Variações no céu da boca influenciam a evolução das linguagens no mundo

Diferenças sutis na forma do céu da boca afetaram a precisão com que vogais estudadas foram articuladas

A forma do céu da boca ajudou a criar as diferenças sonoras que vemos nos idiomas. Foto: dozenist/Wikimedia

Por que os idiomas soam tão diferentes se todos os humanos têm praticamente os mesmos órgãos de fala (boca, lábios, língua e mandíbula)? Um estudo do Instituto Max Planck de Psicolinguística, em Nijmegen (Holanda), publicado recentemente no periódico “Nature Human Behavior”, mostra que o formato do palato (o chamado céu da boca) tem relação direta com essas diferenças.

A variação desses sons é evidente em crianças que nascem com fenda palatina: nelas, o céu da boca não é formado adequadamente, o que afeta sua fala. Mas não estava claro se as diferenças anatômicas sutis entre os falantes normais têm um papel nesse processo.

A linguagem e a fala também são moldadas pelo uso e transmissão repetidos de pais para filhos. À medida que a linguagem é passada para as novas gerações, pequenas diferenças podem às vezes ser amplificadas.

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Para investigarem o que ocorre na confluência de diferenças minúsculas na anatomia da área vocal com a transmissão cultural, os pesquisadores analisaram se a forma do palato duro (camada óssea do crânio localizada no alto da boca) pode influenciar o modo como as vogais foram aprendidas, articuladas e transmitidas através de gerações de agentes artificiais.

Modelo de computador

Como alterar a forma do palato duro em participantes humanos é etica e praticamente problemático, os cientistas optaram por adaptar um modelo de computador existente do trato vocal. A equipe importou formas reais do palato duro de mais de cem exames de ressonância magnética de participantes humanos para o modelo .

Com o aprendizado de máquina, eles treinaram agentes artificiais para articular cinco vogais comuns, como os sons “ee” e “oo” (aproximados, respectivamente, a “í” e “ú” em português). Em seguida, uma segunda geração tentou aprender essas vogais em especial, passadas então para a geração seguinte, num processo repetido 50 vezes.

“Isso simula um modelo simples de mudança de linguagem e evolução em um computador”, explica Rick Janssen, coautor do estudo e atualmente especialista em aprendizado de máquina na Alten e na Philips Research na Holanda.

As diferenças sutis na forma do palato duro influenciaram a precisão com que as cinco vogais foram articuladas. Deve-se ressaltar que a transmissão cultural dos sons da fala através das gerações amplificou essas pequenas diferenças, embora os agentes tentassem ativamente compensar sua forma do palato duro usando outros articuladores (como a língua).

Amplificação por gerações

“Mesmo pequenas variações na forma do nosso trato vocal podem afetar a maneira como falamos, e isso pode até ser amplificado – através das gerações – até o nível das diferenças entre dialetos e idiomas. Assim, a biologia é importante!”, explica o principal autor do estudo, Dan Dediu, atualmente no Laboratoire Dynamique Du Langage, da Université Lumière Lyon 2, na França.

Segundo os autores, esse resultado também nos ajuda a entender melhor os efeitos da variação anatômica na fala e como corrigi-la quando desejado, por exemplo, nos casos de fonoaudiologia, linguística forense, odontologia e recuperação pós-operatória.

Mas o mais é a importância da variação individual na fala e linguagem no contexto de nossas semelhanças universais. Scott Moisik, coautor do estudo e atualmente na Escola de Humanidades da Universidade Tecnológica Nanyang, em Cingapura, observa: “Enquanto somos todos humanos e fundamentalmente os mesmos, somos também indivíduos únicos, e podemos realmente ouvir isso”.

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