Sustentabilidade: ser ou fazer?

Em 2010 Marina Silva surpreendeu o Brasil conquistando 20 milhões de votos para a Presidência da República.

Marina Silva: em busca de uma nova maneira de fazer política.

Marina Silva defende a ideia de sustentabilidade há 30 anos, mas acha que o conceito deve ser visto como “um processo em construção”, uma vez que foi apenas sugerido por princípios genéricos das Nações Unidas e carece de referências históricas concretas. Do seu ponto de vista, sustentabilidade não é só questionar uma maneira inadequada de fazer as coisas, mas questionar uma “forma inadequada de ser”. Nesse sentido, a apropriação do conceito pelas estratégias de marketing não a surpreende. Em vez de se aborrecer com os que deturpam a proposta transformando-a em propaganda, diz que prefere “se alegrar com os que a transformam em narrativa”. A diferença é que a narrativa, por mais que não seja perfeita, vem da experiência real.

Como se sente depois de ter se desligado do Partido Verde?

Coerente. Eu propus que o PV metabolizasse aquilo que levamos para a sociedade nas eleições: a ideia de um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil e de uma nova forma de fazer política. Recebemos quase 20 milhões de votos. Na campanha eu já dizia que os ganhos da política econômica e da política social poderiam ser perdidos pelo atraso da política.

A sra. vai se dedicar a dois institutos, o Instituto Democracia e Sustentabilidade e o Instituto Marina Silva? O Instituto Democracia e Sustentabilidade foi criado em 2009, fruto do movimento que iniciamos com um grupo de pessoas, chamado Brasil Sustentável, quando saí do Ministério do Meio Ambiente. A ideia quando pensamos em criar o instituto era, enfim, democracia e sustentabilidade. O instituto tem uma agenda, que neste momento prioriza a questão do Código Florestal e o adensamento das diretrizes do nosso plano de governo. O Instituto Marina Silva é uma instituição que está nascendo. Como saí do Senado, tenho um acervo grande que gostaria de organizar, com o objetivo de trabalhar a questão da educação e da mobilização para a sustentabilidade, principalmente com jovens e adolescentes. A sede é em Brasília (DF) e o primeiro núcleo, quando tivermos condição de criar será no Acre. É uma coisa muito modesta. Metaforicamente, digo que é uma tenda porque, quando você tem patrimônio, cria um instituto e põe seu patrimônio; quando não tem, faz o que pode.

A sra. é uma defensora dos ativos ambientais da Amazônia. Em dezembro haverá um plebiscito no Pará para dividir o Estado em três: Pará, Carajás e Tapajós. Essa é uma decisão regional. O que lhe parece?

Eu compreendia a ideia da criação do Estado do Tapajós talvez pelo tamanho e pela dimensão do Estado do Pará, mas essa fragmentação maior, como está sendo proposta, confesso que ainda não tive como me debruçar. Existe o desejo da população de ter uma administração mais próxima das suas necessidades. A presença do Estado na Amazônia é uma ausência. Tem-se a ideia de que se um Estado for criado os recursos virão para os problemas. O problema é que isso em parte é verdade, mas também é mais uma assembleia legislativa, mais câmaras de vereadores, mais burocracia, mais um grupo que se apropriará das instituições e das possibilidades de desenvolvimento socioeconômico. Então, não basta essa divisão para que o Estado se faça presente nas reais necessidades da região.

Os interesses econômicos amadurecidos por 30 anos do Projeto Carajás parecem ser a força propulsora da proposta. O sudeste do Pará está entrando em um novo patamar de desenvolvimento?

Um novo patamar de desenvolvimento para mim seria pensar o desenvolvimento em bases sustentáveis dos pontos de vista econômico, social, cultural e ambiental. Qualquer coisa que seja mais do mesmo, em termos da economia, não é um novo patamar, é mais do mesmo. Vai continuar a extrair as riquezas que existem na região. Um novo patamar seria partir daquilo que está delineado no plano Amazônia Sustentável, que envolveu 18 ministérios, governos locais e sociedade. Lamentavelmente não foi implementado. Roberto Mangabeira Unger ficou com o plano na Secretaria de Assuntos Estratégicos e nada saiu do papel. A gente está vivendo um momento paradoxal: o Brasil assumiu metas de redução de 36,1% de carbono equivalente até 2020 e tudo o que se movimenta no tabuleiro é contrário ao cumprimento das metas porque a maior parte delas, 70%, depende da redução do desmatamento. Parece que não serão cumpridas.

“Para viabilizar pequenas ou grandes hidrelétricas não precisamos da velha visão de que os impactos socioambientais são externalidades”

Por que os ambientalistas se opõem mais às hidrelétricas do que às usinas térmicas a gás, emissoras de carbono?

Os ambientalistas criticam, sim, as térmicas a gás. As pessoas que pensam em meio ambiente e desenvolvimento sempre dizem que a matriz energética deve ser limpa e segura e que as termoelétricas são uma realidade da qual o país não precisa. A energia eólica já é mais barata do que as termoelétricas. Talvez as pessoas sérias não ganhem a mesma visibilidade que ganham quando fazem críticas a grandes empreendimentos, mas que a crítica é feita, é feita. O ex-ministro Roberto Rodrigues dizia que o potencial de uso da palha de cana-de-açúcar e do bagaço queimados equivale a três Belos Montes. Por que não há investimentos? O Brasil não precisa ampliar o uso de combustíveis. Precisa manter a matriz energética limpa, segura e diversificada, o que passa pelo uso do sol, do vento, da biomassa e do potencial hídrico. Mas para viabilizar pequenas ou grandes hidrelétricas não precisamos da velha visão de que os impactos socioambientais são externalidades. Enquanto isso perdurar, teremos a repetição do que está acontecendo de errado agora em Belo Monte.

O presidente da Empresa de Planejamento Energético, Maurício Tomalsquim, já disse que “as usinas térmicas são resultado da própria ação dos ambientalistas de impedir o licenciamento das hidrelétricas”.

Quantas hidrelétricas os ambientalistas já inviabilizaram na história do Brasil?

O projeto das usinas de Kararaô e Babaquara foi descartado.

Mas as usinas do Rio Madeira estão sendo feitas. A verdade é que não conseguimos planejar adequadamente. A infraestrutura é precária e o pouco de planejamento que temos no setor energético é insuficiente. Por que o Brasil parece sempre à mercê de cada empreendimento? Quem acompanhou a saga do licenciamento do Rio Madeira – e eu estava no governo quando isso aconteceu, a licença ambiental foi aprovada por nós –, o que se ouvia? “Sem as usinas do Madeira, o Brasil vai à bancarrota.” O que é dito agora? “Sem Belo Monte, o Brasil vai à bancarrota.” E vem mais pela frente: “Sem as usinas do Tapajós, o Brasil vai à bancarrota.” São os ambientalistas que estão planejando?

Não, com certeza. Mas os ambientalistas parecem se destacar por obstruir os projetos, não por mudá-los para melhor.

Discordo totalmente. Durante muito tempo os ambientalistas pediam para os desenvolvimentistas fazerem algo pelo meio ambiente. Há mais de 15 anos são os desenvolvimentistas que pedem aos ambientalistas para fazer algo pelo desenvolvimento. Você vê isso no mundo inteiro. Se for para fazer no velho modelo, considerando que o mundo está em crise e que não dá para persistir na trilha predatória, a palavra é de interdição. Quando é para fazer baseado em novos paradigmas, é de completa colaboração. Há uma competição pelo “caminho de baixo”, com mão de obra desqualificada, desrespeito à legislação trabalhista e ambiental e expansão indiscriminada da fronteira agrícola. Nessa, os ambientalistas não vão colaborar. Na competição pelo “caminho de cima”, com alta tecnologia, aumento da produtividade, respeito à lei ambiental e trabalhista e integração de comunidades, a colaboração dos ambientalistas já é total. Já fizemos muitas coisas com parcerias. Baixamos o desmatamento de 27 mil km2 para 6 mil km2em 2010. A produção agrícola cresceu 60% em toneladas e o desmatamento caiu 76%. Quem fez isso? Foram os ambientalistas.

A sustentabilidade é uma ideia poderosa, mas também é uma ferramenta de marketing. Todos a interpretam como querem. Antigamente todos se intitulavam “democratas”. Agora todos são sustentáveis. O que a sra. acha?

O desenvolvimento sustentável não pode ser visto nem como panaceia nem como algo genérico, mas como algo em processo. Não temos ainda uma referência material concreta. Há esforços na Alemanha, no Brasil, na Costa Rica ou na Noruega. As Nações Unidas estabeleceram alguns princípios. Como é algo em processo, não virá pela onipotência do pensamento. Historicamente terá de ser construído. Eu, modestamente, resolvi acrescentar mais três dimensões: precisamos de sustentabilidade estética, política e ética. Não dá para fazer as grandes transformações que o Brasil e o mundo precisam em curto prazo. Sustentabilidade, no meu entendimento, não é só um questionamento à nossa maneira inadequada de fazer as coisas, é um questionamento que precisa ser feito à nossa forma inadequada de ser. Não devemos abrir mão dos conceitos porque alguns resolvem deturpálos e se apropriam inadequadamente. Em vez de me aborrecer com os que usam a proposta como propaganda, prefiro me alegrar com os que a transformam em narrativa. A diferença entre a narrativa e a propaganda é que a narrativa vem da experiência real. Por mais que não seja perfeita.

“Em 2010, a produção agrícola cresceu 60% em toneladas e o desmatamento caiu 76%. Quem fez isso? Foram os ambientalistas”

A sra. recebeu 20 milhões de votos em outubro. Dez milhões se definiram depois do último debate na TV Globo. O que isso significa?

A cobertura que o Jornal Nacional fez de forma equitativa para todos os candidatos foi muito importante, principalmente para quem não tinha tempo de televisão, nem estrutura, nem máquina partidária. Mas o crescimento nas últimas semanas só registrou o que eu já vinha vendo na prática, de forma crescente. Posso dizer que ficar em primeiro lugar em Belo Horizonte (MG) e crescer 50% em uma semana parece impossível. Aí temos de valorizar esses 20 milhões. Essa votação sinaliza que o Brasil está integrado a esse grande questionamento político que acontece no mundo inteiro, no Egito, no Oriente Médio, na Espanha, em vários lugares. Aqui, se manifestou já nas eleições de 2010 porque havia um script feito para duas candidaturas, a do partido oficial de oposição e a do partido oficial de situação, um processo plebiscitário de intensa polarização. Ao eleitor foi colocada a ideia de espectador da política. Aí o Brasil velado se revelou. Mostrou que existe um grupo grande de pessoas que não quer ser espectador da política. Não quer ser coadjuvante, quer ser sujeito, quer protagonizar.

Mas isso não significa 20 milhões de votos ecologistas.

Será que as pessoas têm densidade sobre qual deve ser a política de segurança do país? Têm densidade quando pensam na questão da saúde e da educação? Ou na infraestrutura? As pessoas têm sensibilidade e bom senso. Sabem que precisamos de infraestrutura, de saúde, de educação e de instituições que funcionem. Mas não têm uma teoria sobre o sistema político. Elas têm a sensibilidade de que alguma coisa está errada com a política. Por que vamos exigir que tenham propensão à sustentabilidade? Foram feitas pesquisas e o Brasil é o país de maior consciência ambiental sobre as mudanças climáticas. O Datafolha fez pesquisas que mostram que 80% da população prefere pagar mais caro para proteger as florestas; 80% não quer mudanças no Código Florestal.

Os metalúrgicos de São Paulo e do ABC paulista recentemente fecharam a Via Anchieta em protesto contra as importações que ameaçam o emprego e a indústria. O que a sra. acha?

Os fundamentos da política macroeconômica vêm dando certo. O câmbio é flutuante e a gente tem autonomia do Banco Central. O que assusta na política econômica é que a nossa boca já ficou torta de fumar cachimbo só de um lado, tentando controlar a inflação apenas com a elevação dos juros. Sem um olhar qualificado para a redução do gasto público, aí sim vamos ter problema. O BNDES já fez duas capitalizações de recursos no Tesouro, sem debate no Congresso. Alguém ganha acesso a esses recursos. Qual é o critério? É preciso qualificar o gasto público e fazer um esforço para reduzir a inflação também pela diminuição do gasto público.

 

 

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