Três maneiras pelas quais o coronavírus está mudando quem somos

O professor e pesquisador Arie Kruglanski mostra aqui como os americanos – e, similarmente, os habitantes de todos os países que se defrontam com a Covid-19 – vão sair transformados da experiência de enfrentar essa pandemia

Militares americanas atuam na Operação Covid-19 em New Rochelle, no estado de Nova York: pandemia repercute em nossos pensamentos, valores e relações. Crédito: Sgt. Amouris Coss/The National Guard/Wikimedia

Para a maioria dos americanos, a pandemia de coronavírus representa uma circunstância completamente sem precedentes, tão nova quanto transformadora. Nenhum evento na história recente nos afetou tão profunda e amplamente.

Ela não apenas nos lembra nossa fragilidade física, mas também prejudica a segurança econômica, lança rotinas diárias de pernas para o ar, destrói planos e nos isola de amigos e vizinhos.

Sou um psicólogo que estuda a motivação humana e seu impacto sobre o que sentimos, como pensamos e o que fazemos. Vejo que, pouco a pouco, as estressantes forças externas desencadeadas por essa pandemia estão exercendo um profundo efeito interno. Pouco a pouco, eles estão mudando quem somos e como nos relacionamos com as pessoas e o mundo.

A pandemia afeta nossa psique de três maneiras: influencia como pensamos, como nos relacionamos com os outros e com o que valorizamos.

LEIA TAMBÉM: Curva epidêmica: como a matemática ajuda a conter o coronavírus

Mudança no senso de segurança

Essa crise induziu uma ampla incerteza. Não sabemos o que pensar ou como jogar cara ou coroa com essas circunstâncias completamente desconhecidas.

Quem será afetado? Será que nossos entes queridos? Quão rápido? Os testes estarão disponíveis? Vamos sobreviver? Quanto tempo isso vai durar? E o nosso trabalho? Nossa renda?

A combinação de incerteza e perigo é uma receita para uma angústia severa. Alimenta um intenso desejo de certeza, mais conhecido pelos psicólogos como a necessidade de fechamento cognitivo.

Uma vez despertada, a necessidade de fechamento promove o desejo por informações confiáveis, o desejo agudo de dissipar a ambiguidade paralisante que nos envolve. Ansiamos por clareza e orientação, uma “luz no fim do túnel” – um túnel que neste momento aparece sem fim.

Colados aos nossos aparelhos de TV, nos tornamos viciados em notícias, esperando contra a esperança que o próximo ciclo finalmente forneça a iluminação que continua nos iludindo.

Pesquisas sobre a necessidade de fechamento nos dizem muito mais: sob condições de incerteza difusa, as pessoas são atraídas, como se por um ímã, por soluções simplistas e raciocínio em preto e branco.

Alguns gravitam no polo da negação de que nada está errado, outros no pânico total, na crença de que o pior certamente virá e que o fim está próximo. Os rumores são amplamente divulgados e apreendidos acriticamente.

Este é o momento em que é necessária uma liderança constante e tranquilizadora. Também é o momento em que uma direção autorizada e confiante é muito preferida à orientação flexível e laissez-faire.

Precisamos nos dizer o que fazer, pura e simplesmente. Não é hora de deliberações complexas.

Necessidades alteradas

Quando a necessidade de fechamento aumenta, as pessoas se tornam “centradas no grupo”, o que significa que anseiam por coesão e unidade.

O patriotismo é elevado, mas o mesmo ocorre com o nacionalismo, a ideia de que nossa nação é superior às outras, melhor para lidar com a crise que os estrangeiros propagaram para começar.

A pandemia de coronavírus é assustadora. Todos podem estar infectados. Ninguém está isento. Não importa qual seja sua posição na vida, seu status, poder ou popularidade, o vírus ainda poderá pegá-lo.

Essa possibilidade evoca um sentimento primordial de fragilidade e vulnerabilidade. Uma ampla pesquisa atesta que, com os sentimentos de controle e ação própria em declínio – como na infância, na doença ou na velhice –, a dependência de alguém aumenta.

Isso leva a valorizar as relações sociais, fortalecendo o vínculo com os outros, aumentando a valorização dos entes queridos, familiares e amigos.

Uma consequência de nosso desamparo diante da pandemia é nossa maior sociabilidade, um desejo de calor e socorro, a percepção de que precisamos de outros, de que não podemos atacá-lo sozinhos.

Valores alterados

Junto com o crescente apego aos outros, ocorre uma mudança sutil em nossa moral.

Valores comunitários de cooperação, consideração e cuidado são priorizados, enquanto valores individualistas de prestígio, popularidade e poder perdem parte de seu apelo.

Nossos ideais culturais se transformam em conformidade. Em tempos de crise, celebramos e damos grande importância às pessoas que servem valores comunitários, estendem a mão para os outros, sacrificam seus próprios interesses pelo bem comum, demonstram empatia e modelam a humanidade.

O fascínio pela fama e pela riqueza diminui; é preciso admirar os simples atos de bondade.

A pandemia de coronavírus altera quem somos, afetando diversas facetas de nossa psique.

Podemos aprovar algumas das mudanças – rumo a laços comunitários mais fortes e valores humanitários – e desaprovar outras – mente fechada, pensamento em preto e branco. Gostemos ou não, a imensa crise que estamos enfrentando traz o melhor de nós, mas também o pior de nós.

 

* Arie Kruglanski é professor de Psicologia da Universidade de Maryland (EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.