Tartaruga que viveu no Brasil tinha casca de até 3 metros e chifres

A maior tartaruga já vista no mundo habitou, entre 5 e 10 milhões de anos atrás, toda a parte norte da América do Sul

Reconstituição da Stupendemys geographicus: macho (frente) e fêmea (esquerda) nadando em água doce. Crédito: Jaime Chirinos

Uma equipe internacional de cientistas descobriu espécimes excepcionais na Venezuela e na Colômbia de uma tartaruga gigante de água doce extinta chamada Stupendemys geographicus. A carapaça dessa tartaruga, a maior já conhecida, media entre 2,4 e 3 metros. Além disso, a casca das Stupendemys machos tinha chifres – uma característica rara nas tartarugas. A descoberta foi relatada na revista “Science Advances“.

A região tropical da América do Sul é um dos hotspots do mundo em termos de diversidade animal. A fauna extinta da região é única, conforme mostram fósseis de roedores e crocodilianos gigantes, incluindo crocodilos, jacarés e gaviais, antigos habitantes do que hoje é uma área desértica na Venezuela. Entre 5 e 10 milhões de anos atrás, essa era uma região pantanosa e úmida, cheia de vida. Um de seus moradores, a Stupendemys geographicus, era uma espécie de tartaruga abordada pela primeira vez em meados da década de 1970.

Pesquisadores de Suíça, Colômbia, Venezuela e Brasil (Orangel Antonio Aguilera Socorro, da Universidade Federal Fluminense) descreveram agora amostras excepcionais da tartaruga extinta encontrada recentemente em novos locais na Venezuela e na Colômbia.

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“A carapaça de alguns indivíduos Stupendemys atingiu quase três metros, tornando-a uma das maiores, se não a maior tartaruga que já existiu”, diz Marcelo Sánchez-Villagra, diretor do Instituto Paleontológico e do Museu da Universidade de Zurique (UZH) e líder do estudo. A tartaruga tinha uma massa corporal estimada em 1.145 kg – quase cem vezes a de seu parente vivo mais próximo, a tartaruga de cabeça grande do rio Amazonas.

O paleontólogo venuzuelano Rodolfo Sánchez posa ao lado do casco de uma Stupendemys macho encontrada em depósitos de 8 milhões de anos. Crédito: Edwin Cadena
Chifres nos cascos

Em alguns indivíduos, a carapaça completa mostrou uma característica peculiar e inesperada: chifres. “Os dois tipos de conchas indicam a existência de dois sexos da Stupendemys – machos com cascos com chifres e fêmeas com cascos sem chifres”, conclui Sánchez-Villagra. De acordo com o paleobiólogo, esta é a primeira vez que o dimorfismo sexual na forma de conchas com chifres foi relatado para qualquer uma das tartarugas com retração lateral de pescoço, um dos dois principais grupos de tartarugas do mundo.

Apesar de seu tamanho tremendo, a tartaruga tinha inimigos naturais. Em muitas áreas, a ocorrência da Stupendemys coincide com a do Purussaurus, os maiores jacarés. Provavelmente, ele era um predador da tartaruga gigante, dado não apenas seu tamanho e preferências alimentares, mas também como inferido por marcas de mordida e ossos perfurados nas carapaças fósseis da Stupendemys.

Como os cientistas também descobriram mandíbulas e outras partes do esqueleto do Stupendemys, eles foram capazes de revisar completamente as relações evolutivas dessa espécie na árvore da vida das tartarugas. “Com base nos estudos da anatomia das tartarugas, sabemos agora que algumas tartarugas vivas da região amazônica são os parentes vivos mais próximos”, diz Sánchez-Villagra.

Além disso, as novas descobertas e a investigação de fósseis existentes no Brasil, na Colômbia e na Venezuela indicam uma distribuição geográfica muito maior da Stupendemys do que se supunha anteriormente. O animal viveu em toda a parte norte da América do Sul.