Um barco movido a saúde e alegria

Sob o forte sol amazônico.

Nem só do Círio de Nazaré (PA) e do Festival de Parintins (AM) – duas de suas principais manifestações populares – vive o Norte do País. A magia dos povos ribeirinhos e a beleza selvagem de uma região que abriga a principal floresta do planeta – a amazônica – seduzem e encantam muita gente, constituindo- se num dos roteiros mais procurados pelos turistas. E é exatamente abaixo da linha do equador, num solo de clima quente e úmido, bem típico das florestas tropicais, que fica o Estado do Pará, o endereço do Saúde e Alegria (PSA), um dos mais eficientes (e criativos) projetos sociais do Brasil.

Fundado em 1985, o projeto integrado por uma equipe interdisciplinar atua em três cidades do oeste do Pará: Aveiro, Belterra e Santarém, onde é sua sede. Esse município, por sinal, detém alguns dos mais concorridos cartões-postais do Estado: o rio Tapajós, um dos principais afluentes da margem direita do Amazonas. No verão, com a redução do volume de água, é essa extensa avenida fluvial que revela 132 quilômetros de praias de águas translúcidas e areias branquinhas. Em frente à orla de Santarém, a foz é palco de outro memorável espetáculo: o encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas, quando as azul-esverdeadas do primeiro juntam-se às de cor barrenta do maior rio do mundo e correm paralelas sem se misturar ao longo de muitos quilômetros.

Mas é na floresta atrás das praias fluviais situadas nas duas margens do rio Tapajós que vive a maior parte das 30 mil pessoas de 143 comunidades atendidas pelo PSA. Povoada por lendas, botos-cor-derosa e tantos outros personagens do folclore nacional, essa região privilegiada em recursos naturais infelizmente também vem sendo “habitada” pelo desmatamento. Sem saber como deter a destruição do meio ambiente e como explorar de modo sustentável as suas riquezas e potencialidades, esses povos empobrecem a cada dia. Essa, aliás, é uma das razões que motivam o pessoal do PSA a visitar essas comunidades. Nelas, realiza programas de desenvolvimento comunitário nas áreas de saúde e odontologia, organização comunitária, economia da floresta, educação, cultura e comunicação.

Entre os vários programas do PSA – o Circo Mocorongo, um mercado com produtos que preservam a identidade cultural dos povos da Amazônia e muito mais –, o Abaré é uma atração à parte. Doado em regime de comodato ao projeto pela ONG holandesa Terre des Hommes, o barco de R$ 2,6 milhões é um hospital flutuante que desliza pelas margens do rio Tapajós. Também é a organização holandesa que financia o combustível e os profissionais que trabalham na embarcação – além de médicos, dentistas, enfermeiros, práticos, marinheiros e cozinheiras, palhaços, recreadores e arte-educadores se unem à equipe, arrancando sorrisos e educando pessoas.

É na floresta atrás das praias fluviais situadas nas margens do rio Tapajós que vive a maior parte das 30 mil pessoas atendidas pelo projeto

Construída para enfrentar as condições amazônicas de secas e enchentes do rio Tapajós, a pioneira unidade móvel de saúde está equipada com centro cirúrgico, laboratório de análises clínicas e consultórios médicos, odontológico e de obstetrícia. Também dispõe de equipamentos de comunicação e educação, de espaços para palestras e oficinas, e de uma “ambulancha” para o resgate de doentes nos casos emergenciais. É em suas dependências que as comunidades locais (ribeirinhos, indígenas, quilombolas) são atendidas, incluindo os caboclos que moram nas casas sobre palafitas. Conhecidos como o povo das águas, estes últimos resultam de um processo de mestiçagem e aculturação dos índios com os colonizadores portugueses dos séculos 16 e 17.

O programa do PSA é muito mais do que o atendimento médico e odontológico oferecido no Abaré: inclui um mercado com artesanato e produtos típicos da região e um circo cujos espetáculos são feitos com a participação da comunidade.

A tarefa no interior da embarcação não é fácil, mas ali ninguém reclama. Nem do esturricante calor equatorial nem dos balanços e percalços do “caminho”. Ainda bem cedinho, às 5 horas, começa mais um dia de trabalho: enquanto uns tripulantes ligam os dois motores a diesel, outros supervisionam cada um dos ambientes do barco, conferindo se tudo está limpo e em ordem. Afinal, às 7h30, o Abaré começa a navegar, cumprindo o seu destino de dar aos povos da floresta o acesso aos programas de educação básica, como pré-natal, planejamento familiar, higiene bucal e saúde da criança, além de realizar exames e atendimentos médicos e ambulatoriais de rotina, vacinações e pequenas cirurgias.

 

Os lugares visitados pela embarcação dividem-se segundo a margem do rio. À direita está a floresta nacional Tapajós, enquanto a reserva extrativista Tapajós-Arapiuns fica à esquerda. Em média, a equipe realiza de 30 a 50 consultas em cada um dos períodos (manhã e tarde) em que presta assistência aos povoados que ali se localizam, muitos deles totalmente isolados do resto do mundo. Em dias mais tumultuados, esse número praticamente dobra. Mas nem mesmo o excesso de trabalho e as intempéries climáticas desviam o Abaré de sua rota e nem os seus integrantes do lema da ONG: promover saúde para o corpo e alegria para a alma.

Hoje tem palhaçada? Tem, sim senhor!

O Projeto Saúde e Alegria nasceu há 15 anos, quando o então jovem estudante de infectologia Eugênio Scannavino Neto colocou os pés na estrada rumo ao Norte do País. No Pará, constatou que o povo mocorongo (assim são chamados os nativos de Santarém e redondezas) era vítima de várias doenças por falta de informação sobre cuidados básicos com a saúde. Inicialmente, começou a ensinar as pessoas desses povoados a combater a desnutrição e a diarreia – até então uma das maiores responsáveis pelos altos índices de mortalidade infantil da Amazônia paraense.

Nas “aulas”, dava dicas simples de higiene pessoal, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, saúde bucal e condições sanitárias, explicando como usar o cloro para tratar a água, preparar o soro caseiro, tratar o lixo e o esgoto e construir pisos de cimento para impermeabilizar as fossas sanitárias. Ainda nos anos 80, ao lado da arte-educadora Márcia Silveira Gama, então sua companheira, Scannavino Neto fez uma parceria com a prefeitura local nas zonas rurais de Santarém, ampliando o número de pessoas beneficiadas pelas suas dicas práticas de saúde e educação.

Para garantir a continuidade dessas ações e a maior independência do programa, posteriormente, criou o Centro de Estudos Avançados de Promoção Social e Ambiental (Ceaps), conhecido popularmente como Projeto Saúde e Alegria. Já o Circo Mocorongo foi inspirado nas gincanas e circos mambembes da região. O espetáculo ainda agora é feito com a participação da comunidade visitada e inclui brincadeiras simples, para ensinar coisas como higiene bucal. Ao lado da educação dada no picadeiro do circo, a ONG foi formando ao longo dos anos uma rede de agentes comunitários e outra de radioamadores. São os seus integrantes que atualmente organizam as “aulas” de cuidado básico à população, além de tornarem mais ágeis as remoções de urgência.

Pelas águas do Tapajós, a tripulação segue a sua incessante trajetória, cumprindo com determinação a tarefa de prevenir doenças e, sobretudo, salvar vidas. Embora levem a missão extremamente a sério, os profissionais embarcados cumprem uma rotina movida a alegria: as orientações aos “passageiros” são dadas de forma lúdica. A ideia é que as crianças e até mesmo os adultos aprendam as lições brincando. É com esse espírito que o Abaré visita as comunidades ribeirinhas. Tão logo atraca, os marinheiros partem em voadeiras, como são chamadas as lanchas na Amazônia, para buscar os pacientes que se aglomeram na praia.

 

Diariamente, na popa do Abaré desembarcam dezenas de pessoas, entre crianças, idosos, gestantes e outros. Depois de terem se cadastrado, os pequenos são recebidos pelo palhaço Magnólio. Outras vezes, a recepção fica a cargo de uma palhacinha – na vida real, ela e Magnólio são arte-educadores. Juntos, eles riem, brincam, se descontraem. Depois da diversão, assistem a uma aula sobre limpeza de dentes, com a professora “dona Escova”, que ensina como devem fazer para escovar os dentes direitinho.

Vez ou outra, o silêncio das águas e o burburinho da mata amazônica são interrompidos por algo inesperado, como o ocorrido com Erito. O garoto tinha apenas nove meses quando seus pais foram pedir ajuda ao pessoal do Abaré, que estava atracado à direita do rio Tapajós. Detalhe: a canoa que conduzia a família tinha de atravessar da margem esquerda para a direita, percorrendo uma larga extensão do rio. No trajeto de mais de 15 quilômetros, a mãe, aflita, carregava no colo o bebê inconsciente, numa situação clínica crítica.

“Erito já estava com uma forte diarreia havia mais de um mês. Quando nós vimos que o caso dele era grave, fomos procurar um pajé. Ele benzeu, rezou, mas disse que não ia dar jeito”, conta Estrela dos Santos Oliveira, mãe do garoto. Foi o próprio pajé que aconselhou os pais a procurar auxílio na cidade. O casal, entretanto, não tinha como ir, pois morava longe, num povoado onde um barco para a cidade só passa duas vezes na semana. Para piorar, a distância para Santarém é de 15 horas de viagem.

No meio de tanto desespero, Lucivaldo Caetano Monteiro, o pai do menino, soube que o Abaré estava na outra margem do rio. O casal foi até lá. Monteiro recorda que já ouvira falar da embarcação, mas não “tinha muita fé nela, não”, somente passando a acreditar quando estava dentro dela vendo o filho ser socorrido. “Não tínhamos muita esperança que Erito fosse salvo, porém os doutores nos ajudaram muito. Graças a eles, meu filho está vivo”, emociona-se ele.

Desde que o PSA foi implantado, na década de 80, os altos índices de diarreia, verminoses, doenças de pele e enfermidades decorrentes da falta de vacinas diminuíram na região do Tapajós. Também a mortalidade infantil foi reduzida pela metade.

 

Diariamente, no Abaré desembarcam dezenas de pessoas, entre crianças, idosos e gestantes. Depois, os pequenos são recebidos por um palhaço, que na vida real é um arte-educador

No interior do Abaré, a equipe que testemunhou o episódio também não o esquece. Caso do médico Fábio Tozzi. Ele recorda que Erito foi praticamente ressuscitado, pois já estava havia vários dias em estado de coma, apresentando ainda um quadro infeccioso bastante grave proveniente de uma diarreia. O atendimento foi feito em diversas etapas até tirar a criança daquela situação crítica e depois transportá-la até Santarém, levando todos os equipamentos disponíveis no barco: de monitorização de saturação de oxigênio, eletrocardiograma, soro, secção venosa, antibiótico. Enfim, tudo que assegurasse a ida do menino até o hospital de Santarém, onde ele seria tratado com recursos mais adequados. “Depois, tivemos a grande satisfação de ver o menino vivo e feliz com seus pais”, recorda o médico.

Casos como o de Erito multiplicamse pela Amazônia paraense, trazendo alívio e auxílio para as comunidades que se espalham pela região. São pessoas simples. Gente humilde, para quem a visita regular do Abaré é a única forma de assistência médica disponível. Por isso, a chegada da embarcação nas praias fluviais do rio Tapajós traz sempre alegria. E, quando parte, deixa plantada a semente da esperança no olhar de quem fica.

 

 

PARA SABER MAIS

www.saudeealegria.org.br

 

 

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