Pensamentos visíveis: uma proposta para exercitar a curiosidade em aula

PLANETA conversou com Mark Church, disseminador da cultura do pensar: uma proposta para alimentar a curiosidade inata das crianças e manter aceso nelas o apetite pela reflexão durante toda a vida

Mark Church,coautor do livro Making Thinking Visible e consultor de iniciativas do Project Zero, grupo de pesquisas da Universidade de Harvard. Crédito: Leandro Martins

Na busca mundial que acontece hoje por um sistema de ensino mais estimulante e que ofereça bagagem mais interessante e proveitosa para a vida dos alunos, os conteúdos teóricos desvinculados da sua aplicação e a interminável decoreba para responder aos testes de exames classificatórios começam a ser questionados – e, espera-se, superados algum dia. Para sorte das novas gerações, no lugar dessas práticas desgastadas surgem algumas propostas para alimentar a curiosidade inata das crianças e manter aceso nelas o apetite pela reflexão. Afinal, questionar, argumentar, debater, refletir, negociar e entrar em acordo deveria fazer parte da rotina das crianças – e dos professores também.

PLANETA conversou com Mark Church, disseminador de uma dessas propostas, já testada e aprovada pelo mundo afora, mas ainda pouco conhecida no Brasil. Coautor do livro “Making Thinking Visible”, ao lado de Ron Ritchhart e Karin Morisson, ele promove a ideia de “tornar o pensamento visível” (em tradução livre). Baseado nas chamadas “rotinas de pensamento” que sugerem um circuito a ser percorrido para elaborar pensamentos e reflexões profundas e, claro, como o nome também sugere, que se torne uma prática rotineira da forma de pensar.

A proposta nasceu dentro de um grupo da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard, o Project Zero (Projeto Zero), fundado há 51 anos, dedicado a pesquisar as capacidades humanas. Distintos projetos foram desenvolvidos ao longo desse meio século dentro do grupo, criar uma cultura de pensamento e tornar o pensamento visível são apenas dois deles, iniciados há cerca de 18 anos. “Nosso projeto, de tornar pensamentos visíveis está interessado nos tipos de movimentos do pensar que acontecem quando as pessoas entendem coisas. Porque isso é muito poderoso, tem um potencial muito grande. Se podemos nomear e notar isso e fazer isso visível, então podemos ajudar as crianças a desenvolver esses hábitos”, explica. Church foi professor por cerca vinte anos e hoje é consultor de várias iniciativas do Project Zero nos Estados Unidos e no mundo. Ele esteve no Brasil em outubro a convite da escola Concept, um modelo inovador criado pelo Grupo SEB recentemente. 

PLANETA – Você também foi professor. Como você trabalhava em sala de aula antes de ter contato com essa técnica?
MARK CHURCH – Eu fui professor por alguns anos e depois passei a trabalhar com professores e com Ron Ritchhart, diretor sênior de pesquisa do Project Zero e coautor do livro Making Thinking Visible. 
Como professor eu sempre estive interessado em realmente tentar entender meus alunos. Eles não chegavam pra mim em branco, eles não estavam vazios, eles tinham muitas idéias, pensamentos, questionamentos, conceitos e também ideias distorcidas. Seria muito fácil para mim cumprir o currículo, passar pelas lições como se estivesse diante de uma sala vazia. Mas eu não ensino para salas vazias, eu ensino em salas cheias de seres humanos. E esses seres têm um monte de coisas passando por suas cabeças. Então eu sempre me perguntei como entender os alunos que estão na minha frente e como tomar boas escolhas para ajudá-los a aprender. Isso sempre esteve dentro de mim. Mas, a ideia de fazer com que seus pensamentos se tornassem visíveis foi o que mais me fascinou.

PLANETA – Então você já estava envolvido com isso desde que era professor?
CHURCH – Eu já estava envolvido com essas ideias quando era um professor e agora estou envolvido com professores para disseminar essas ideias.

PLANETA – Como os professores podem aprender essa metodologia?
CHURCH – Eu não vejo isso como uma metodologia. Tornar o pensamento visível não é uma técnica a ser implementada, é uma série de passos a serem tomados. Vejo como uma forma de ser. É sobre mim, sendo professor e dizendo “eu quero ver dentro da cabeça dos meus alunos para poder ser um bom professor para eles”. Então, as metodologias que eu posso aplicar para fazer isso possível, as técnicas que posso usar e as interações que posso criar para isso ser possível crescem. 

PLANETA – Como é isso na prática?
CHURCH – É pensar em quais hábitos mentais eu quero que meus alunos se tornem bons e preparar aulas para desenvolver esses hábitos. E daí pensar que técnicas posso usar para criar esses hábitos. 
Sempre que quero que meus alunos incorporem e aprendam algum comportamento, preciso apresentar a eles ferramentas e instruções para que se tornem bons nisso.
Vou dar um contra-exemplo (porque não é isso quero de fato, ok?). Se eu quero que meus alunos se tornem bons memorizadores e regurgitadores – eu faço eles memorizarem, memorizarem, memorizarem e regurgitarem. Todo dia que estiver com eles, vou criar oportunidade para que memorizem e regurgitem. Todas as perguntas e interações vão requisitar que eles memorizem e regurgitem.
Nosso projeto acredita que memorizar e recordar é uma ferramenta ‘pobre’ para a vida. Porque sabemos que, no futuro, memorizar e recordar não serão as melhores ferramentas para enfrentar a maior parte dos problemas que os alunos encontrarão, seja na vida pessoal ou profissional adulta.
Mas podemos fazer com que sejam capazes de observar com atenção, bem de perto, que eles sejam capazes de fazer conexões, que eles questionem e respondam questões por trás das perguntas. Isso é o que a vida adulta exige. Se é essa a forma de pensar que será necessária quando crescerem, então, na minha aula, eles vão ter espaço para colocar esses hábitos mentais em prática.

PLANETA – Você ensina professores a aplicar isso durante as aulas?
CHURCH – Dentro e fora de sala. Não é questão de aplicar uma técnica, é questão de criar circuitos de pensamento habituais que vão durar e ser úteis por 10, 20, 30, 40 anos. A Concept está realmente investindo em transformar seus professores em estudantes dos seus estudantes. Isso é ótimo para o professor, que não se preocupa apenas em cumprir com um currículo. Só depois de estudar seus alunos que ele decide como entregar o conteúdo e como fazer seus pensamentos visíveis. E eu estou aqui no Brasil para ajudar esses professores a fazerem isso.

Church em evento na escola Concept de São Paulo. Crédito: Leandro Martins.

PLANETA – Que mudanças vocês constatam nos alunos quando os pensamento se tornam visíveis?
CHURCH – Quando as escolas realmente criam essa cultura em sala de aula, fazendo os alunos tornarem visíveis seus pensamentos, nós notamos várias coisas. Os professores começam a escutar mais seus alunos; e quando fazem isso, os alunos começam a fazer melhores perguntas, mais sofisticadas e profundas. Em muitas escolas que adotaram essas ideias, quando os alunos se tornam bons nesses movimentos do pensamento, seus textos são mais sofisticados, seus projetos são mais complexos, suas discussões em salas são mais ricas. Quando vão para a universidade, e têm muito material para ler, eles costumam trazer novos insights, novas questões, novas considerações. Quando ficam bons nesses circuitos de pensamentos, os retornos vêm em diferentes áreas.

PLANETA – Inclusive na vida, melhor que só em sala de aula.
CHURCH – Mas não é pra isso que existem as escolas?

PLANETA – Deveria ser, mas vemos que não é o que acontece hoje em dia com o sistema de ensino tradicional.
CHURCH – Outra coisa que acho importante dizer: eu não represento o Project Zero, mas estou seguro em afirmar que nós não estamos voltados a fazer uma escola melhor. Têm outras pessoas dedicadas a isso. É engraçado dizer isso, mas estamos interessados em como os seres humanos aprendem, que tipos de pensamento os humanos têm quando aprendem. E as escolas ficaram muito interessadas por essas ideias, porque querem ajudar os alunos a aprender. Mas algumas escolas não gostam das nossas ideias, porque se os pensamentos das crianças se tornam visíveis, temos que fazer algo a respeito disso. (risos) E é muito mais fácil manter as crianças quietas e passar lições para elas. Não me entenda mal, não quero falar mal das escolas, elas estão tentando fazer coisas boas para os alunos. Mas aquelas que trabalham com as nossas ideias colocam professores e alunos em papéis bem diferentes dos tradicionais. O professor se torna um ouvinte na sala de aula e os alunos se tornam bem ativos em direcionar o aprendizado para as suas dúvidas, questionamentos, perspectivas e tudo mais.

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