Volta ao mundo

Pequeno grande inimigo

Michael Pettigrew
O Aedes aegypti: manancial de problemas para os humanos em menos de 1 cm de comprimento

O mosquito, preto e com manchas brancas no corpo e nas patas, tem menos de um centímetro. O estrago que faz, porém, é enorme. Originário da África, o Aedes aegypti vive em zonas urbanas dos trópicos, alimenta-se de sangue humano, reproduz-se em água limpa e parada e pode transmitir dengue, febre amarela, zika e chikungunya. Ele causou a epidemia de febre amarela no Brasil no início do século 20, e o controle da sua população levou o país a erradicar o inseto, em 1955. Mas como não foi eliminado em outros lugares e a vigilância caiu muito aqui, ele voltou no fim dos anos 1960 e se espalhou pelo Brasil. Os números só pioram: os casos de dengue de 1º a 23 de janeiro deste ano no país, por exemplo, subiram 48% em relação ao mesmo período de 2015, ano recordista de notificações (73.872 ante 49.857). Como os hospitais ainda não são obrigados a informar ao Ministério da Saúde os casos de zika atendidos, não há estatísticas confiáveis sobre essa doença, que pode estar ligada à microcefalia e a uma síndrome que causa paralisia. Só em 13 de fevereiro o governo federal tomou uma atitude mais firme sobre o tema, enviando 220 mil militares para visitar 3 milhões de famílias em 350 cidades, no chamado Dia D de combate ao mosquito. Seis dias depois, uma campanha do Ministério da Educação levou o tema às escolas, em especial às de 115 municípios considerados prioritários pelo Ministério da Saúde. Mas é preciso haver muito mais ações de controle dos focos e consciência da sociedade para que diminuam a população do inseto e os casos de doenças que ele provoca.

 

Emoções decodificadas

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Os cavalos sabem reconhecer emoções humanas, afirmam pesquisadores da Universidade de Sussex (Inglaterra). Eles fizeram dois retratos de um homem: no primeiro, ele sorri e exibe os dentes; no outro, ele também mostra os dentes, mas está bravo. Os 28 cavalos da região que viram os retratos tiveram sempre a mesma reação: observavam a face carrancuda com o olho esquerdo, enquanto seu ritmo cardíaco subia. Os cães fazem o mesmo, porque é o hemisfério cerebral direito, receptor das informações do olho esquerdo, que lida com estímulos ameaçadores ou assustadores. O caso dos cavalos, porém, é diferente, porque eles também conseguem demonstrar emoção facial. O estudo saiu em fevereiro na revista Biology Letters.

 

A importância do suspiro

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De acordo com pesquisadores da Universidade Stanford (EUA), suspirar não significa apenas que a pessoa está deprimida, triste ou desesperada. O suspiro é um reflexo fundamental para o funcionamento do corpo, ajudando a preservar a função pulmonar. Suspiramos cerca de 12 vezes por hora. Em artigo publicado em fevereiro na revista Nature, os cientistas mostram que o ato de suspirar está ligado a dois grupos de células nervosas no tronco encefálico. Eles atuam em resposta a estímulos inconscientes para preencher o máximo possível os alvéolos, que respondem pelo trânsito do oxigênio e do gás carbônico pelo corpo e que vez por outra falham.

 

Genética da esquizofrenia

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Até recentemente, tratava-se apenas um sintoma específico da esquizofrenia, a psicose, mas isso deve mudar com uma descoberta divulgada em janeiro na revista Nature. Segundo pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês) e da Universidade Harvard, nos EUA, as pessoas têm mais risco de apresentar esquizofrenia se possuem genes que levam à perda excessiva de conexões cerebrais saudáveis na adolescência. O estudo indica a ligação da doença com variações específicas do gene C4, que integra o sistema imunológico. Sua estrutura varia muito entre diversas pessoas, diferentemente da maioria dos genes. Uma análise revelou que quem tem formas particulares do C4 apresenta uma expressão maior dele, o que aumenta o risco de desenvolver esquizofrenia.

 

O ano mais quente

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A Nasa e a Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA anunciaram em janeiro que 2015 foi o ano mais quente já registrado, superando o recorde de 2014 em 0,16°C. A média de 2015 foi 0,90°C acima da média do século 20. Dezembro foi o mês mais quente dos últimos 136 anos, e dez meses de 2015 bateram recordes em relação aos mesmos períodos em outros anos. Mesmo com a influência aquecedora do El Niño, os cientistas têm certeza de que as emissões antropogênicas são as principais responsáveis pelo aumento, o que reforça a necessidade de implementar cortes das emissões de carbono definida na COP21, em Paris. A situação pode piorar: o Met Office, órgão meteorológico do Reino Unido, previu em janeiro que 2016 quebrará novos recordes e a temperatura global deverá subir até 2019.

 

Esperança no combate ao câncer

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Testes feitos usando-se um tratamento genético para o câncer obtiveram resultados tão bons que despertaram a atenção da comunidade médica ainda antes de ser publicados em uma revista científica. O tema foi abordado na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência pelo pesquisador Stanley Riddell, do Fred Hutchinson Cancer Research Center (estado de Washington), que liderou os estudos. Os cientistas selecionaram dezenas de pacientes com diferentes tipos de câncer no sangue, cuja expectativa de vida era de apenas alguns meses.

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Eles retiraram células do sistema imunológico dos doentes chamadas de linfócitos T, ou células T (imagem acima), reprogramaram-nas com moléculas “receptoras” direcionadas ao câncer diagnosticado e as reinjetaram nos pacientes. Em um dos estudos, os sintomas da doença sumiram em 94% das pessoas com leucemia linfoblástica aguda. Mais de 80% dos pacientes apresentaram reações positivas e em mais de metade desses houve remissão total da doença. Riddell classificou os resultados como “sem precedentes” na medicina, mas recomenda cautela. Segundo ele, os efeitos colaterais do tratamento, como uma sobrecarga do sistema imunológico, foram notados severamente em cerca de 20 pessoas. Também é preciso ver como o tratamento atua nos tumores, que são mais densos. Mas os senões não reduzem a grande expectativa que cerca o assunto.

 

9 gigawatts tem atualmente o Brasil de potência eólica instalada na matriz elétrica nacional, de acordo com a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). Segundo Elbia Gannoum, presidente da entidade, em termos de geração efetiva, a energia eólica já representa uma usina de Belo Monte. Prevê-se que mais 10 GW serão instalados até 2020.

 

Edgar Mitchell (1930-2016)

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O astronauta americano Edgar Mitchell, falecido em 4 de fevereiro, não entrou para a história apenas por ter sido o sexto homem a pisar na Lua: além da ciência, ele tinha um grande interesse por assuntos espirituais, e o esforço para conciliar tudo isso pautou boa parte da sua vida. Cinco anos após ingressar na Nasa, ele viajou para a Lua na expedição Apollo 14, em 1971, e lá fez vários experimentos científicos, ao lado de Alan Shepard. Durante a viagem, enquanto Shepard e Stuart Roosa (que ficou na órbita lunar) dormiam, Mitchell disse ter feito testes extrassensoriais, além de viver uma experiência mística que mudou sua vida. Após o fim do programa Apollo, em 1972, Mitchell – que dizia acreditar na existência de alienígenas, mesmo sem ter visto um – deixou a Nasa e fundou o Instituto de Ciências Noéticas, na Califórnia, dedicado a estudar “o universo da consciência”. Ele escreveu vários livros, como Psychic Exploration (1974), The Way of the Explorer (1996) e Earthrise (2014).

 

Morte ao escritor

Em fevereiro, 40 agências noticiosas do governo do Irã anunciaram ter levantado US$ 600 mil para acrescentar à soma destinada a quem matar o escritor inglês Salman Rushdie. Em 1989, Rushdie lançou o livro Os Versos Satânicos, que o aiatolá Ruhollah Khomeini, primeiro líder da república islâmica, considerou uma blasfêmia ao Islã. Khomeini lançou então uma fatwa (decreto religioso) condenando o escritor à morte. Quem cometer o assassinato pode receber uma recompensa de milhões de dólares.

 

Constelação Bowie

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A rádio Studio Brussels e o Observatório Público Mira, da Bélgica, homenagearam o astro inglês David Bowie, morto em janeiro, registrando para ele uma constelação “própria”. Ela é composta por sete estrelas próximas de Marte no céu quando o artista faleceu e formam um raio como o de Ziggy Stardust, o roqueiro alienígena criado por Bowie: Sigma Librae, Spica, Alpha Virginis, Zeta Centauri, SAO 204 132, SAO 241 641, Beta Triangulum Autrini e Delta Octantis. A constelação é parte do projeto Stardust for Bowie (stardustforbowie.be), com o qual os fãs podem interagir clicando na área da constelação mostrada no site e adicionando sua canção favorita de Bowie, além de uma mensagem individual para ele.

 

Xadrez proibido

Para o grão-mufti saudita, o xadrez é “perda de tempo”
Para o grão-mufti saudita, o xadrez é “perda de tempo”

O grão-mufti (principal líder religioso islâmico) da Arábia Saudita, xeique Abdulaziz al-Sheikh, proibiu o xadrez no país em janeiro, alegando que ele incentiva apostas em dinheiro e é uma perda de tempo. O aiatolá Ruhollah Khomeini também havia vetado o jogo após a Revolução Islâmica de 1979 no Irã, mas no fim da vida concluiu que havia exagerado no caso e desfez a proibição. A fatwa (sentença) do grão-mufti talvez não entre em vigor: como ela veio em resposta a uma consulta específica, pode significar apenas uma opinião particular, em vez de um decreto formal. Os enxadristas do país, pelo menos, não se assustaram com a proibição e o presidente da Federação Saudita, Musa bin Thaily, promete prosseguir com o cronograma de torneios nacionais.

 

Beleza realista

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Mais vendida boneca do mundo, a ultralongilínea e magérrima Barbie é criticada há muito tempo por representar um tipo de beleza insalubre e inexistente no mundo real. A americana Mattel, fabricante do brinquedo, mantinha o mesmo modelo básico desde 1959, mas enfim reviu seus conceitos e, em janeiro, apresentou uma nova linha de Barbies, a Fashionista 2016, que reflete uma “visão mais ampla” de beleza. A linha apresenta três novos tipos – delicada, curvilínea e alta –, sete tons de pele e 24 penteados diferentes, de modo a representar corpos mais saudáveis e associados a mulheres de carne e osso. A concessão ao realismo pode ajudar nas vendas globais, que despencaram 14% no terceiro trimestre de 2015.

 

Violência ancestral

Ossada achada no Quênia: evidência de que a guerra é ancestral
Ossada achada no Quênia: evidência de que a guerra é ancestral

Há cerca de 10 mil anos, uma mulher grávida e pelo menos outros 27 membros de sua tribo foram agredidos, amarrados e jogados para morrer em uma lagoa em Nataruk, no norte do atual Quênia. Os fósseis, achados há quatro anos por cientistas da Universidade de Cambridge (Inglaterra), são a prova mais antiga de episódios de violência e guerra entre grupos nômades de caçadores-coletores. Segundo Marta Mirazón Lahr, líder do estudo, o massacre pode ter sido motivado pela posse de recursos como território, mulheres ou alimentos. “Nataruk pode ser a evidência de uma resposta hostil padrão a um encontro entre dois grupos sociais naquela época”, afirma. A descoberta foi publicada em janeiro na revista Nature.

 

Genes editados

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O governo britânico adotou em fevereiro uma medida polêmica: sua Autoridade de Embriologia e Fertilização Humana (HFEA, na sigla em inglês) acatou um pedido da pesquisadora Kathy Niakan, do Instituto Francis Crick de Londres, para manipulação de genes em embriões humanos. Kathy embasou seu pedido no interesse em investigar os primeiros momentos da concepção humana para descobrir por que ocorrem os abortos. Pela decisão, os cientistas poderão manipular o DNA de embriões nos primeiros sete dias de fertilização. Os embriões usados no estudo, porém, não poderão ser implantados em mulheres. A tecnologia usada por Kathy, denominada CRISPR-Cas9, é considerada um “divisor de águas” no meio científico, por dar condições de “editar” características de um bebê.

 

Flor espacial

A zínia fotografada por Kelly: “outras formas de vida” no espaço
A zínia fotografada por Kelly: “outras formas de vida” no espaço

Depois do sucesso no plantio de alface, a horta da Estação Espacial Internacional deu sua primeira flor. Em janeiro, o astronauta Scott Kelly, da Nasa, a agência espacial americana, publicou em seu Twitter a foto de uma zínia laranja e acrescentou que “há outras formas de vida no espaço”. A agricultura espacial tem suas dificuldades, como altos níveis de radiação e temperaturas extremas, mas, com os avanços do sistema de cultivo de plantas da Nasa, há planos para colher tomates na estação ainda em 2017. O projeto faz parte de uma iniciativa para cultivar alimentos sustentáveis em uma futura missão para Marte.

 

23% foi a redução do número de abelhas selvagens observado no território continental dos Estados Unidos entre 2008 e 2013, afirmam pesquisadores americanos em estudo divulgado em dezembro. A queda tem sido estimulada pela conversão do habitat natural desses insetos em terra para cultivo, sobretudo de milho, a partir do qual se obtém biocombustível.

 

O maior sistema solar

O gigante gasoso 2MASS J2126-8140: a 1 trilhão de km do seu sol
O gigante gasoso 2MASS J2126-8140: a 1 trilhão de km do seu sol

Cientistas australianos anunciaram em janeiro a descoberta do maior sistema solar do universo, a 100 anos-luz da Terra. Ele tem apenas dois corpos, a estrela anã TYC 9486-927-1 e o planeta gasoso 2MASS J2126-8140, cuja massa é de 12 a 15 vezes maior que a de Júpiter. Mas a distância entre eles impressiona: 6,9 mil unidades astronômicas, ou 1 trilhão de quilômetros, segundo a Universidade Nacional Australiana. É praticamente o triplo da distância registrada no maior sistema solar descoberto até então. O planeta leva cerca de 1 milhão de anos terrestres para girar em torno da estrela. Os cientistas consideram que esse sistema solar não se formou como o nosso e é jovem, com cerca de 10 milhões a 45 milhões de idade. O nosso sistema tem 4,5 bilhões de anos.

 

Flerte com o apocalipse

Ataque do Estado Islâmico no Iêmen: o mundo ainda segue perto da destruição
Ataque do Estado Islâmico no Iêmen: o mundo ainda segue perto da destruição

O Relógio do Juízo Final, criado em 1947 pelo Boletim de Cientistas Atômicos para avaliar o risco de uma guerra nuclear, marcou três minutos para a meia-noite no fim de 2015, tal como em 2014 – ou seja, continua próximo da destruição. Mesmo com o acordo nuclear iraniano e os resultados positivos da conferência do clima em Paris, 2015 foi um ano difícil, segundo os pesquisadores. Entre os fatores que os influenciaram a manter o horário estão os diversos ataques do Estado Islâmico, a guerra cibernética de informações, as tensões entre os EUA e a Rússia e a contínua ameaça nuclear da Coreia do Norte. Em 1953, durante os primeiros testes nucleares da União Soviética e após os testes da bomba de hidrogênio dos EUA, o relógio marcou apenas dois minutos para o apocalipse.

 

Mar de plástico

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Os oceanos do planeta estão atulhados de garrafas, sacolas, compact discs e outros produtos feitos de plástico. Para piorar, a sujeira que flutua na superfície representa apenas 5% do lixo jogado no mar, informa um recente estudo da organização ambiental americana Ocean Conservancy. Os outros 95% que estão submersos acabam sufocando animais submarinos e comprometendo o ecossistema aquático. Os cinco países que mais contribuem para esse problema estão na Ásia: China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnã. Sozinhos, eles respondem por 60% do lixo plástico que chega aos mares. Com a expansão dessas economias asiáticas, a renda e o consumo crescem lá e, consequentemente, o volume de plástico descartado também aumenta.

 

5 mil domicílios serão atendidos pela maior usina solar flutuante do mundo, feita na represa de Yamakura, no Japão. Ali, mais de 50 mil painéis fotovoltaicos cobrirão uma área de 180 mil m2. Depois de concluída, em 2018, a usina gerará 13,7 megawatts. Ela não será uma das cem maiores usinas solares, mas indica uma tendência que pode se espalhar pelo mundo.

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