Um desastre climático capaz de matar ocorre por semana, alerta ONU

Destruição causada pelo ciclone Idai em Tete, Moçambique: tipo de megaevento que põe em segundo plano desastres menos graves, mas também com potencial de matar. Foto: André Baptista/VOA/Wikimedia

Essas crises climáticas de pequena escala ocorrem muito mais rapidamente e com maior frequência do que se previa

 

A diplomata japonesa Mami Mizutori, representante especial do secretário-geral da ONU para a Redução de Riscos de Desastres, fez à repórter Fiona Harvey, do jornal “The Guardian”, um duro alerta a respeito das mudanças climáticas, apontando que desastres climáticos de “impacto menor” capazes de causar morte, deslocamento e sofrimento ocorrem agora a uma taxa de cerca de um por semana.

Segundo Mizutori, esses eventos menores – como tempestades, inundações e ondas de calor intensas – são muitas vezes ofuscados por desastres catastróficos como os dois ciclones que destruíram Moçambique no início deste ano. Ela ressalta que as crises climáticas de pequena escala estão acontecendo muito mais rapidamente e com mais frequência do que o previsto anteriormente.

A diplomata salienta que é essencial, portanto, que os governos parem de encarar a mudança climática como uma questão de longo prazo e, em vez disso, passem a investir em medidas de “adaptação e resiliência” destinadas a conter os efeitos dos eventos de impacto mais baixo. “Isso não é sobre o futuro, é sobre hoje”, ressalta ela.

 

Investir em resiliência

Grande parte da discussão em torno das mudanças climáticas centra-se na mitigação, ou na redução das emissões de gases do efeito estufa, em vez de adaptação, assinala Harvey em sua matéria. Esse tipo de abordagem facilita quantificações e evita incentivar uma falsa sensação de complacência em relação à urgência de reduzir as emissões, mas, para Mizutori, o mundo não está mais em um ponto em que podemos simplesmente escolher entre mitigação e adaptação.

“Falamos de uma emergência climática e de uma crise climática, mas se não conseguirmos enfrentar isso [a questão da adaptação aos efeitos], não sobreviveremos”, diz ela. “Precisamos olhar para os riscos de não investir em resiliência.”

Segundo um relatório de 2017 do Banco Mundial e da Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres, desastres naturais extremos causam danos globais de aproximadamente US$ 520 bilhões por ano, levando aproximadamente 26 milhões de pessoas à pobreza nesse período. Em seu artigo, Harvey mostra que o custo de implementação de infraestruturas que resistam ao aquecimento equivaleria a um custo adicional de apenas 3% ao ano, ou US$ 2,7 trilhões nos próximos 20 anos.

O aumento dos padrões de resiliência para infraestrutura, como habitação, transporte e redes de fornecimento de energia e água, pode ajudar as regiões vulneráveis ​​a evitar os piores efeitos das inundações, secas e outras formas de clima extremo. Diante dos preços relativamente baixos de tais medidas preventivas, Mizutori afirma que os investidores “não têm feito o suficiente” e que “a resiliência precisa se tornar uma mercadoria pela qual as pessoas vão pagar”.