Teste da confiança

Quando se trata de encontrar uma pessoa estranha em que possamos confiar, nosso cérebro funciona de maneira bem pouco refinada – e isso ajuda a espalhar preconceitos e discriminações

O cérebro humano é capaz de desenvolver um sem-número de raciocínios complexos, mas es­colher um estranho em que se possa confiar certamente é um deles. Segundo um estudo americano, o mecanismo que usamos para julgar pessoas nessa condição é similar ao de animais como os cães. Em artigo publicado em janeiro na revista PNAS, pesquisadores da Universidade de Nova York descrevem como pediram a 29 participantes para guardar US$ 10 ou investi-los em um “jogo de confiança” com um de três homens que eles não conheciam, mas cujas fotografias lhes foram mostradas.

Os participantes viram 15 séries de três fotografias (no total, 45 visualizações), cada qual com imagens de novos estranhos. Mas, sem que os voluntários soubessem, cada um deles se assemelhava a alguém da primeira série. Os participantes eram informados de que a quantia investida seria multiplicada por quatro vezes, e que o outro jogador poderia partilhar o total com eles ou ficar com o dinheiro. No fim, os voluntários descobriram que, enquanto um dos três homens de cada série era muito confiável (compartilhava o dinheiro em 93% do tempo), o segundo era mediano (60% do tempo) e o terceiro se mostrava bem pouco confiável (7% do tempo).

No experimento seguinte, os participantes foram convidados a escolher um parceiro para um novo jogo – um cujo rosto eles não pudessem ver ou tivessem visto em foto. Quatro desses rostos eram totalmente novos, mas outras 54 fotos tiveram imagens manipuladas em graus variados a fim de lembrar as de jogadores do teste anterior.

Reação à semelhança

Os pesquisadores notaram que, quanto mais um dos jogadores se parecesse ao indivíduo confiável do experimento anterior, maior era a tendência dos participantes de escolhê-lo para a tarefa seguinte. Uma reação ainda mais intensa no sentido oposto surgiu em relação ao homem não confiável do teste inicial: a semelhança com ele levou cerca de 68% dos participantes a recusarem determinados jogadores. “Os resultados revelam que os indivíduos preferem jogar com estranhos que, de forma implícita, se assemelham ao jogador original que haviam visto anteriormente e era confiável, e evitam jogar com estranhos parecidos com o jogador não confiável”, escreveram os pesquisadores no artigo.

“Tomamos decisões sobre a reputação de um estranho sem qualquer informação direta ou explícita sobre ele, com base apenas na sua semelhança com outras pessoas que encontramos, mesmo quando desconhecemos essa semelhança”, acrescenta Elizabeth Phelps, professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York e coautora do estudo. “Isso mostra que nossos cérebros implementam um mecanismo de aprendizado no qual informações morais codificadas de experiências passadas orientam escolhas futuras.”

Esse mecanismo, denominado generalização de estímulos, é o que Ivan Pavlov, fisiologista russo do século 19, usou para condicionar cães a salivar ao som de um sino, independentemente de a comida estar sendo ou não oferecida. “Se Pav­lov tocasse um tipo semelhante de sino, o cão também salivaria – ele apenas salivaria um pouco menos”, afirma Oriel FeldmanHall, principal autora da pesquisa e atualmente professora assistente na Universidade Brown.

Os pesquisadores repetiram as experiências com 28 novos participantes, cujos cérebros foram submetidos a exames de imagem por ressonância magnética funcional. Entre outros detalhes, notou-se que, à medida que a imagem do potencial candidato era ajustada para se parecer mais com o jogador não confiável do teste inicial, a atividade na amígdala (área importante no aprendizado emocional) ficava mais intensa.

Esse achado aponta para a natureza altamente adaptativa do cérebro, pois mostra que fazemos avaliações morais de estranhos a partir de experiências de aprendizado anteriores. A conclusão tem repercussões óbvias em termos de discriminação étnica e racial, e também ajuda a explicar como algumas populações resistem mais a miscigenar-se.



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