Vírus ‘bom’ enfrenta com sucesso infecção causada por superbactéria

Experimento australiano teve êxito ao combater com vírus a bactéria causadora de uma doença que causa feridas no pé de diabéticos e pode levá-los à morte

Pé diabético: os resultados da nova terapia foram iguais ou superiores aos dos tratamentos convencionais. Crédito: Pflegewiki-User ApoPfleger/GFDL/Wikimedia

Um novo estudo mostra que os vírus podem ser usados ​​para salvar vidas, desenvolvendo o uso potencial de bacteriófagos em ataduras para tratar infecções por estafilococos com risco de vida que podem não responder aos antibióticos tradicionais. Um artigo sobre esse trabalho foi publicado na revista “BMC Microbiology”.

Tendo como alvo o Staphylococcus aureus multirresistente em úlcera do pé diabético, pesquisadores de microbiologia da Universidade Flinders (Austrália) juntaram-se a especialistas em doenças infecciosas e parceiros do ramo farmacêutico para mostrar a utilidade de uma possível terapia de “coquetel de fagos” em infecções com feridas.

Um fago (ou bacteriófago) é um vírus capaz de infectar uma célula bacteriana. Ele pode ser usado em diversas aplicações médicas, inclusive como terapia contra “superbactérias”.

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Os bacteriófagos (fagos, vírus que infectam bactérias) representam uma terapia alternativa ou adjuvante aos antibióticos para enfrentar o S. aureus. Esse patógeno comum é particularmente virulento, frequentemente considerado resistente e um limitador às opções de tratamento antimicrobiano.

Viabilidade anual

“As úlceras do pé diabético são muito perigosas. Quando infectadas, podem levar à amputação e até à morte”, diz Peter Speck, professor associado da Universidade Flinders e secretário da Sociedade Australiana de Virologia.

“O próximo passo em nossa pesquisa é vincular fagos a um curativo para fazer um autêntico curativo antibacteriano, com atividade específica contra o estafilococo. Existe tecnologia para fazer esse curativo, com a grande vantagem de que os fagos vinculados permanecem viáveis ​​por um ano, mesmo quando armazenados em temperatura ambiente. Isso torna tal abordagem ideal para uso em hospitais e clínicas – mesmo em ambientes rurais e remotos.”

Coautor do artigo, o dr. Legesse Garedew Kifelew, da Universidade Flinders, diz que os resultados do tratamento em camundongos foram muito promissores.

“Esse estudo demonstra que a terapia fágica pode ser uma alternativa potencial no combate a infecções bacterianas resistentes a antibióticos”, diz Kifelew, que trabalha no gerenciamento de doenças infecciosas no Queen Elizabeth Hospital e tem vínculos com o Millennium Medical College do Hospital St. Paul, em Adis Abeba (Etiópia).

Resultados melhores

“Os fagos reduziram efetivamente a carga bacteriana e melhoraram significativamente a cicatrização de feridas na infecção por S. aureus resistente a vários medicamentos. É algo semelhante ou superior ao tratamento antibiótico atualmente prescrito”, diz ele.

Com o aumento do número de casos de diabetes, a carga global de úlceras do pé diabético está afetando até 26,1 milhões de pessoas a cada ano. Essas úlceras são a causa de quase 90% das amputações de membros. A taxa de mortalidade em cinco anos após a amputação de pés devido ao problema foi estimada em até 74%.

Com base nos dados de prevalência de 2015 da Federação Internacional de Diabetes, estima-se que as úlceras do pé diabético se desenvolvam anualmente numa faixa entre 9,1 milhões e 26,1 milhões de pessoas com diabetes em todo o mundo.

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