Vôo rasante sobre o PAÍS BASCO

Dono de forte identidade étnica e cultural, o País Basco também é conhecido pelo arraigado sentimento nacionalista de seu povo.

A idéia do pacto com o diabo é bem antiga. Mas dessa aliança ninguém pode Aacusar os bascos. Conta uma lenda que o próprio demônio se lançou das alturas de uma ponte sobre o Vale Nive, em Bidarray, furioso por não compreender o euskara, o idioma basco. O local ficou conhecido como Ponte do Inferno. E se o idioma endoideceu até Satanás, imagine os historiadores. Alguns deles afirmam que a língua falada há mais de 5 mil anos tem parentesco com o sânscrito e o georgiano. Outros juram que não, embora assegurem que o euskara seja a língua mais antiga falada hoje na Europa – o vasconço, como também é conhecido o idioma, somente se constituiu como língua escrita no século 16 e reforçou o sentimento de união do povo.

Historiadores à parte, é do escritor francês Victor Hugo (1802-1885) o mérito de uma de suas melhores definições: “O idioma basco é uma pátria, eu diria uma religião.” Não por menos os bascos chamam sua nação de Euskal Herria, ou a terra da língua basca.

Apesar do nome, o País Basco não é uma nação independente, mas possui autonomia. Boa parte dele fica no norte da Espanha, e a outra parte no sudoeste da França. Sua cultura tradicional e peculiar desempenha um papel essencial na preservação da unidade do povo basco.

Tanto no lado francês quanto no espanhol, quando se pergunta a um basco qual é a sua nacionalidade, ele certamente responde: “Sou basco.” As coisas são um tanto complicadas na Espanha, onde organizações nacionalistas bascas desafiam o governo querendo a independência. Na França, a situação é bem mais calma, graças à política de tolerância do governo.

Vista do Rio Nervión, que atravessa a cidade de Bilbao. Abaixo, à direita, homens regressam de uma pescaria. A pesca ainda é um dos baluartes da economia basca. À esquerda, as sepulturas bascas são marcadas por estelas, signos cristãos e incrustações com o nome da família.

AS MESMAS montanhas dos Pirineus que separam a Espanha do resto da Europa unem os bascos em sete províncias, quatro espanholas e três francesas. Em Hegoalde, na Espanha, ficam Álava (Araba, em basco), Biscaia (Bizkaia, em basco, Vizcaya, em castelhano), Guipúscoa (Gipuzkoa, em basco, Guipúzcoa, em castelhano) e Navarra (Nafarroa, em basco). Em Iparralde, na França, estão as províncias de Lapurdi (Labourd, em francês), Baixa Navarra (Behe Nafarroa, em basco, Basse Navarre, em francês) e Sola (Zuberoa, em basco, Soule, em francês).

Nas portas de suas fronteiras com a França e a Espanha, contudo, cessam as influências culturais “estrangeiras”. A partir daí, os costumes, as festas, a música e a gastronomia testemunham o patrimônio e as heranças do povo basco. As províncias de Hegoalde, com 70% de uma população estimada em 3,5 milhões, são o coração do país, onde se espalham florestas e campos cultivados, aldeias e cidades vibrantes.

Muitas lendas rondam a terra dos bascos, a começar por sua origem. Sustentam alguns que os bascos seriam os filhos de Aitor, um dos sobreviventes do Dilúvio. Na história, porém, tal origem continua envolta em mistério. Outros acreditam que eles descendam dos Cro-Magnon, pois em suas terras há cavernas com inscrições e pinturas desse povo pré-histórico.

No trem TGV, que liga Paris a Bayonne, cidade basca francesa, a pretexto de puxar conversa, pergunto ao homem sentado a meu lado se é basco. Sob a boina preta, seu rosto sisudo não se altera: “Sim, basco.” E ponto. Já sabendo que a discussão não é nova, vou direto ao assunto, esperando como resposta uma bomba-relógio no colo: “É verdade que os bascos são separatistas?”, me atrevo.

“Não, mas no coração de cada basco há sempre um pouco de separatista, mesmo se ele negar isso”, garante Roger Bassussary, cuja cordialidade me surpreende enquanto conta histórias de seu povo. Ele contradiz a descrição destilada por um inglês no final do século 19: “Ardido como um galês, orgulhoso como Lúcifer e de combustão espontânea como seus fósforos.” Depois de um descontraído bate-papo, Bassussary aceita ser meu guia em Bayonne.

Gosto de ver uma cidade despertar. Flagrar o modo de vida da gente do lugar. Lojas abrindo, crianças a caminho da escola, sinos tocando, pouco trânsito. Nessa hora, ainda envolta pela fina névoa, quando o brilho do sol que surge se amplia nas poças de água das r uas, Bayonne, uma pequena Paris do início do século passado, desperta. Enquanto caminho pelas ruas estreitas dessa vila, sinto que o tempo não passou por ali. O Carrefour dos Cinco Cantos me confirma: no início do século 19, essa praça era ponto de encontro de mercadores e banqueiros que criaram uma espécie de bolsa de valores ao ar livre. Ali encontrei Bassussary.

Decido conhecer três ruas ao redor do Carrefour: a Argenterie, antes a célebre rua dos ourives, tem hoje lojas de artesanato de prata e cobre; a Rue des Faures, famosa pelas forjarias de armas militares, em particular as denominadas “brancas”.A baioneta (de Bayonne) foi a sua invenção mais famosa, usada nas guerras napoleônicas e na Primeira Guerra Mundial. E a Rue Victor Hugo, que atrai pelo aroma e pelo requinte das butiques de chocolate. Não é sem razão que Bayonne é conhecida como a capital francesa do chocolate.

Na Rue D’Espagne e sob os arcos da Rue Port-Neuf, as casas não têm mais do que quatro ou cinco andares. Nelas, as traves de madeira do vigamento principal, pintadas de vermelho ferroso ou de verde azulado, em conjunto com as venezianas, compõem um grafismo especial. Etche, que significa casa, é o pilar da sociedade basca”, diz meu guia, e explica: “É muito mais que moradia, pois também dá nome à família que a habita, como Etcheverria e Etchegaray, entre outras.”

Depois da caminhada, uma surpresa: Bassussary me conta que Ruth, sua mulher, preparou receitas típicas e está nos aguardando para almoçar. Apreciadores da boa mesa, os bascos têm uma gastronomia considerada hoje uma das melhores do mundo: privilegia os frutos do mar e os peixes, como merluza, bonito, polvo, lula, anchova e a angula (filhote de enguia). Muitos de seus pratos também são feitos com carnes, sobretudo com as de pato, cordeiro e novilho.

ANTES DO ALMOÇO, degustamos o txakoli, um vinho jovem da região do Golfo de Biscaia, acompanhado de presunto cru, outra tradição culinária da cidade. Como entrada, Ruth preparou o ttoro – sopa de peixes com crustáceos, herança dos pescadores. Depois, serviu um bacalhau ao pil-pil (gelatina de azeite, alho e pimenta). Para finalizar, ofereceu um queijo idiazábal, de consistência suave e ligeiramente defumado.

No sentido horário, a partir do alto, esquerda: nos fins de tarde, pescadores chegam a Saint-Jean-de- Luz com muitos peixes e algas, usados na produção de cosméticos; construções medievais da Rua Port- Neuf e a Catedral de Santa Maria (edificação gótica do século 12) fazem de Bayonne uma pequena Paris.

No dia seguinte, ainda no litoral basco-francês, e a meia hora de Bayonne, visito outra vila medieval, Saint-Jean-de-Luz, que guarda as tradições desse povo. Agora já sem meu guia, faço um passeio pela Gambeta, principal rua de comércio onde, nos séculos 17 e 18, moravam marinheiros e corsários. Há um detalhe curioso ali: nas antigas residências, sobre as portas ou janelas, velhas inscrições indicam o nome do proprietário, o ano de construção e até mesmo o nome do construtor. A cruz gamada, le lauburu, símbolo de boa sorte para os gregos, guarda o mesmo significado entre os bascos e decora seus móveis, casas e sepulturas. Outro aspecto da tradição basca está nos cemitérios. Semelhantes a jardins ornamentados com árvores e plantas, as sepulturas são marcadas por “estelas” – discos de pedra esculpida com símbolos solares, signos cristãos e incrustações com o nome da “casa”, portanto, o da família.

Quando caminho pelo porto de Saint-Jean-de-Luz, abrigado pela baía homônima, mergulho na história da navegação que se fundiu com a dos marinheiros bascos. Viajaram nas expedições de Colombo e, em 1518, Sebastião Elcano (ou El Cano) partiu como piloto da nau Victoria, de Fernão de Magalhães, na primeira circunavegação. Em 1544, Lope de Aguirre se dirigiu para a Amazônia peruana em busca do Eldorado.

Dos ancoradouros avista-se Ciboure. O povoado pesqueiro também é conhecido como “Vila dos Artistas”, já que muitos ali se fixaram. Foi em Ciboure que nasceu o compositor Maurice Ravel (1875-1937).

DEIXANDO AS vilas medievais, em direção às famosas praias de Biarritz, o tom já é outro. Nesse refinado balneário que hospedou reis e rainhas, a atmosfera em nada lembra os bascos. O que sustenta a economia local é o turismo atraído pelas praias e cassinos. Uma contradição, pois o País Basco se consolidou nessa faixa litorânea a partir do século 11, devido à pesca, em particular, a caça das baleias da espécie “Balaena biscayensis”, de até 15 metros de comprimento. É voz corrente que os vikings teriam ensinado os bascos nessa caça, pois seus barcos a remo – as pinazas – se assemelham às lendárias embarcações desse povo nórdico.

Em minha estadia em território basco, pude constatar o acentuado nacionalismo que tempera a personalidade dos bascos espanhóis. As cidades são conhecidas pelos nomes em basco, e não em espanhol. Os ícones do seu povo são a boina, a makila e os esportes. A boina, larga e de preferência preta, é o carro-chefe da vestimenta basca. Do pescador ao ovelheiro, do doutor ao comerciante, quase todos a usam. A makila, um bastão que hoje é mais utilizado pelos pastores em lugar do cajado, é esculpido em galho de nespereira e tem uma ponta de ferro. Já os esportes praticados no País Basco mesclam destreza, técnica e força. O mais conhecido é o da pelota.

Na região espanhola, a despeito da vitalidade da cultura, os bascos sentem sua autonomia política limitada.

Isso é notório já na fronteira da França com a Espanha, na cidadezinha de Irún, onde grafites com a sigla ETA estão pichados em várias paredes. ETA é a sigla de Euskadi ta Askatasuna – Pátria Basca e Liberdade -, nome de um grupo extremista que age principalmente na Espanha. No entanto, vemos igualmente “Basta ya”, contra essas práticas.

Em meio à turbulenta e aparente luta sem fim pelo território, as ações do ETA chegaram a um ponto máximo na década de 1970, quando foi assassinado em Madri o primeiro-ministro Luis Carrero Blanco, sucessor de Francisco Franco. Antes disso, contudo, o Generalíssimo já havia feito um estrago na cidade de Guernica (Garnika, em basco) em 1937, durante a Guerra Civil Espanhola. Visando dar um fim aos separatistas, ele arrasou a cidade. Foi um tiro que saiu pela culatra, já que, contrariamente ao que ele queria, a união basca se consolidou.

O movimento separatista vem perdendo força nos últimos dez anos, pois, além de o governo espanhol reconhecer o seu parlamento com leis próprias, a região tornou-se referência cultural, econômica e turística. É o caso de San Sebastian (Donostia) e de Bilbao. A primeira, notável por sua gastronomia e festivais, é considerada uma das praias mais bonitas do norte da Espanha. Já a segunda se destaca pela força econômica de suas indústrias e também pela projeção do Museu Guggenheim, símbolo da cidade e pedra-de-toque para as construções de vanguarda que se seguiram a ele.

Uma viagem ao País Basco não se sustenta apenas na história e na geografia da região. Exige um olhar agudo sobre a paisagem humana que participa de cada ação. Portanto, seja bem-vindo, ou melhor, engi etorri, no idioma basco.

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