Yann Arthus-Bertrand: Olhos de águia

Depois de mostrar a situação do mundo por meio de imagens aéreas, o fotógrafo, diretor e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand procura entendê-lo por meio do olhar das pessoas no filme Humanos

Quando o fotógrafo, diretor e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand nasceu, 70 anos atrás, éramos 2 bilhões de pessoas no planeta. Hoje, somos 7 bilhões. “Durante a minha vida, eu vi a população mais que triplicar”, destaca o francês, que lançou em setembro o filme Humano – Uma viagem pela vida. Apesar de ninguém saber o que vai acontecer daqui em diante – devido ao crescimento populacional, refugiados, mudança climática e crises econômicas –, para quem está de olhos abertos e atentos, como ele, é certo que a vida vai ser mais difícil. “Antes se esperava que o futuro sempre fosse melhor. Agora, todo mundo sabe que vai ser pior. Eu fiz esse filme porque acho que o ser humano é chave para a mudança e o amor também.”

Na carreira de cineasta de Arthus-Bertrand, destacavam-se até então duas produções: Home – Nosso Planeta, Nossa Casa (2009), sobre o esgotamento dos recursos naturais pelo homem, e 7 Bilhões de Outros (2011), sobre a relação das pessoas com o meio ambiente, sempre com imagens aéreas impressionantes. Em Humano, por sua vez, ele usa seus olhos de águia para enxergar o mundo dentro das pessoas e nas relações interpessoais por meio de 2 mil entrevistados em 63 línguas, de 60 países.

“Quanto mais eu vivo, mais amo as pessoas”, revela. Mas ele reconhece que, no filme, o ser humano mostra como pode ser maravilhoso e péssimo. E que isso está dentro de todos nós. De você, inclusive! Não só do outro. “Não acredito em Deus, mas acredito no bem e no mal. Existem as pessoas boas e as pessoas más. Nossa missão é nos tornarmos pessoas boas. E isso é muito importante, porque temos todas essas pessoas dentro da gente”, argumenta.

“A única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade” - José Mujica, ex-presidente do Uruguai, no filme Humanos. Ele e as quatro pessoas acima estavam entre os 2 mil entrevistados para a obra
“A única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade” – José Mujica, ex-presidente do Uruguai, no filme Humano. Ele e as quatro pessoas acima estavam entre os 2 mil entrevistados para a obra

Desde o início

Em 1999, quando ainda não existia GoogleEarth nem se falava de mudança climática, Arthus-Bertrand publicou na França A Terra Vista do Céu, depois traduzido para cerca de 20 idiomas. O livro consolidou sua marca no mundo fotográfico: as imagens aéreas sobre a situação do planeta. “Para esse livro, trabalhei com cientistas e ONGs. Acho que foi a primeira vez que um trabalho mundial trazia números sobre perda de biodiversidade, derretimento das geleiras, desmatamento, etc.”

Em 2005, criou a Fundação GoodPlanet, dedicada à educação ambiental e à luta contra as mudanças climáticas. A iniciativa o levou a ser nomeado, em 2009, Embaixador da Boa Vontade para o Programa Ambiental das Nações Unidas. Da fotografia foi aos poucos migrando para o vídeo. “Eu adoro filmar e fotografar. Mas gosto muito de cinema, porque se trabalha em time. São vários profissionais tão importantes quanto você trabalhando juntos. Quando você está fotografando, está sozinho”, compara.

Já a migração de foco – da natureza para o humano – aconteceu muito antes de as produções demonstrarem isso. Por volta de 1985, quando o helicóptero usado para fotografar um rali Paris-Dakar teve um problema, Arthus-Bertrand ficou dois dias na casa de uma família no Mali, na África. “Foi incrível. Mudou completamente minha vida, porque entendi que a gente precisa escutar as pessoas para entender o mundo. Depois disso, sempre que eu via alguém, pensava no que ela podia dizer para mim.”

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Histórias de vida

Aos 70 anos, Arthus-Bertrand está em plena atividade: lançando um filme, rodando outro e expandindo sua fundação
Aos 70 anos, Arthus-Bertrand está em plena atividade: lançando um filme, rodando outro e expandindo sua fundação

O sr. se sente velho aos 70 anos?
Quando eu acordo de manhã, sim. (risos). Mas na cabeça, não. Ainda faço loucuras de garoto. Lembro quando eu era jovem e achava que uma pessoa de 70 anos era muito velha. Eu não tinha nenhuma sabedoria.

Que tipo de loucuras?
Já estou produzindo meu próximo filme, Mulher. E, por meio da minha Fundação GoodPlanet, vamos inaugurar no ano que vem um lugar para debater meio ambiente, pobreza, desenvolvimento, bondade e essas coisas que sempre andam juntas. Será em um castelo, o Château de Longchamp, com quase 2,5 hectares de extensão. Ficará aberto gratuitamente todos os dias.

Estando toda a vida empenhado em causas ambientais e humanísticas, o sr. acredita que o ser humano pode reverter a situação à qual levou o planeta?
O problema é que a nossa civilização é baseada no crescimento, no consumo, e é muito difícil mudar isso. Sempre se quer mais, nunca se tem o suficiente. Isso está nos matando. Não sabemos como mudar isso. Mesmo eu: eu compro coisas, viajo de avião… É muito difícil equilibrar sustentabilidade e desenvolvimento.

O sr. virou vegetariano por causa dessas questões?
Eu virei vegetariano três anos atrás, quando estava no Rio de Janeiro, aliás. Porque os animais que comemos estão destruindo o planeta. A biomassa de mamíferos hoje é formada em 98% pelos humanos e pelos animais que comemos, enquanto os mamíferos selvagens representam apenas 2%. Se você entende e se importa com isso, torna-se vegetariano automaticamente. E percebi que as pessoas não estão tão envolvidas quanto eu. Mas a primeira pessoa a mudar é você, e não os outros.

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