Surtsey – o laboratório da vida

A preservação integral tornou a ilha Surtsey.

Quando Sveinn Jakobsson pôs os pés pela primeira vez na ilha Surtsey, a cratera de Surtungur, a oeste, cuspia lava dentro de um grande e brilhante lago vermelho fluindo para o mar. Era junho de 1964. A recém-nascida ilha havia expelido cinzas vulcânicas, fumaça e vapor no céu da região pelos sete meses anteriores. A cratera de Surtur, a leste, havia acabado de adormecer quando sua gêmea Surtungur começou a entrar em erupção. “Foi fantástico”, disse Jakobsson, um geólogo islandês que tem monitorado Surtsey por 40 anos. “Eu era apenas um estudante. Era minha primeira erupção. Era de tirar o fôlego.”

Surtsey emergiu do oceano em novembro de 1963. Em quatro anos, o pequeno pedaço de terra fumegante situado 32 quilômetros ao sul da Islândia alcançou uma área de 2,65 quilômetros quadrados. Seu ponto mais alto estava 175 metros acima do nível do mar.

Surtsey é uma das 18 ilhas e ilhotas rochosas do Arquipélago Westman, chamado pelos islandeses de Vestmannaeyjar (“As ilhas dos homens orientais”). Trata-se de um jovem sistema vulcânico que começou a ficar ativo há cerca de 100 mil anos. Surtsey é a ilha mais nova e a segunda em área, depois de Heimaey (13,6 km2), a única habitada no arquipélago.

A erosão marinha fez Surtsey perder a metade do seu tamanho original. Ao contrário de suas pequenas vizinhas Syrtlingur e Jolnir, que sobreviveram por apenas seis meses, a ilha, perto de seu 46º aniversário, terá uma vida muito mais longa. A chave para isso é sua anomalia hidrotérmica: quando o oceano, aquecido pelas extrusões de lava, penetra o poroso piroclasto, feito de cinzas vulcânicas e fragmentos de rochas, o vapor faz o piroclasto fluido se consolidar em rochas vulcânicas de palagonite, que consiste principalmente de vidro basáltico. Muito mais só lida do que o piroclasto, a palagonite não é facilmente erodida, diz Jakobsson. Eis por que o núcleo das rochas de palagonite de Surtsey, com cerca de 400 metros quadrados de área (quase o tamanho de uma quadra de basquete), provavelmente permanecerá intacto por alguns milhares de anos.

Reserva natural desde 1965, Surtsey é bem preservada porque a presença e as atividades humanas no local têm sido mínimas. Ninguém pode pisar em Surtsey, exceto um grupo de seis a dez cientistas que monitoram a ilha por uma ou duas semanas anualmente. As instalações humanas são limitadas a um abrigo de campanha, um heliponto e um farol. Os cientistas devem ter muito cuidado para não levar resíduos do solo, de organismos ou de poluentes para a ilha e não deixar nenhum lixo no local. Além disso, não há indústria pesada ou atividade nociva ao meio ambiente em um raio de 50 quilômetros da ilha.

Surtsey é a única ilha vulcânica do mundo a ser tão cuidadosamente estudada desde seu primeiro dia. “Ainda é a mais bem descrita erupção desse gênero”, afirma Jakobsson. A rápida colonização das espécies, minuciosamente monitorada, mostra que a ilha está ficando parecida com o resto do Arquipélago Westman. “Nos primeiros tempos havia algumas espécies, podíamos marcá-las e ver como as sementes se espalhariam”, lembra o ecologista vegetal islandês Borgthór Magnússon. Mas elas se disseminaram tão rapidamente que agora Magnússon as rastreia de perto, por meio de plantas de estudo permanente mantidas na ilha.

Surtsey deve sua origem a um sistema vulcânico que começou a ficar ativo há 100 mil anos. Amostras de vegetação rasteira (acima) surgiram ainda nos anos 1960. Acima, o papagaio-do-mar, que deve dominar a ilha daqui a 200 anos.

NINGUÉM PODE PÔR OS PÉS NA ILHA, COM EXCEÇÃO DE UM GRUPO DE CIENTISTAS QUE A MONITORA POR UMA OU DUAS SEMANAS A CADA ANO

Pouco depois de Surtsey emergir do mar, algas e materiais orgânicos se acumularam na costa, alimentando microrganismos como fungos e bactérias. Enquanto isso, o vento e o oceano transportaram as primeiras sementes para a costa. Vegetais tipicamente litorâneos, como arenárias marinhas, gramas de dunas e “barbas-de-cabra”, se espalharam progressivamente na areia e no substrato de piroclasto. Em 1970, os primeiros pássaros marinhos, o fulmar-glacial (Fulmarus glacialis) e o airo-de-asa-branca (Cepphus grylle), começaram a procriar nos penhascos de Surtsey.

Quatro anos mais tarde, as primeiras gaivotas marinhas fizeram ninhos na ilha. “As gaivotas tiveram um efeito muito forte no desenvolvimento da ilha”, diz Magnússon. Elas começaram a arrancar plantas nativas para construir seus ninhos nas dunas que estavam se formando, o que estimulou o desenvolvimento das plantas. As gaivotas foram, assim, os primeiros pássaros a reproduzir-se em meio às areias e cinzas de Surtsey. Elas também transportaram sementes de novas espécies de plantas para a ilha e fertilizaram o solo com seus excrementos. O primeiro pássaro da ilha, uma escrevedeira-das-neves (Plectrophenax nivalis) que se alimenta de insetos, foi visto em 1996. “Sempre nos empolgamos se temos uma nova espécie. É como se houvéssemos achado um tesouro”, afirma Magnússon.

Surtsey se tornou uma rota migratória entre a Europa, a Islândia e o Ártico canadense. Duas espécies de aves migratórias, a petinha-dos-prados (Anthus pratensis) e a alvéola-branca (Motacilla alba), frequentemente param ali, enquanto duas espécies raras, o papa-ratos (Ardeola ralloides) e o corrupião-laranja (Icterus galbula), já foram avistadas algumas vezes. Ao todo, 12 espécies e mais de 1.200 pássaros procriam em Surtsey.

Além de sua vibrante vida aviária, Surtsey já abrigou 355 invertebrados, incluindo moscas, borboletas, aranhas e moluscos. As focas vêm procriar e dar à luz seus filhotes na costa, enquanto baleias-minke, orcas, botos e golfinhos podem ser vistos ao longo do litoral. Por outro lado, das 69 espécies de plantas registradas na ilha, 4 não sobreviveram.

Um novo mineral, de cor branca, encontrado em 1991, pode ser chamado de surtseíta, afirma Jakobsson. Nas crateras decoradas com algumas incrustações coloridas e cavernas de lava que mostram impressionantes estalactites, 18 espécies de minerais foram identificadas.

Apesar da proliferação de espécies em pouco mais de meio século, Magnússon prevê que Surtsey será uma ilha de papagaios-do-mar (Fratercula arctica) daqui a 200 anos. O solo está ficando parecido com o de outras ilhas do arquipélago onde o papagaio-do-mar, com sua cabeça branca e preta, bico brilhante laranja e pele protetora preta, gosta de procriar e fazer seu ninho. “Ele deve se tornar a maior população de pássaros de Surtsey, reproduzindo-se ali em números cada vez maiores”, afirma Magnússon.

A ilha se tornou sítio do Patrimônio Mundial da Unesco em 2008, e com isso a Sociedade de Estudos Surtsey espera “criar interesse em proteger Surtsey e fazer mais pesquisas”, disse seu presidente, Steingrímur Hermannsson. Ele também espera trazer de volta os cientistas e os recursos internacionais postos à disposição nos primeiros dias de Surtsey. A ilha, cujo nome vem de Surtur, o deus do fogo na mitologia islandesa, recomeça a acender o interesse geral.

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