“Todo mundo usa software livre, mas não sabe disso.“

Os softwares e hardwares livres prometem uma economia local com mais oportunidades de trabalho e espaço para inovação, explica um dos papas nessa área da computação

Jon “Maddog” Hall dirige o Conselho do Linux Professional Institute (organização dedicada a promover mundialmente o Linux, o código aberto e os softwares livres) e é CEO da OptDyn, criadora da plataforma de nuvem Subutai (Foto: Divulgação)

Desde que começou a programar computadores, em 1969, o americano Jon Hall trabalha com tecnologia de código aberto e se dedica a educar as pessoas sobre as vantagens socioeconômicas dessa “cultura aberta” e da “cultura colaborativa”. Também conhecido pelo apelido “Maddog” (cachorro louco) – da época em que, segundo ele, tinha um temperamento mais explosivo –, o “papa do software livre” esteve no Brasil para o UbaTech – Fórum de Tecnologias Livres, que aconteceu de 11 a 13 de outubro em Ubatuba (SP), e conversou com PLANETA sobre a importância social dessas ferramentas e da mentalidade incorporada a elas. Para os desentendidos no assunto, os softwares livres, como o Linux, são assim chamados porque não cobram licença para uso, podem ser livremente alterados para atender necessidades específicas e ainda permitem ganhos financeiros àqueles que oferecem serviços de customização, implantação, manutenção, consultoria ou vendem sistemas desen­volvidos sobre eles.

PLANETA – Qual o alcance do Linux e dos softwares de código aberto em geral no mundo atualmente?
HALL – O GNU/Linux [mais conhecido como Linux] é usado em 486 dos computadores mais rápidos do mundo. Doze rodam Unix [outro software aberto] de diferentes tipos e dois rodam Microsoft. O GNU/Linux roda em cerca de 50% de todos os servidores e é o sistema operacional mais usado em sistemas embarcados. O Linux é o kernel [componente central] do Android, que é duas vezes mais usado do que o iOS (da Apple). O único lugar onde o GNU/Linux não “ganha” é no desktop – a Microsoft ainda domina, mas está perdendo mercado para o GNU/Linux e o Android (baseado em Linux). Os sistemas de código aberto são ainda mais prevalentes, já que aplicações de código aberto rodam em sistemas operacionais fechados. O navegador Firefox, sistemas de banco de dados e os softwares web são apenas alguns exemplos. Todas as corporações do mundo hoje usam sistemas de código aberto em algum lugar, inclusive em aplicações de missão crítica.

PLANETA – Por que pouca gente ainda usa software livre, apesar de ser tão acessível (comparado à quantidade de usuários que usam software licenciado)?
HALL – Todo mundo usa software livre, mas não sabe disso, como expliquei anteriormente. E mais pessoas usariam software livre se não houvesse tanta pirataria de software no mundo. No Brasil, 84% dos softwares de desktops são piratas (segundo o Business Software Alliance). Se esses usuários de cópias pirateadas tivessem de pagar por seus soft­wares, provavelmente mudariam para o software livre.

PLANETA – Qual é o papel social da cultura de código aberto?
HALL – O papel do código aberto é permitir a inovação localmente. A inovação é dificultada quando se demanda muito capital (seja dinheiro ou “alicerce”) para começar. As restrições insensatas que nos são impostas, chamadas “patentes” e “direitos autorais”, impedem as pessoas de construir sobre ideias geradas, e algumas grandes ideias são perdidas por nunca poderem superar a “inércia” gerada por essas restrições. Imagine se um artista tivesse de reinventar o conceito de perspectiva antes de começar uma nova pintura. Todos nós nos apoiamos nos ombros de gigantes que vieram antes. A localidade é importante por dois motivos. Em primeiro lugar, nem todo gênio nasce nos Estados Unidos ou na Europa. Pode nascer na África ou na Índia, por exemplo. Precisamos enxergar essas pessoas, encorajá-las e trazê-las à luz. Precisamos basear o reconhecimento em mérito, e não em privilégio. Em segundo lugar, precisamos redistribuir o dinheiro. Um dólar gasto localmente circula muitas vezes ali, permite a compra de comida local, aluguel de casa e paga impostos. A cultura do código aberto permite movimentar a inovação local em qualquer lugar do mundo. O desenvolvimento local também significa que a pessoa que faz esse trabalho pode atender as necessidades dali, algo bem melhor do que ter uma pessoa de fora dessa cultura tentando cumprir a mesma tarefa.

Crianças indianas mexem em um tablet: precisamos ver quem se destaca na área também nesses lugares (Foto: iStockphoto)

PLANETA – Diferentemente do sr., que começou a programar na década de 1960, época em que praticamente não havia softwares “prontos” (soft­wares proprietários), a geração digital nasceu em um mundo dominado por eles. Por outro lado, essa geração é naturalmente mais familiarizada com a tecnologia e a cultura colaborativa. Ela demonstra mais interesse em Linux do que as gerações anteriores?
HALL – O software proprietário surgiu dentro de um contexto específico, quando o custo dos computadores caiu e as pessoas acharam que a licença de soft­ware era menos cara do que um software customizado. Entretanto, a internet, os hardwares superpoderosos e baratos e a cultura colaborativa fizeram com que customizar software livre compensasse novamente.

PLANETA – Os softwares livres estão mais expostos a ataques do que os softwares proprietários, já que o código deles está aberto a qualquer um?
HALL – Os FOSSH [abreviação para “free and open source software and hardware”, ou softwares e hardwares livres e de código aberto] são tão seguros quanto os soft­wares de código proprietário, e possuem uma vantagem: uma vez que o problema é encontrado, ele pode ser corrigido mais rapidamente através de diferentes tipos de arquitetura no código aberto do que no caso dos códigos fechados. Isso porque você não tem que esperar a empresa proprietária distribuir o patch [conserto]. Dessa maneira, o “Mean Time To Fix” (MTTF, tempo médio entre reparos) é normalmente mais baixo.

PLANETA – O Projeto Cauã está evoluindo como o sr. planejava no Brasil e na América Latina? Em 2009, quando ele foi anunciado, o sr. falava em criar 2 milhões de empregos no país e 4 milhões no restante da região para programadores que trabalhariam na montagem, instalação, manutenção e customização de software livre rodando em hardware de baixíssimo custo (ThinClient).
HALL – A relutância dos mentores e dos estudantes em investir tempo para desenvolver seus próprios negócios de suporte está emperrando o deslanchar do projeto. Esperar ser pago pelo tempo necessário para construir seus próprios negócios é desanimador. Contudo, acontecimentos recentes me permitiram criar alguns produtos que os estudantes podem vender imediatamente e oferecer suporte para eles, o que pode mudar a dinâmica do projeto.

Entrar para a ciência da computação significa iniciar uma vida de aprendizado (Foto: iStockphoto)

PLANETA – A OptDyn, empresa da qual o sr. é CEO, lançou o Subutai v6.0 em outubro para a América Latina. Como o sr. explica a inovação e os benefícios por trás dessa plataforma de computação em nuvem ponto a ponto?
HALL – Os sistemas de “Big Cloud” – como os oferecidos pela Amazon, pelo Google e outros – têm seu controle centralizado geralmente nos EUA. Portanto, precisam funcionar de acordo com as leis americanas, que exigem que eles mostrem os dados para as autoridades do país. Existem alguns tipos de dados que as leis brasileiras exigem que sejam armazenadas no Brasil. Embora os sistemas “Big Cloud” digam que guardam os dados no Brasil, não se pode garantir que é exatamente o que acontece. A “Big Cloud” também não permite que você ofereça os recursos da sua máquina para a nuvem em troca de pagamento. O Subutai permite que você tenha controle sobre a nuvem. Você pode determinar que seus recursos (CPU, memória, disco, etc.) sejam alocados onde seu computador estiver. Em vez de só ter a opção de comprar esses recursos [pagando pelos serviços de nuvem de Amazon, Google, etc.], você pode vendê-los a outros que precisam deles e fazer dinheiro com isso.

PLANETA – Uma pergunta bem pessoal: em um mercado tão dinâmico como o da tecnologia, como se chega aos 67 anos sem ficar mentalmente velho?
HALL – Quando você entra para a ciência da computação, ingressa em uma vida de aprendizado. Você não para nunca de aprender. A faculdade não está aí para ensinar uma profissão nem para ensinar sobre produtos (Microsoft Office ou Adobe Illustrator ou base de dados Oracle, por exemplo). Ela está aí para ensinar você a como pensar e transformar dados em informação. E isso gera uma vida inteira de conhecimento.

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