Um soldado japonês para quem a Segunda Guerra não acabou

Estreia em Cannes, "Onoda" aborda o caso real de um militar que viveu quase 30 anos na selva das Filipinas, incapaz de aceitar que seu país perdera a guerra. Retorno final ao Japão só veio após uma temporada no Brasil

"Onoda": filme passa também pelo Brasil. Crédito: Divulgação

O filme Onoda: 10.000 nights in the jungle (Onoda: 10 mil noites na selva), sobre um soldado japonês que permaneceu na selva das Filipinas 29 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, estreou nesta quarta-feira (07/07) no Festival de Cinema de Cannes. Como antecipado, está recebendo críticas entusiásticas, e deverá ser lançado no Japão nos próximos meses – embora não se espere que vá despertar tanto interesse lá quanto no exterior.

A produção internacional escrita e dirigida pelo francês Arthur Harari aborda a saga de Hiroo Onoda, um segundo-tenente do Exército Imperial do Japão, treinado como oficial de inteligência antes de ser enviado à ilha de Lubang, em dezembro de 1944.

Ciente de que a guerra estava virando em favor dos Aliados, seu superior lhe ordena que resista à iminente invasão americana: sob nenhuma circunstância Onoda deve se render ou se suicidar. E este leva essas ordens absolutamente ao pé da letra.

Exemplo de lealdade ao imperador

Os defensores japoneses foram dizimados poucos dias após a invasão pelos Estados Unidos, em fevereiro de 1945. Onoda e um pequeno grupo de sobreviventes fogem para as colinas. Nos meses após a capitulação de seu país, os quatro combatentes restantes decidem que cada panfleto lançado por sobre as montanhas, exigindo que os soldados retardatários se rendam, é uma falsificação.

Um dos homens acaba se entregando às forças filipinas em 1950. Dois anos mais tarde, voltam a ser espalhadas cartas pela selva, instando-os a se renderem. Depois que seus companheiros são abatidos em choques com tropas de busca, Onoda segue sozinho a partir de 1959.

Será preciso seu comandante, o major Yoshimi Taniguchi, viajar a Lubang, em 9 de março de 1974, e lhe ordenar que cesse as operações imediatamente. Só aí o tenente entregou seu fuzil, juntamente com 500 cargas de munição, granadas de mão e uma faca. Embora ele e seus companheiros tenham matado 30 indivíduos em seus anos de guerrilha, ele é indultado pelo então presidente da Filipinas, Ferdinand Marcos.

Japão, Brasil e depois de volta

De volta ao Japão, Onoda tornou-se uma sensação, sendo ostentado como exemplo dos extremos a que soldados leais são capazes de ir em nome do imperador. No entanto, decepcionou-se com o país a que retornara após quase três décadas, queixando-se de que os valores tradicionais haviam desaparecido.

Ele escreveu um livro sobre suas experiências, antes de emigrar para o Brasil para criar gado. Cinco anos depois, regressou ao Japão, onde fundou uma escola ao ar livre para jovens.

“Eu estava no ginásio quando Onoda voltou ao Japão, e me lembro bem”, comentou à DW Yoichi Shimada, professor de Relações Internacionais da Universidade de Fukui. “A coisa que me impressionou mais foi como ele era ereto, olhava a gente direto no olho, parecia um homem com as qualidades de um soldado, e isso causava admiração.”

Dezenas de retardatários japoneses permaneceram nas regiões mais remotas da Ásia-Pacífico, nos anos após a guerra. Outro deles foi o sargento Shoichi Yokoi, que finalmente se rendeu em janeiro de 1972, na ilha pacífica de Guam. O último militar a confirmadamente entregar as armas foii Teruo Nakamura, na ilha indonésia de Morotai, em 18 dezembro de 1974.

Ao contrário de Onoda, Yokoi chorou ao dar uma coletiva de imprensa. “Não é próprio de um soldado japonês chorar em público”, critica Shimada. “Ele era fraco demais, mentalmente, e o povo ficou feliz de ver que Onoda havia resistido às provas de quase 30 anos sem quebrar. Seu espírito e seus princípios me impressionaram.” Hiroo Onoda morreu em 2014, aos 91 anos.

Elogio da masculinidade

Onoda, de Harari, é uma coprodução de firmas do Japão, Alemanha, França, Bélgica e Itália. O ator japonês Yuya Endo representa o soldado quando jovem, enquanto Kanji Tsuda assume o papel nos últimos anos de sua vida.

A crítica de cinema Kaori Shoji, do Japan Times, acredita que o filme atrairá grande atenção: “Acho que o Japão esteve fora do radar por alguns anos, e agora todo mundo está novamente de olhos em nós, por causa dos Jogos Olímpicos de Tóquio e da crise do coronavírus.”

“Um filme como esse – mostrando a guerra, as experiências desse homem solitário e a recepção que ele teve ao finalmente voltar para o Japão – vai certamente agradar muitos. É exótico, tem elementos exclusivamente japoneses, e acho que, numa época em que masculinidade saiu um pouco da moda, a masculinidade e bravura de Onoda vão se destacar.”

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