Violência extremista em Moçambique ameaça vizinhos

Em apenas três anos, uma insurgência islâmica no norte do país matou cerca de 2,6 mil pessoas. Para especialistas, ataque da semana passada à cidade de Palma deve afetar a região.Em 5 de outubro de 2017, antes do amanhecer, homens armados realizaram um ataque a três delegacias de polícia em Mocímboa da Praia, um distrito na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Os agressores mataram 17 pessoas e fugiram com armas e munições. Aos moradores, eles teriam dito que não acreditam na educação ocidental e que não pagariam impostos.

Desde aquela primeira emboscada, os ataques se espalharam por vários bairros da região e se tornaram mais frequentes. O ataque da última quarta-feira (24/03) ceifou dezenas de vidas e durou vários dias. Três anos depois, o mistério em torno da identidade e motivação deste grupo persiste. Localmente, eles são conhecidos como al-Shabab (A Juventude), embora não tenham nenhuma conexão conhecida com o grupo jihadista da Somália de nome semelhante.

Segundo Sergio Inacio Chichava, investigador sênior do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos (IESE) de Moçambique, a esta altura as autoridades do país já devem estar cientes de quem são estes agressores. “O governo tem inteligência suficiente para dizer quem é o grupo que está atacando Cabo Delgado e quais são as suas intenções”, disse Chichava à DW. “Este grupo nunca escondeu, desde o início, que pretende impor a sharia”.

Quem são os insurgentes islâmicos de Moçambique?

“Essa é a grande questão”, disse Adriano Nuvunga, diretor executivo do Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD) em Moçambique. “Nos últimos três anos, todo mundo tem perguntado quem são essas pessoas. Há um entendimento de que ressentimentos locais impulsionam este conflito, que pode ter sido apropriado pela dinâmica terrorista internacional”, disse Nuvunga à DW.

Nuvunga, ativista de direitos humanos, atribui o conflito à marginalização e à extração de recursos naturais pelas elites sem desenvolvimento local. A gigante francesa de energia Total, por exemplo, investiu 20 bilhões de dólares (R$ 115 bilhões) na extração de gás natural liquefeito em Cabo Delgado. Uma rede de atividades econômicas ilícitas, incluindo tráfico de drogas, brutalidade e violação dos direitos humanos por diferentes interesses de pessoas politicamente expostas, também pode ter contribuído.

Já em 2016, falava-se de grupos islâmicos radicais em Moçambique, disse Chichava. Especialistas acreditam, contudo, que a mobilização começou uma década antes.

Por volta de 2007, líderes muçulmanos locais disseram ter notado uma “mudança” no comportamento de alguns jovens muçulmanos. O grupo começara a praticar uma forma diferente de Islã, ingerindo bebidas alcoólicas e entrando de sapatos em mesquitas. Mais tarde, esses jovens marginalizados formaram a Ansar al-Sunna e rapidamente adotaram uma versão mais rígida do Islã.

De acordo com fontes da inteligência militar no local, o grupo tem atualmente cerca de 4,5 mil membros, dos quais 2 mil portam armas, informou a agência de notícias AFP. Também se acredita que o grupo seja formado por combatentes estrangeiros da Tanzânia e da Somália, mas o papel deles não é claro.

Após o ataque de 5 de outubro de 2017, o grupo divulgou um vídeo afirmando sua intenção de transformar a região de Cabo Delgado, rica em gás natural, em um califado.

Moçambique planeja começar a exportar gás natural de Cabo Delgado já em 2022. Mas a crescente presença militar de insurgentes representa uma grave ameaça aos megaprojetos. De acordo com a agência americana de estatísticas Armed Conflict Location and Event Data (ACLED), a violência já matou pelo menos 2,6 mil pessoas, metade delas civis, enquanto mais de 700 mil fugiram de suas casas.

Explicações confusas do governo

O governo de Moçambique procurou explicar a identidade e os objetivos dos agressores brutais através de quatro hipóteses diferentes. A princípio, Maputo admitiu que os “insurgentes” eram indivíduos com o objetivo de instalar um Estado islâmico. Em 2019, o principal grupo extremista Ansaru al-Sunna chegou inclusive a declarar sua lealdade ao chamado “Estado Islâmico” (EI).

As autoridades então mudaram a história e apontaram para ex-mineiros de Montepuz, que supostamente estariam sendo manipulados por estrangeiros da Tanzânia e da República Democrática do Congo. As autoridades teriam expulsado os estrangeiros das minas por conduzirem operações ilícitas.

Outra explicação foi que um grupo de empresários moçambicanos de Beira teria financiado os insurgentes por estarem supostamente insatisfeitos com a luta do governo contra o comércio ilegal de madeira. Por último, disseram que se tratava de uma “guerra travada por forças externas em conluio com alguns moçambicanos”.

Para o pesquisador Eric Morier-Genoud, ainda há “muito silêncio” por parte das autoridades. “Seria bom que o governo, o exército e a polícia dessem uma explicação oficial substancial sobre o que está acontecendo em Cabo Delgado e fizessem briefings regulares sobre a situação,” disse Morier-Genoud à DW. “Dessa forma, o governo poderia controlar a narrativa e as pessoas ficariam mais esclarecidas e mais tranquilas”, acrescentou o acadêmico da Queen's University, em Belfast.

Ameaça a países vizinhos

A violência em Moçambique gerou inquietação nos vizinhos Tanzânia, África do Sul e Zimbábue. “Já se vê um transbordamento para a Tanzânia”, disse Alex Vines, chefe do programa para a África da ONG Chatham House.

No início deste mês, os Estados Unidos designaram o EI de Moçambique como uma organização terrorista estrangeira. O país também nomeou Abu Yasir Hassan – um cidadão da Tanzânia – como líder do grupo, além de ter começado neste mês a treinar forças moçambicanas em operações de contra-insurgência.

“É importante relembrar que embora se trate de um problema central de Moçambique, é também uma questão regional”, disse Vines, acrescentando que a coordenação e cooperação entre Moçambique e Tanzânia tem melhorado neste assunto em particular.

No entanto, Jasmine Opperman, pesquisadora da ACLED, vê o apoio dos EUA como um “passo real para expandir a influência e a presença” americana na região. “É uma tentativa clara dos EUA de conquistarem o apreço de Moçambique e de vários países de África”, disse Opperman à DW. Ela afirmou ainda estar preocupada com “a internacionalização de Cabo Delgado, que pode, por sua vez, ignorar as raízes locais do problema. “Isso dá ao 'Estado Islâmico ' um status em Moçambique que ele não tem”.

Silêncio por parte da SADC

A Comunidade de Desenvolvimento da África do Sul (SADC) tem se mantido em silêncio sobre os desafios de segurança de Moçambique. “O silêncio da SADC é decepcionante”, disse o ativista de direitos Adriano Nuvunga. “Não só a sua incapacidade de agir proativamente em apoio a Moçambique no combate à violência extremista no norte do país, mas também o mero silêncio quando se trata de solidariedade”.

Para Alex Vines, conselheiros militares de membros da SADC, África do Sul, Tanzânia e Zimbabue poderiam ser integrados nas forças moçambicanas. “Uma força total encontraria dificuldades. Este não é o tipo de conflito com o qual a SADC tem muita experiência,” disse Vines.

A pandemia de covid-19 e os desafios fiscais que atingiram os países da SADC dificultam a construção de uma força unida pelo organismo regional.

Para Nuvunga, é lamentável que o bloco regional não tenha ampliado a voz de Moçambique na mobilização da comunidade internacional para apoiar a sua luta. “Acho assustador”, disse o ativista moçambicano.

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