Svalbard – Última parada antes do fim do mundo

Selvagem. Remoto. Vasto e inóspito. Não faltam adjetivos para descrever o Arquipélago de Svalbard

Navegar por seus canais, geleiras e banquisas de gelo flutuantes é adentrar um mundo silenciosamente hostil, que nos lembra, a todo momento, que ali a vida humana é assustadoramente frágil. Mas há muita vida por lá. Svalbard é uma longínqua reserva de animais selvagens próxima ao Polo Norte, onde ursos-polares, focas, morsas, baleias-minke e aves marinhas vivem protegidos

Acostumado a passar meses sem comida, no verão um urso-polar se banqueteia no corpo flutuante de uma baleia morta, na baía do Magdalenafjord.

Chegar lá não é muito fácil. Svalbard pertence à Noruega, país que se situa bem ao norte do planeta. Voei do Brasil a Frankfurt (Alemanha) e, de lá, para Oslo, a capital, situada no sul da Noruega. Tomei então um voo para Tromso, no extremo norte, já dentro dos limites do Círculo Polar Ártico. Outro voo de duas horas em direção ao Polo Norte me levou a Longyearbyen, a capital de Svalbard, na Ilha de Spitsbergen, a maior do arquipélago. De lá, três dias de barco rumo ao norte e atingimos o paralelo 80º. Acima dele, a 1.305 km de distância, o mítico paralelo 90°, o polo geográfico terrestre. Durante o percurso, pude avistar alguns animais do Ártico.

Dizem em Svalbard que, uma vez avistado um urso polar, é fácil se aproximar dele. Difícil é se afastar. Logo vi que encontrá-lo ia ser uma tarefa demorada, monótona, e eu ainda precisaria de sorte. Horas de vigília, no deque do convés superior, com temperaturas próximas de 0º C – verão no Ártico – e ventos de 40 km a 50 km por hora, geravam uma sensação térmica de 20º C negativos, que congelava rosto e dedos, e tudo o que eu via ao redor dos largos canais onde navegávamos era uma vastidão desoladora de água e morros pardacentos recobertos de gelo e neve e nuvens baixas e pesadas, até onde a vista alcançava.

Além da vida selvagem, protegida pelo governo da Noruega, Svalbard é uma gigantesca jazida de carvão mineral. Algumas minas há muito foram desativadas e permanecem como um testemunho da ocupação humana, pouco a pouco engolidas pela natureza que se recupera sobre as instalações abandonadas. Outras operam a todo vapor e extraem o mineral das profundezas das montanhas. O carvão mineral é responsável pela geração de toda a energia consumida nas poucas comunidades locais. A maior é Longyearbyen, com 900 habitantes.

Voltando ao navio, após uma das excursões para observar animais.

Visual exótico do vilarejo de Barentsburg.

Horas de vigília, no deque do convés superior, com tem peraturas próximas de 0º C – verão no Ártico – e ventos de 40 km a 50 km por hora, geravam uma sensação térmica de 20º C negativos

Diante de paredes de mais de 80 metros de altura, às vezes víamos, 10 ou 15 andares despencarem da borda da geleira no mar.

De nosso bote, pedaços de gelo com a altura de um prédio de pareciam cair em câmera lenta, tamanhas as dimensões.

Svalbard é um importante santuário de aves do ártico. Indivíduos de diferentes espécies. Outras nidificam no chão,

Seus rochedos costeiros abrigam colônias com milhões de em terreno aberto, como a agressiva andorinha-do-mar ártica

Morsa descansa em uma pequena placa de gelo.

Barentsburg

Difícil imaginar um lugar mais cinzento e “soviético” do que Barentsburg, um assentamento de mineiros russos e a maior mina de carvão de Svalbard. Os russos estão lá porque, há algum tempo, Noruega e Rússia celebraram acordos de ocupação e exploração do arquipélago, que pertence à Noruega, mas com concessões à Rússia. Na década de 1950, expiraram os prazos para a permanência dos assentamentos russos, gradativamente abandonados, mas Barentsburg permanece. Em meio a toda aquela vastidão de territórios preservados e selvagens, a vila é um verdadeiro paradoxo: prédios baixos e casarios velhos caindo aos pedaços. No entorno, uma quantidade inimaginável de despojos, amontoados grosseiramente nos arredores. Enormes e jurássicas instalações industriais, óleo escorrido no chão em toda parte e tudo pretejado pelo carvão. Dois russos caminham na minha direção, saindo do trabalho, acenam ostensivamente que não querem fotos e seguem sem se deter. Tudo parece deserto.

De Barentsburg, seguimos rumo ao norte pelos canais entre as ilhas. Dia a dia parávamos em baías amplas e saíamos com os botes infláveis para desembarque nas ilhas e aproximação a gigantescas geleiras que acabam no mar. Diante de paredes de mais de 80 metros de altura, às vezes víamos, de nosso bote, pedaços de gelo com a altura de um prédio de 10 ou 15 andares, despencarem da borda da geleira no mar. Pareciam cair em câmera lenta, tamanhas as dimensões. A uma distância prudente de uns 250 metros, observávamos dos botes de borracha a chegada do swell provocado pelo impacto do gelo na água, que causava uma discreta, porém perigosa agitação dos blocos de gelo que boiavam aleatoriamente à nossa volta. Hora de retroceder e sair de perto desses blocos errantes.

Lixo acumulado em Barentsburg.

O carvão mineral é responsável pela geração de toda a energia consumida nas poucas comunidades locais, como acontece na pequenina Longyearbyen.

Neste dia, avistamos apenas uma solitária morsa (Odobenus rosmanus) deitada em uma pequena banquisa. Um jovem com no máximo 500 kg. Esses magníficos e pré-históricos animais alimentam-se de caranguejos e moluscos que arrancam das rochas do fundo com suas enormes presas. Os grandes adultos atingem 4 metros de comprimento, pesam mais de 1,5 tonelada e vivem em colônias, embora sejam frequentemente avistados sozinhos.

Em uma manhã de céu brilhante, deslocávamo- nos com os botes de borracha, lenta e prudentemente, entre blocos de gelo e banquisas planas de vários tamanhos. Apesar do cuidado, em algumas áreas com mais gelo flutuante, o bote sempre se chocava levemente, produzindo um ruído desagradável. O gelo continuamente fechava-se a nossa volta, de forma caótica e aleatória, ao sabor do movimento discreto do mar.

A uns 200 metros do urso-polar, uma foca observa nossa passagem.

Botes se aproximam da enorme parede de gelo do glaciar que acaba no mar.

Depois de procurar a saída daquele caos por mais de uma hora, avistamos em uma banquisa uma ursa-polar (Ursus maritimus) deitada a uns 100 metros de nós. Mais atrás, seu filhote brincava solitário. Permanecemos uma hora na borda da banquisa, observando-os. Belíssimos animais, extremamente resistentes e fortes. Podem perseguir suas presas nadando vigorosamente por mais de 10 km naquelas águas congelantes, onde nós, humanos, perderíamos a consciência em pouco mais de um minuto e a vida em menos de três.

Deixamos os ursos para trás e fomos tentar encontrar a saída. Mais uma hora e atingimos uma área menos coalhada de gelo e desse ponto facilmente regressamos ao navio.

O cofre-forte das sementes

O Seed Vault, gigantesco depósito blindado de sementes, foi construído para armazenar até 4,5 milhões de tipos diferentes de sementes e grãos. Com três galerias principais, foi cavado na rocha da base de uma montanha, em uma região de baixíssima probabilidade de terremotos. Em tese, pode suportar cataclismos geológicos e até explosões nucleares. Seu objetivo é armazenar material genético para o futuro, numa hipotética destruição do planeta. A entidade que construiu o Seed Vault mantém convênios com centros de pesquisa do mundo inteiro, que selecionam amostras de seus respectivos países e as remetem para catalogação e armazenamento no silo. A abertura dele é equipada com uma fortíssima porta blindada, dotada de um sistema que, ao se fechar, extrai o ar e sela a vácuo o interior do local. No silo, a temperatura constante é de 18º C negativos. Somente de tempos em tempos ele é aberto para armazenamento de novas espécies.

Belíssimos reflexos nas proximidades do paralelo 80º, nosso ponto mais ao norte.

Uma das muitas espécies de gaivota do Ártico.

Aves árticas

Svalbard é um importante santuário de aves do ártico. Seus rochedos costeiros abrigam colônias com milhões de indivíduos de diferentes espécies. Outras nidificam no chão, em terreno aberto, como a agressiva andorinha-do-mar ártica (Sterna paradisaea), uma ave migratória que não hesita em nos bicar furiosamente à menor aproximação de seu ninho.

As aves que nidificam nos costões e nas falésias rochosas são responsáveis pelo crescimento da vegetação nas encostas durante os curtos meses do verão. Ao transportarem enormes quantidades de algas, vegetação marinha e alimentos para seus ninhos, eles derrubam parte desse material – um adubo potente para a retomada do verde nas encostas nuas do pós-inverno.

Svalbard é, de certa forma, um mundo à parte. Visitar o lugar renovou minhas esperanças na sobrevivência dos ursos-polares, cuja população local é estimada entre 3.500 e 5.000 indivíduos. Lá, eles vivem protegidos das ameaças humanas, como a caça, a poluição e a destruição de seu hábitat.

Midnight sun

O Sol da Meia-Noite, ou Midnight Sun, é um fenômeno encantador, típico das regiões polares. No verão do Ártico, o astro permanece 24 horas por dia no céu. Aproxima-se rasante do horizonte e volta a se erguer. Os primeiros quatro ou cinco dias causaram um estranho desconforto e o sono tornou-se incomodamente errático. Porém, logo me acostumei e, às vezes, me via completamente sozinho fotografando “a noite”. Durante a expedição, minha cabine tinha uma pequena janela com uma grossa cortina de correr. Eu tinha um rolo de fita crepe, então colei a cortina na parede e lacrei o quarto. Criei uma cápsula de escuridão onde meu maior prazer, antes de cair no sono, era apagar a luz e ficar de olhos abertos “olhando” o escuro. Percebi que isso atenuava o desconforto de 24 horas de claridade.

Serviço

Como chegar: A SAS (Scandinavian Air) voa a partir de várias capitais europeias para Oslo, de onde partem voos diários para Tromso. E de Tromso para Longyearbyen, em Svalbard.

Melhor época: Uma vez que o inverno em Svalbard é rigorosíssimo e que, de novembro a fevereiro, a região mergulha na escuridão, é recomendável ir de meados de maio a agosto, quando as temperaturas são mais amenas (em torno de 5º C).

Onde ficar: Rica Hotel Spitsbergen. www.ricahotels.com/Hotels/Spitsbergen-Hotel.

Quem leva: A Latitudes tem saídas personalizadas para o norte da Noruega e Svalbard. www.latitudes.com.br

Turismo em Svalbard: www.svalbard.net

Cruzeiros em Svalbard: www.hurtigruten.us

Mais informações: Innovation Norway – O site traz tudo sobre turismo na Noruega. www.visitnorway.com/us.

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