizadores, como são seus frutos e quais seriam seus dispersores”, comenta.

Ciência e equilíbrio ecossistêmico

O trabalho coordenado pelo professor Felipe Amorim, do IB da Unesp Botucatu, foi publicado em fevereiro deste ano pela revista “Ecology”, pertencente à Ecological Society of America (Sociedade Ecológica da América), e replicado como notícia em diversos canais de divulgação científica no mundo, tal como a “Science”.

“Isso mostra a importância do método científico, que foi aplicado pelos nossos estudantes de graduação, levando à confirmação de uma hipótese de quase 30 anos. Os estudantes envolvidos nesse estudo não haviam nem nascido quando a professora Patrícia previu que essa planta poderia ser polinizada por gambás na Mata Atlântica”, enfatiza Amorim, que contou ainda com a colaboração da própria Patrícia Morellato e da professora Ana Paula Moraes, da Universidade Federal do ABC (UFABC).

O docente explica que a Scybalium fungiforme utiliza como hospedeiras principalmente espécies de trepadeiras e, tratando-se de uma planta parasita das raízes de outras plantas, provoca um efeito negativo nas espécies hospedeiras. Por sua vez, as espécies de trepadeiras, quando em grande abundância em um determinado ambiente, poderiam atrapalhar o desenvolvimento das plantas às quais se apoiam.

“Ou seja, de forma indireta a Scybalium fungiforme é essencial para a manutenção da estrutura da floresta, pois pode regular as populações de trepadeiras. Mas isso é apenas mais uma hipótese e que pode ser rigorosamente testada no futuro”, argumenta.

Manutenção da estrutura florestal

Ainda segundo Amorim, os gambás encontram na “planta parasita” uma importante fonte de alimento. Por sua vez, esses mamíferos também ajudam na regulação de outras populações animais, como cobras peçonhentas e escorpiões, que têm importância médica.

Além disso, ao participar da reprodução de Scybalium fungiforme, os gambás também ajudam a manter a estrutura da floresta. Tais interações tróficas (relações alimentares) são essenciais para a manutenção do equilíbrio ecossistêmico. Dessa forma, são importantes não apenas para a floresta, mas para a população de modo geral.

“São nessas florestas que nascem muitos rios do estado de São Paulo, portanto é de lá que sai a água que nós consumimos no dia a dia. A Serra do Japi, por exemplo, em tupi-guarani significa ‘Nascente de Rios’. Ou seja, as interações ecológicas estabelecidas entre as plantas, animais e o meio no qual habitam precisam ser mantidas e conservadas, pois elas afetam de forma direta e indireta a vida e o bem-estar da população”, complementa Amorim.

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