Vestígios do Futuro

Lyon, segunda cidade mais importante da França, é o palco da arquitetura de vanguarda global, sem prejuízo do cenário celebrado pelas construções renascentistas e por uma história singular.

Heitor e Silvia Reali

Primeira capital da Gália, construída pelos romanos há 2 mil anos, Lugdunum emana ares independentes até hoje. A sensação é perceptível a quem perambula pelas ruas de Lyon, seu nome atual, cuja cultura celebra uma eterna resistência contra todos os invasores e, ao mesmo tempo, um caráter cosmopolita. As batalhas acirradas contra os romanos, por exemplo, inspiraram a série em quadrinhos Asterix e Obelix, dos cartunistas Albert Uderzo e René Goscinny. Na Segunda Guerra Mundial Lyon consolidou-se como exemplo da luta contra a opressão, com Jean Moulin e os maquis da resistência antinazista travando combates por vielas e ruas labirínticas.

Localizada a duas horas de trem de Paris, sobre as colinas gêmeas Fourvière e Croix Rousse, na confl uência dos rios Ródano e Saône, Lyon já era um dos centros mais ricos da Europa nos séculos XVI e XVII, graças à manufatura da seda. Ponto fi nal da rota da seda iniciada na China, a cidade produzia em seus ateliês as mais belas tramas desse nobre material. Foi aí que, em 1804, Joseph-Marie Jacquard criou a máquina de tecer, utilizando, pela primeira vez, um cartão perfurado. Jacquard deu origem à automatização que transformou Lyon no centro mundial dessa tradição têxtil. Seu nome eternizou-se na complexa padronagem de entrelaçamento – o padrão jacquard – famoso entre as estamparias.

Vale lembrar outros franceses ilustres que nasceram em Lyon: André Ampère, pai do eletromagnetismo; Allan Kardec, o decodifi cador da doutrina espírita; os escritores Antoine de Saint-Exupéry e François Rabelais; e, mais recentemente, o rei da música eletrônica, Jean Michel Jarre, e o campeão de Fórmula 1, Alain Prost. Viajar por Lyon é incursionar pela memória do passado, mas a passagem do tempo pode ser sentida, e vista, pelo panorama arquitetônico que permeia a relação do homem com o habitat; nas ruas da cidade vê-se a história e se antecipa o futuro.

Arquitetura e revitalização

Pelo viés da arquitetura, os olhares dos viajantes acompanham o crescimento e o desenvolvimento de uma cidade que aos poucos, e à sua maneira, foi se constituindo em centro urbano. No século XVI Lyon viu nascer o conjunto renascentista mais importante da França, o Vieux Lyon, hoje tombado como Patrimônio Mundial pela Unesco. Com o advento do comércio da seda, e favorecendo um grande número de tecelões que trabalhavam em casa, surgiram edifícios com pé-direito alto, para abrigar as grandes máquinas de tecer.

Essa foi a origem dos primeiros conjuntos habitacionais lyoneses, os quais fi zeram surgir os traboules, as escadarias e passagens sinuosas, em sua maioria cobertas, que permitem cruzar de uma rua a outra por meio de uma sucessão de pátios internos. No rodapé da história, vale lembrar que, na Segunda Guerra Mundial, os 300 traboules de Lyon foram vitais para a sobrevivência de muitos judeus e resistentes que, por conhecerem bem essas passagens, fugiam das perseguições nazistas.

Durante séculos a convivência entre a arquitetura clássica, romana, gótica, barroca e renascentista foi o cartão de visita da cidade. Já no final do século XVIII os projetos de Jacques-Germain Souflot e Michel-Antoine Perrache iniciaram a modernização urbana, desenhando novos bairros e vias de acesso.

Contudo, foi a partir da década de 1980 que a cidade conquistou a posição de palco para os sofisticados projetos arquitetônicos que pontuam a sua paisagem. Ancorados em museus, teatros e outras construções culturais, novos edifícios surgiram sob o signo de grandes espaços e da utilização para diferentes públicos e usos. Em meio a edifícios medievais surgem exemplares da arquitetura de vanguarda criando contrastes vibrantes, sem conflitar o clássico com o moderno, a novidade com a tradição.

Antiga e moderna

 

A arquitetura virou uma das fontes de inspiração que motivam o turismo: as linhas inesperadas, o uso de novos materiais, o emprego das cores, as formas esculturais, os estilos e os espaços inusitados convidam os viajantes de todos os países a viver novas experiências sensoriais. Em Lyon, não faltam motivos.

A Estação Ferroviária do TGV (train de grand vitesse, trem de alta velocidade), no aeroporto da cidade, foi desenhada, em 1994, pelo espanhol Santiago Calatrava. Sua estrutura de formas arrojadas se assemelha a um enorme pássaro prestes a voar. La Cité Internationale, toda em estrutura de ferro e cristal, surgiu ao lado do antigo edifício do Museu de Arte Moderna, como um conjunto arquitetônico que reúne anfiteatro, cinema, restaurantes, hotéis, lojas, museu e apartamentos, projetados pelo arquiteto italiano Renzo Piano. Suas obras, concluídas em 2007, se tornaram um dos ícones de Lyon.

Considerada a joia dos projetos culturais da cidade, a refiguração da Ópera Nacional de Lyon, com fachada neoclássica de 1830, é projeto do francês Jean Nouvel. O arquiteto acrescentou um domo de estrutura metálica e vidro sobre a antiga construção. A fim de aproveitar a área do terraço ornamentado com estátuas relativas à música, Novel instalou ali um restaurante com vista panorâmica da cidade.

Também merecem ser citadas a Cidade das Estrelas, assinada por Jean Renaudie, a Praça de Terraux, do designer Daniel Buren, o Pavillion des Salins (conhecido como “cubo laranja”), dos arquitetos Dominique Jakob e Brendan Mac Farlane, e a moderna Place de Francfort. Mas não para por aí. Em 2011 foi inaugurada a nova sede da região Rhône-Alpes, onde está Lyon, para abrigar os seus 156 conselheiros municipais. Previsto para 2014, o Musée des Confluences, dedicado à ciência e às sociedades, do escritório austríaco Coop Himmelb(l)au, promete ser uma atração comparada ao Guggenheim de Bilbao, na Espanha.

Além das referências históricas e das obras grandiosas, destacam-se edifícios menores, mas com projetos ousados, que abrigam lojas, galerias de arte e restaurantes, localizados nas ruas centrais da cidade. Outro ponto importante são os espaços públicos como praças, parques e passeios à beira-rio, que foram revitalizados para deixá-los mais prazerosos, convidando as pessoas a se encontrar. É pela arquitetura que os viajantes descobrem a atual e moderna Lyon, uma antecipação do século XXI.

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