Vaticano abre arquivo secreto sobre a II Guerra Mundial

Pesquisadores terão acesso a 16 milhões de documentos pertencentes ao acervo, que contém informações sobre o controvertido papel do papa Pio XII durante o conflito

Pio XII, em tela de Luis Fernández-Laguna: figura que deve sair engrandecida com a liberação do acervo, segundo Luis Manuel Cuña Ramos. Crédito: Luis Fernández García/Wikimedia

Os arquivos do Vaticano que conservam a documentação do papa Pio XII (1939-1958) vão ser hoje (2 de março) tornados públicos, permitindo que se esclareça o silêncio do líder da igreja católica contra o nazismo.

O Vaticano confirmou há duas semanas a abertura dos arquivos, reforçando a ideia de que a consulta da documentação venha a esclarecer o silêncio do papa Pio XII, acusado nas últimas décadas de não ter levantado a voz contra o nazismo durante a II Guerra Mundial (1939-1945).

“A Igreja não tem medo da história. Pelo contrário”, disse o papa Francisco no dia 4 de março de 2019, quando anunciou a abertura da documentação relativa ao pontificado de Eugenio Pacelli (papa Pio XII), entre 1939 e 1958.

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Oitenta e cinco investigadores estão já inscritos para pesquisar 16 milhões de documentos pertencentes ao “arquivo secreto”, mas também de diferentes instituições do Estado do Vaticano que foram organizados nos últimos 14 anos.

Entre os investigadores estão historiadores do Museu do Holocausto (Washington), assim como de Israel, Alemanha, Itália, França, Rússia, Espanha e de vários países da América do Sul.

Silêncio sobre o nazismo

A decisão de abrir os arquivos tem sido comentada por historiadores e organizações judaicas que teorizam sobre um papa acusado de se ter calado perante o fascismo e o nazismo, notando inclusivamente que a poucos metros da cidade do Vaticano, no dia 16 de outubro de 1943, soldados nazistas capturaram 1.022 judeus, entre os quais 200 crianças e adolescentes, que poucos dias depois foram enviados para o complexo de extermínio de Auschwitz, instalado na Polônia.

Desses 1.022 judeus capturados perto do Vaticano, 17 pessoas sobreviveram.

Até o momento, o Vaticano apenas liberou, em 2004, abrir consulta a “Inter Arma Caritas”, o gabinete de informação sobre os prisioneiros de guerra instituído por Pio XII e que recolheu entre 1939 e 1947 fichas de 2,1 milhões de prisioneiros de guerra.

Em 1965, o Vaticano publicou documentação que acabou por ser coligida em 12 volumes – “Atos e documentos da Santa Sé relativos à II Guerra Mundial” – que continha material de arquivo sobre o pontificado de Pio XII.

Luis Manuel Cuña Ramos, um dos membros da equipe dos arquivos do Vaticano, disse que já veio dizer que “desta documentação vai sair muito engrandecida a figura de Pio XII”.

“Vamos deixar-nos de ideologias e de preconceitos e vamos à história. Este é o momento para os historiadores tirarem conclusões”, acrescentou.

No final do ano passado, o papa Francisco alterou formalmente o nome do Arquivo Secreto do Vaticano, que passou a se chamar Arquivo Apostólico do Vaticano.

 

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