Viver sobre a água

Marina Klynk
Amir Klynk é navegador, economista, empresário e um estudioso informal das cidades

Faço barcos sempre pensando em muita autonomia, porque as minhas viagens são longas, e no final cada barco meu é uma residência flutuante, entre outras coisas. Assim, acabei me interessando pelo tema de morar sobre a água, que no Brasil é quase um tabu. Embora o nosso país tenha um número considerável de represas, de grandes espelhos d’água, ainda ignoramos todas as suas possibilidades de utilização. Nossas instalações de acesso à água ainda são muito precárias, porque não temos essa cultura da conexão da borda d’água – muitos urbanistas e gestores públicos brasileiros nem sabem o que é isso.

Em vez de ficar falando, eu gosto de executar, e há cerca de 20 anos comecei a pensar em soluções para flutuantes. Hoje, lido com atracadouros, marinas. Desenvolvemos um sistema de plataformas flutuantes que virou padrão no Brasil e é um sistema muito interessante, porque é mais resistente do que os sistemas americanos e europeus e tem um custo de fabricação menor. Havia aqui o hábito de se fazer estruturas flutuantes muito mambembes, com galões plásticos reutilizados, e começamos a usar critérios que estão normatizados em outros países, mas empregando uma solução mais robusta. Então, usamos poliestireno expandido (EPS), o isopor, revestido com um encerado vinílico, uma solução que barateou muito o custo, e em cima desses blocos que compõem o flutuador pusemos lajes de concreto pesadas, para dar peso e apresentação estética.

Ao conectar essas plataformas, fazemos superfícies onde se podem edificar escolas, postos de saúde, residências flutuantes. Há 15 anos, o meu escritório em Paraty (RJ) tem estação elétrica de alta tensão, fábrica de gelo, oficina, departamento de pessoal, tudo isso flutuante.

A tradição de instalações flutuantes como moradias existe nos países escandinavos, na Holanda, no Canadá e nos Estados Unidos. Originariamente, eram habitações de pessoas de baixíssima renda. Elas são encontradas em Portland, San Francisco, Seattle (EUA) e Vancouver (Canadá), por exemplo. No Canadá, existem bairros inteiros flutuantes. Se você procurar na internet o termo “floating homes”, vai descobrir um mercado imobiliário gigantesco. Há marinas de residências flutuantes, já com toda a infraestrutura para você ter uma casa de custo muito mais baixo e muito mais agradável.

O Brasil tem grandes áreas de ocupação irregular, como na Baixada Fluminense, na Baixada Santista (o Guarujá deve ser a cidade que, proporcionalmente, deve ter o maior número de favelas do Brasil), e um grande número dessas comunidades está em áreas alagadas, de mangue. Aí existe uma espécie de hipocrisia ambiental. Não se pode ocupar o mangue para nada, mas a população de baixa renda acaba sendo autorizada a fazer ocupações; depois, a prefeitura vai lá e aterra as ruas em torno das quadras e está gerado um problema de saúde pública quando há chuva, porque se formam “lagoas habitadas”, com péssima salubridade.

Não temos a tradição naval, marítima de outros países – talvez por tanta fartura de mar, rio e água, o brasileiro tem medo do mar e deu as costas para ele. Mas existem muitos lugares interessantes aqui para implantar instalações flu­tuantes, como o Pantanal, as principais bacias hidrográficas… Esses lugares comportariam tais soluções, de modo complementar ao urbanismo tradicional. Por isso, defendo muito essa tese das instalações flutuantes. Não sei se ela vai pegar aqui, mas acredito muito na ideia.

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