Templo da época do de Salomão desafia conceitos sobre a antiga Judeia

Edifício religioso próximo de Jerusalém continha indícios não só de culto a Jeová, mas a outras entidades

Figuras humanas encontradas no templo de Tel Motza. Crédito: Clara Amit/cortesia IAA

Uma construção religiosa localizada nas cercanias de Jerusalém e contemporânea do Primeiro Templo (o Templo de Salomão) põe em xeque ideias aceitas sobre a religião e o governo na Judeia durante a Idade do Ferro, afirmam arqueólogos que recentemente renovaram as escavações em Tel Motza, segundo o jornal israelense “Haaretz“.

A estrutura havia sido descoberta em 2012, durante escavações realizadas pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA, na sigla em inglês) antes de obras nas estradas da região. A escavação atual, realizada pela IAA e pelo departamento de arqueologia da Universidade de Tel Aviv, é abordada em um artigo publicado na edição de janeiro/fevereiro de 2020 da revista “Biblical Archaeology Review Professor”. Assinado por Oded Lipschits e Shua Kisilevitz, o artigo é baseado nas descobertas de Hamoudi Khalaily, Anna Eirikh e Kisilevitz a partir de pesquisas divulgadas cerca de uma década atrás.

O templo em Tel Motza foi encontrado pela primeira vez na década de 1990 por Zvi Greenhut, agora chefe do Departamento de Tratamento e Conservação de Artefatos da IAA. Com pelo menos o mesmo tamanho do Templo de Salomão em Jerusalém e parecido com a descrição dessa estrutura na Bíblia, ele foi aparentemente usado para a adoração paralela de Jeová e de ídolos.

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Cultos diferentes

O edifício religioso é um dos poucos do período a ser descobertos e o único situado nas colinas de Jerusalém. Nunca foram encontrados restos do Templo de Salomão, supostamente destruído e soterrado durante o projeto de construção do Segundo Templo, na época de Herodes. O templo encontrado em Motza lembra muito outros templos no Oriente Próximo e corresponde às descrições do Templo de Salomão.

Os arqueólogos encontraram no templo de Motza um altar sacrificial, com uma mesa de oferendas para sacrifícios. Havia também vasos de culto e artefatos, incluindo duas figuras humanas e duas figuras de cavalos. São esses objetos que levaram os pesquisadores a pensar que havia no local outros cultos além daquele a Jeová.

As dimensões do edifício (cerca de 12 metros por 20 metros) e seu plano arquitetônico assemelham-se aos do templo descrito na Bíblia. Uma análise dos ossos dos animais encontrados no local indicou que eles pertenciam apenas a animais kosher – vacas, cabras, ovelhas e veados. Na maioria, os ossos eram jovens e apresentavam sinais de terem sido cortados, o que reforça a teoria de que esses animais haviam sido trazidos como sacrifícios.

O centro de culto foi construído em cima de um celeiro. Isso explica o processo de construção, afirma Lipschits: “Um governante local constrói um local para armazenar produtos agrícolas e, em um segundo estágio, ele estabelece um templo no mesmo local. Eles têm uma comunidade de 100 a 150 famílias e o chefe local construiu um templo para eles. Mais ou menos a mesma coisa foi feita em Jerusalém por um chefe local depois que ele também tentou estabelecer seu governo. Ambas as comunidades existem em paralelo. O regime em Jerusalém amplia sua influência para abranger novos grupos populacionais, mas o templo em Motza continua a existir.

Independência religiosa

Segundo ele, o reino da Judeia não era centralizado, mas havia alianças entre o rei em Jerusalém e os governantes locais. De acordo com a teoria, Motza tinha um governante relativamente forte que conseguiu manter a independência religiosa em relação a Jerusalém.

Como o templo de Motza sobreviveu às reformas religiosas que os reis Ezequias e Josias lideraram nos séculos 7 e 8 a.C.? Sob essas reformas, reza a Bíblia, os locais de culto que competiam com Jerusalém foram proibidos e muitos templos locais foram destruídos. Pesquisadores descobriram que os restos de templos foram aniquilados sob essas reformas em Tel Arad e Tel Be’er Sheva. A razão para isso, diz Lipschits, é que tanto Arad quanto Be’er Sheva tinham fortes militares diretamente subordinados ao rei, enquanto Motza tinha uma comunidade na qual o rei não podia impor sua vontade.

O templo de Motza levanta algumas questões complexas. Embora estivesse a apenas 5 quilômetros de distância do templo em Jerusalém, ele sobreviveu e continuou funcionando aparentemente sem interrupções, tanto após as reformas como após a destruição do Primeiro Templo. O templo de Motza foi presumivelmente abandonado, sem ser destruído, após o exílio na Babilônia, no século 6 a.C.

O templo sobreviveu sob a gigantesca Ponte Highway 1. A IAA promete apresentar as antiguidades encontradas para os visitantes verem. “O local é o coração do assentamento pré-histórico na área de Jerusalém”, diz Yuval Baruch, diretor do distrito de Jerusalém da IAA.

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