Venezuela nega responsabilidade por vazamento de óleo, mas UFBA respalda suspeita

Empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) afirma não haver evidências de derramamentos de óleo nos campos de petróleo do país que possam ter atingido a região Nordeste, mas análises laboratoriais realizadas por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) corroboram a informação de que o material contaminante tem "forte correlação" com produto extraído na Venezuela

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Mancha de óleo em Aracaju / Adema/Governo do Sergipe

A empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) informou, nesta quinta-feira (10) que, até o momento, nenhum de seus clientes ou subsidiárias relatou a ocorrência de vazamento de petróleo de origem venezuelana próximo à costa brasileira.

Em nota divulgada esta manhã, a petrolífera afirma não haver evidências de derramamentos de óleo nos campos de petróleo da Venezuela que possam ter atingido a região Nordeste, causando danos ao ecossistema marinho brasileiro.

“Reiteramos que não recebemos nenhum relatório no qual nossos clientes e/ou subsidiárias relatam uma possível avaria ou vazamento nas proximidades da costa brasileira, cuja distância com nossas instalações de petróleo é de aproximadamente 6.650 km, via marítima”, sustenta a PDVSA.

No entanto, análises laboratoriais realizadas por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em amostras do óleo que já atingiu mais de 150 praias do Nordeste brasileiro corroboram a informação de que o material contaminante tem “forte correlação” com produto extraído na Venezuela.

Em parceria com especialistas da Universidade Federal de Sergipe (UFS), os pesquisadores do Centro de Excelência em Geoquímica do Petróleo, Energia e Meio Ambiente do Instituto de Geociências da UFBA recolheram 27 amostras de resíduos ao longo do litoral do Sergipe e da Bahia. Nove destas amostras foram submetidas a minuciosas análises geoquímicas.

A conclusão dos especialistas é de que o óleo analisado tem correlação com um dos tipos de petróleo produzido no país vizinho. Segundo os pesquisadores, nenhuma das variedades de petróleo produzidas no Brasil apresenta características semelhantes às encontradas nas amostras analisadas. A análise dos pesquisadores é compatível com a análise que a Petrobras fez.

Segundo os acadêmicos, o trabalho em laboratório permite identificar compostos químicos que são como uma espécie de impressão digital ou marca de procedência, pois revelam características físicas e químicas do material que se formam única e exclusivamente no local de onde foi extraído. São os chamados biomarcadores, identificados por meio da geoquímica forense.

“Através dos resultados das análises dos biomarcadores e dos isótopos estáveis de carbono, observou-se uma forte correlação do óleo derramado no mar com um dos tipos de petróleo produzido na Venezuela”, informa a UFBA, em nota. “Constatou-se ainda que nenhum dos petróleos gerados por matéria orgânica marinha produzidos no Brasil apresenta tal distribuição de biomarcadores e razão de isótopos de carbono”, acrescenta a universidade.

A associação entre o petróleo venezuelano e a substância que já poluiu trechos do litoral de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, tinha origem em estudos da Petrobras e chegou a ser mencionada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Também hoje (10), o ministro do Petróleo da Venezuela, Manuel Quevedo, descartou a hipótese de que a PDVSA ou o Estado venezuelano tenham qualquer responsabilidade pelo petróleo que atinge a costa brasileira.

Em Brasília, durante reunião ordinária do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) realizada hoje, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reafirmou que as autoridades brasileiras ainda desconhecem a origem do óleo, embora, segundo ele, o resultado das análises técnicas realizadas pela Petrobras apontem a “compatibilidade” entre o resíduo recolhido no litoral nordestino e o óleo venezuelano.

“A Marinha identificou todos os barcos que trafegaram pela costa brasileira e está investigando para saber qual é o possível barco [que pode ter derramado o óleo no mar]”, comentou o ministro, mencionando uma das três principais hipóteses para explicar a origem da substância: um vazamento acidental em alguma embarcação ainda não identificada; um derramamento criminoso do material por motivos desconhecidos ou a eventual limpeza do porão de um navio.

“O que sabemos é que o óleo não é brasileiro. E que a comparação das amostras é compatível com um derramamento de óleo venezuelano que houve no passado. Ou seja, tudo indica que é óleo venezuelano. Como este óleo chegou a nossa costa é a grande investigação”, disse Salles, referindo-se as apurações a cargo da Polícia Federal (PF), da Marinha e de órgãos ambientais.

Em nota enviada à Agência Brasil, o Ministério do Meio Ambiente esclarece que a indicação de origem venezuelana do petróleo se baseia em análise laboratorial. O ministério, no entanto, esclarece que nenhuma autoridade ou funcionário público afirmou que o caso seja de responsabilidade do Estado venezuelano ou da PDVSA.

“A hipótese aventada é que pode ter sido derramado a partir de navios que trafegaram ao longo da costa brasileira, e não necessariamente de campos do governo ditatorial venezuelano”, informa a pasta.